sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Som Limpo ou Distorcido ?




Com a efervescente evolução tecnológica, tanto os sons que ouvimos como os equipamentos que temos acesso são forrados de recursos e efeitos. Criou-se uma ideia que guitarra só é guitarra quando se liga uma distorção.
É incontestável a importância que a saturação teve na história da guitarra e da música, mas o peso que teve o som limpo é ainda maior. Sem ele acordes, nuances e levadas rítmicas sincopadas não teriam o mesmo sabor. E isso não se limita ao terreno do Jazz ou do Blues. No Rock  até nas variações mais pesadas o som limpo sempre se fez presente.
O guitarrista aprende a tocar com o som limpo, não é mesmo? Bem, ao menos é assim que deveria aprender e nem sempre acontece.
Através do som limpo podemos conhecer o instrumento, como dominá-lo, compreender a duração das suas notas, a noção de afinação, e claro, descobrir o seu verdadeiro som.
Costumo dizer que uma guitarra só precisa de duas virtudes para me encantar. Uma afinação precisa e constante,  um som limpo bonito, equilibrado em toda a escala sem perder as características básicas do seu corte e construção.
Não é preciso abdicar de forma alguma da distorção ou dos leves e aveludados overdrives, mas na busca pelo timbre perfeito é preciso abrir um pouco mão do ganho para se chegar onde deseja. É muito mais cômodo para os ouvidos e fácil para as mãos o sustain e envolvência que a saturação traz, mas esse exagero mascara muito o potencial do instrumento e também a habilidade do músico.
Muitos guitarristas virtuosos que usam e abusam das distorções pesadas também precisam do som limpo na hora de calibrar o som. É aí que entra uma dica antiga e muito útil. A utilização de dois amplificadores. Um com distorção, outro limpo. A mistura destes dois sons, ajustada pelo ouvido do guitarrista, traz como resultado um som brilhante, cheio de detalhes e engana o ouvido tirando aquela sensação de distorção embolada. Isso também enaltece o timbre natural do instrumento, que como disse anteriormente é muito mais evidente quando tocamos com o som limpo.
Como a vida não está fácil pra ninguém, comprar dois amplificadores de qualidade para fazer essa brincadeira é algo fora de questão para a maioria dos guitarristas. Existem pedais de distorção e overdrive que trazem a função “mix clean”, mas também pode-se obter um resultado muito aproximado com outros pedais de mistura de efeitos.
Para quem curte sons mais calmos, fica a dica de tocar mais vezes tudo o que você já toca, mas desta feita com pouca ou até nenhuma saturação. Você vai se descobrir outro músico, com outro instrumento. É uma evolução do fim para o começo.
Agora quem já está acostumado só em tocar em drives com o ganho no "talo" (100%) tente tocar também tudo o que toca com pouquíssimo drive ou praticamente nenhum. Se não conseguiu, talvez esteja usando o som sujo com uma máscara.
Não se boicote, não mascare a sua arte.
Limpe um pouco a sua mente, um pouquinho mais o seu som e redescubra a sua música!

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Dica : Lubrificação das Cordas



Gostaria de falar de lubrificação das cordas e também compartilhar ideias. Na época que eu estudava Jazz, convivia muito com guitarristas já experientes e com muitos calos nos dedos. Certa vez perguntei a um guitarrista como ele lubrificava as cordas, qual produto ele usava. Eu reparava que ele utilizava cordas muito grossas, e tocava por muito tempo e os dedos viajavam pelas cordas com grande facilidade.
Ao que ele me disse:

“Esfrego as pontas dos dedos nas laterais do nariz, onde acumula a oleosidade da pele.”

Confesso que na hora não coloquei  fé e achei muito doido isso. Até este dia eu tinha utilizado produtos próprios para isso como o Fast Fret. Mas desisti de usar por causa do preço, pouca durabilidade e também porque após meia hora tocando já começava a travar e tinha que passar mais uma vez nas cordas. Os produtos “próprios” para as cordas normalmente são sintéticos e secam, ou são óleos naturais que deixam a guitarra grudenta depois.
Depois de pegar a dica, comecei sempre a utilizar esta técnica. Quando começo a tocar lubrifico as cordas com a oleosidade da minha pele e toco por horas sem nenhum problema. Quando termino de tocar pego um papel toalha, aplico um pouco de WD-40 e passo nas cordas. Cordas limpas e que duram bastante!

Sei que algumas pessoas devem estar com um pouco de nojo de fazer isso. Mas vamos pensar…

A oleosidade natural da pele nada mais é que uma hidratação natural e sem odor que o corpo produz.

Basta lembrar que ela não está presente apenas no rosto. Está nas nossas mãos e em toda a parte do corpo. Diariamente pegamos objetos que ficam “contaminados” com este óleo e que por vezes colocamos até mesmo na nossa boca. Por isso não se preocupe. Limpe bem as cordas depois de tocar que fica tudo certo.

Para quem está preocupado com a oxidação das cordas, aqui vai a composição:
25% de ceras monoésteres, 41% triglicerídeos, 16% ácidos graxos livres e 12% esqualeno.

Como podem ver, não apresenta nenhuma substância que vá acabar com as cordas. O suor dos dedos é muito mais corrosivo. Como referi anteriormente, quando acabo de tocar, limpo as cordas com WD-40 que protege a corda justamente da oxidação. Para quem estiver preocupado em andar carregando uma lata de WD-40 para ensaios e shows, recomendo guardar um algodão molhado com o produto num potinho daqueles de Kinder-Ovo.

Outra questão importante é não usar flanelas, pois além de não absorver a umidade, em cordas mais finas podem deixar fios. Use um tecido que absorva bem líquidos.  

Fica a dica! =)

Cuidados e Manutenção I : Limpeza




Para melhor conservação do instrumento, alguns cuidados são   essenciais para prolongar a vida do violão ou da guitarra. Muitas vezes por manuseio errado ou armazenagem em local incorreto os instrumentos podem sofrer avarias as quais podem ser evitados com cuidados básicos.

Primeira ação a ser tomada como regra, é tomar cuidado com quem manuseia o instrumento, evitando ao máximo deixar o violão, a guitarra ou o baixo com pessoas que não sabem como lidar com eles , podendo assim danificá-los. Já quanto ao próprio proprietário do instrumento, alguns cuidados básicos são imprescindíveis:

Tempo úmido ou seco: com as mudanças de temperatura e umidade o instrumento sofre variações sendo necessário certo controle sobre ele para evitar danos. Evitar ao máximo ambiente com umidade excessiva por período prolongado de tempo, isto ajuda a manter as colagens estruturais intactas.

Cases e capas podem acumular umidade com o tempo, sempre que constatado
certa umidade neles, deixar secar ao sol. No caso de acústicos, um higrômetro junto ao instrumento é algo que pode auxiliar no controle, tanto umidade excessiva quanto do tempo muito seco, que danificam as finas madeiras que são usadas, o ideal é manter em ambiente com umidade entre 40% a 60%, fora desta faixa, umidificadores e desumidificadores ajudam a controlar a umidade do instrumento, evitando danos estruturais e rachaduras na madeira. Do mesmo jeito evitar ambientes muito quentes por período prolongado, que também afetam as colagens estruturais.
Deixar o instrumento no carro em dia quente é algo que pode comprometer completamente um violão ou guitarra.

Limpeza do instrumento: ao terminar de utilizar seu instrumento, faça uma limpeza com pano macio e seco para retirar qualquer sujeira ou suor que caia sobre a superfície e nas cordas, geralmente são recomendadas flanelas macias, mas é sempre bom analisar o tipo de pano, pois alguns podem causar micro riscos no instrumento. O uso de produtos só se faz necessário se a sujeira estiver muito “grossa”, neste caso o uso de produtos específicos para limpeza de instrumentos o recomendável. Antes de aplicar qualquer produto certifique-se quanto ao tipo de acabamento que o seu instrumento possui, vernizes do tipo PU tem uma resistência maior e a grande maioria dos produtos de limpeza não o afetam; vernizes do tipo nitrocelulose já tem uma base um pouco mais sensível e podem se danificar com alguns limpadores com solventes químicos, evitar lustra móveis ou limpadores do gênero; vernizes do tipo goma laca ou óleo deve-se evitar qualquer tipo de limpador, o ideal é usar somente o pano seco, no máximo, levemente umedecido para limpar e logo em seguida pano seco para retirar qualquer umidade do instrumento. Existem produtos específicos
para limpeza de instrumentos, em geral não são caros pelo rendimento, a manutenção bem feita é mais barato que a reparação do dano.
Observação: para acabamentos em verniz fosco não se deve usar nenhum tipo de polidor, somente pano seco que deve ser aplicado sem muita força. Limpar o instrumento com força fará com que ele comece a tomar brilho.

Limpeza da escala: a limpeza da escala vai depender do tipo de acabamento que ela recebe. Alguns instrumentos têm a escala polida com ceras, outras somente aplicações de óleo e em casos de escala clara a aplicação de vernizes. Quando a escala é envernizada a limpeza deve ser feita como no resto do
instrumento, somente pano seco ou com polidores de instrumentos. A grande maioria dos instrumentos recebe apenas aplicação de óleo na escala, para a limpeza, embora antes devesse  analisar a necessidade, acúmulo de sujeira na escala é removida com produtos específicos, neste caso o luthier deve ser
procurado para orientação ou para realizar o trabalho. Após limpa a escala então é feita a aplicação do óleo de limão, duas a três gotas em uma estopa ou pedaço de pano pequeno, tal medida de produto é o suficiente para a escala toda, aplica-se o óleo na estopa e então é passado na escala, espalhando bem. Após aplicar o óleo, espera-se 1 minuto e retira-se o excesso de óleo com um
pano ou estopa seca. Deve-se sempre evitar excessos, pois em excesso o óleo pode acelerar a degradação da madeira e ela começa a desgastar rapidamente, sendo necessária sua troca em menor tempo, em geral, minha recomendação é de no máximo 2 vezes ao ano fazer a aplicação de óleo. Não existe o óleo ideal, existem os mais comuns, para saber qual o mais adequado ao seu instrumento, converse com o seu luthier de confiança.

Limpeza de peças metálicas: as peças metálicas de guitarras devem ser limpas com os mesmos polidores de instrumentos ou pano seco. Após o uso, limpar as peças do suor ou sujeira para evitar que se oxidem rapidamente. Deve-se usar um pano somente para as peças, pois as peças metálicas soltam resíduos no pano que pode causar riscos no instrumento. Peças douradas tendem a perder o acabamento mais facilmente, mas todos possuem certo desgaste. Ao limpar evitar esfregar a peça com muita força, evitando assim a retirada do banho que dá a cor à peça.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Captadores - Parte II - Imãs


IMÃS

Os magnetos, ou imãs, são o coração do captador e suas características e materiais determinam grande parte da sonoridade deste. Quatro tipos de imãs industriais são mais comumente usados (em ordem crescente de potência): Alnico, Ferrite, Samarium Cobalt e Neodymium. Todos são bem resistentes ao calor e corrosão.

1) - Alnico . É uma liga formada por Alumínio, Níquel e Cobalto ( e Ferro). O Alnico foi o primeiro tipo de liga magnética desenvolvida, portanto é o mais antigo da família dos magnetos. Foi desenvolvido para uso comercial por volta de 1940 e é composto por porcentagens específicas (mas que podem variar um pouco entre os produtores) de Alumínio, Níquel, Cobalto e Ferro (Ex: AlNiCo V: 15%Ni, 25%Co, 9%Al, e 48%Fe). A combinação dos componentes pode variar, gerando ligas de Alnico de diferentes potências, que são numeradas em algarismos romanos, com ordem crescente de potência: II, III, IV, V, etc. Ainda não encontrei uma informação exata, mas me parece que o Alnico III é mais fraco que o II. Os mais usados são o II e o V.
Todos os captadores de 1940 até início de 1960, com raras exceções, usavam ALNICO. Seu "timbre" é mais macio, ou pelo menos, sua resposta ao ataque da nota é mais natural, além de refletir bem as ressonâncias das cordas e madeiras.
O Alnico II, por ser mais fraco, tem menos ataque e mais médios que o V. Esse, por sua vez, apresenta graves e agudos mais definidos.


2) Ferrite (ou Cerâmico) - Strontium Ferrite - O imã de Ferrite é manufaturado desde 1954 e nasceu como uma alternativa de baixo custo para o Alnico. Resulta da combinação de Estrôncio e Ferro, inicialmente em pó, depois prensado e aquecido a altas temperaturas, adquirindo um aspecto "cerâmico".
Devido a sua estrutura, nos captadores é usado apenas em forma de barras.
O Ferrite soa mais agudo, seco, com mais ataque e realça menos as ressonâncias que o Alnico.


3) Samarium Cobalt - Assim como o Neodymium, é formado por minerais raros (Rare Earth Magnets) e é bem mais potente que o Alnico ou Ferrite. Usado em alguns captadores, como os Fender SCN (Samarium Cobalt Noiseless).

4) Neodymium - Magnetos de extrema potência, mas atualmente usados mais em alto-falantes

Essas ligas são magnetizadas em máquinas específicas através de pulsos eletromagnéticos. Por curiosidade, o Neodymium é tão potente que ele próprio pode magnetizar/desmagnetizar o Alnico.
A maioria dos produtores de captadores magnetiza o Alnico somente após o captador montado.

Mas o que interessa para o guitarrista?

Nos interessa tão somente o TIMBRE que diferentes tipos de magnetos podem nos proporcionar. E a influência no timbre não depende apenas do material e força magnética, mas também da posição do magneto em relação à(s) bobina(s).
Vamos dar uma geral:

Nos Singles clássicos, os pinos de alnico estão no centro da bobina. Isso gera um timbre mais seco, com mais ataque e brilhante.


Já nos Humbuckers, a barra de alnico localiza-se embaixo das bobinas, transferindo o magnetismo para os parafusos.


P-90 é exatamente um meio termo entre eles, pois tem apenas uma bobina (é um single), mas duas barras de alnico (uma de cada lado, polaridades inversas) magnetizam os 6 parafusos centrais.

Claro que cada captador tem sua sonoridade não apenas pela estrutura magnética e sim pela estrutura global, mas eu diria que o imã contribui com pelo menos 50% disso...
Esses são os 3 tipos básicos de captadores que utilizam Alnico, mas outros excelentes, como os GretschDeArmond, Dynasonic e Filtertron devem ser mencionados (por favor, procure pelas especificações da guitarra do Malcom Young/ACDC :) ). Aliás, os DeArmond e Dynasonic são singles incríveis - veja os links de vídeos abaixo.

A partir dos anos 60, gradativamente o alnico foi sendo substituido, nos captadores mais baratos, pelo ferrite. Nos anos 80, com os humbuckers de alta potência, o ferrite passou a ser uma opção até para captadores mais caros porque o aumento do número de voltas/resistência diminui os agudos e o ferrite é um pouco mais agudo que o alnico. Em captadores de baixa saída (os clássicos), ele soa estridente, mas pode ficar muito bem nos outros.
Uma mutreta que não dá pra encarar é um single que, ao invés de usar pinos de alnico, tem uma barra de ferrite embaixo magnetizando pinos de metal. São os que abundam por aí nas guitarras chinesas baratas. Veja:



Alguns humbuckers de alta potência, mais de 17k geralmente, precisam utilizar 3 barras de ferrite (uma central maior e duas laterais menores), senão soariam abafados demais.
Se tens curiosidade de saber se o teu single coil é cerâmico, é só procurar pela barra. Ou observar o brilho dos pinos - geralmente o alnico é mais fosco e nunca é niquelado.
Os imãs de ferrite são escuros e os de alnico via de regra têm aspecto de aço escovado (embora hoje em dia, alguns captadores vintage e caros utilizem alnico não polido).
Pessoalmente, nunca ouvi um captador feito de ferrite, de baixa/média saída, que soasse natural ou bonito. Alnico na cabeça!
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Pra ilustrar o post geral sobre captadores, vou colocar links para exemplos clássicos de captadores clássicos. Entre os caras, ninguém melhor do que o Phil X pra isso:
Single DeArmond (Gretsch Duo Jet 1953):

Single P-90 (Les Paul 1955) 

Humbucker PAF:

Stratocaster 1957 e seus singles (essa todos conhecem - ouça também Mark Knopfler, Eric Clapton, John Mayer, Hendrix e dezenas de outros mestres):


E pra finalizar esse post sobre captadores, um excelente vídeo com o Gary Moore (RIP) tocando só guitarras clássicas e captadores clássicos num Orange Tiny Terror (o pedal, ligado eventualmente, pode ser um Tube Screamer mas é mais provável um Digitech Bad Monkey). A Telecaster dele é 1968

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Produção Musical - Parte III - Experimentações e Gravação Guia



Experimentações

Neste momento, as análises já estão documentadas e diversas decisões foram tomadas. Até agora, o processo ocorreu através de reuniões e discussões entre artista e produtor. A próxima fase começa a fazer uso de áudio no estúdio e/ou técnica. Versões são gravadas para se testar tonalidade e andamento, estudar complexidade e alternativas.

É uma espécie de ensaio da gravação e da mixagem, para que músicos e técnicos possam testar arranjos, formas e variações, retirando qualquer dúvida ainda existente após as análises. Ao mesmo tempo, são realizadas algumas gravações que serão úteis durante o desenrolar do processo.

O registro original da composição (em áudio) pode ser utilizado como base para as versões experimentais, economizando-se tempo.
Por questões de agilidade, o próprio produtor ou outra pessoa da equipe pode tocar alguns instrumentos ou mesmo cantar nas versões guias. Neste caso, o artista não deveria se sentir "traído" de maneira alguma.

Na verdade, se o compositor não é exatamente um bom intérprete, sua música seria muito melhor valorizada se interpretada por outros músicos. Outras vezes, a formação original da banda pode ser modificada durante as gravações, para o bem da música - este sempre é o objetivo maior. Existem excelentes músicos de estúdio que não desempenham bem ao vivo e vice versa.
Ser um artista é muito mais do que entregar uma boa performance: composição, imagem pública, presença de palco, visual, histórico, carisma – aspectos não necessariamente relacionados à produção musical.

As experimentações são uma oportunidade de testar o entrosamento da equipe e a confiabilidade de equipamentos e processos. Já que a qualidade do áudio não é prioridade, a equipe pode se concentrar na mensagem musical.

Durante os experimentos, traçar o contorno emocional da música é outro recurso valioso. O contorno emocional indica graficamente como as informações musicais entram e desaparecem ao longo da música. Está bastante conectado ao arranjo, à Teoria da Informação e à Teoria Gestalt. Que emoções e com que intensidade cada sessão da música oferece? O contorno é estável e cansativo ou apresenta variações, picos e respiros interessantes?
Rapidamente, a quantidade de testes pode se tornar grande e, assim, é muito importante documentar todas as versões: data, equipamentos usados, principais variações, duração, andamento, tonalidade, forma, letras, harmonia, reações dos ouvintes.
Com os recursos atuais, facilmente o áudio pode ser picotado e misturado com outros elementos para agilizar os testes, como batidas diferentes, estilos modernos e antigos, elementos originais ou datados, timbres criativos ou clássicos. Se o artista ainda não possui uma identidade musical, este é um bom momento de construí-la.

Quando ouvimos Santana, reconhecemos que é Santana. The Police, Dire Straits, Steely Dan, Iron Maiden, Elvis Presley, Bach, Jack Johnson e Norah Jones. São todos exemplos de grande personalidade musical que muitas vezes surgiram de experimentações.

É cada vez mais difícil se criar uma identidade musical. Um melhor caminho talvez seja encaixar-se em um estilo ou nicho de mercado. Mais uma vez, as referências se tornam grandes aliadas: “gostaria que soasse como U2", "adoro a percussão daquela música do Jethro Tull", "queria um ritmo marcante como Down on The Corner do Creedence". As referências ajudam a equipe a eliminar alternativas, a compreender as intenções do artista. Além disso, auxiliam o público a se identificar com faixas e artistas, aceleram a adoção de músicas.

Durante esta fase, é muito prático e eficaz utilizar programação MIDI, bibliotecas de loops e samplers. Timbres e ritmos podem ser alterados e "votados" pela equipe. Convide amigos e desconhecidos para testes de audição para ter uma boa idéia do que a música está passando, antes que as horas de estúdio sejam agendadas.

A mensagem está clara? Soa como plágio ou lugar comum? É muito alternativo, de difícil digestão? Qual a primeira reação do público?

A primeira reação pesa muito no sucesso de uma música. Infelizmente, ela tende a desaparecer para aqueles envolvidos na produção, cada vez que escutam a música mais uma vez.

Ao final das experimentações, o produtor deverá ter diagnosticado profundamente alguns critérios como: clareza, simplicidade, ênfase, coerência, especificidade e repetição - elementos importantes, embora inconscientes, para a percepção (e avaliação) dos ouvintes.

Durante os experimentos, deve-se tomar o cuidado para que o artista não considere as versões-teste como uma produção final. Por várias vezes tive dificuldade para explicar ao cliente que aquilo que ele estava ouvindo não deveria ser julgado como produção finalizada, pois ainda estávamos na pré-produção. Timbres que soam como karaokê, notas fora de tempo, loops e efeitos “baratos” somente estão ali para o estudo de possibilidades.

É uma questão de recursos: por que gastar tempo buscando o melhor timbre na sua biblioteca de loops ou quantizando todas notas no groove se provavelmente aquilo não será reaproveitado? No entanto, é preciso um mínimo de “realismo” para que se possa comunicar a proposta.

Para cada versão, faça um mixdown do áudio e salve a sessão do seu software com um nome diferente. Envie o áudio para o artista (ou produtor) e peça para ele comentar. Ele pode usar o áudio para gravar outro instrumento por cima, editar a forma, testar vocais.

Por diversas vezes acabei utilizando 90% do tempo total de uma produção para a pré-produção. Essa é a hora de explorar instrumentos e idéias que estão engavetadas. É muito provável que, em algum momento, a equipe se manifestará: “É isso!”. Uma descoberta, um detalhe, que parece dar forma à música, clareando a visualização do resultado final. Este estalo de descoberta e confiança tende a ocorrer várias vezes durante a produção, preste atenção neles pois podem resolver grandes problemas. Agora é hora de fazer uma gravação-guia!

Gravação-Guia

Naturalmente, todas as experimentações e as várias gravações realizadas durante a pré-produção caminham para uma gravação-referência, um mix que resume todas as ideias e contém uma estrutura candidata à forma final. Esta será a versão final da pré-produção.

Às vezes, esta gravação-guia consegue atingir um resultado tao bom (artístico e técnico) que passa a fazer parte do CD demo (demonstração), do EP ou mesmo do LP do artista*. Principalmente quando não há orçamento para se seguir adiante com a produção, ou quando é importante uma rápida divulgação.
(*EP e LP no sentido de quantidade de faixas, provavelmente o formato será CD ou arquivo digital MP3 para download)

O CD demo deverá incluir de 3 a 5 canções. O repertório deveria representar o artista da melhor maneira possível – estilo, versatilidade e técnica.
Uma demo é útil na divulgação do artista para rádios, casas de show, editoras, selos, produtores, investidores. O problema é que centenas de CDs são enviados diariamente para estes caçadores-de-talentos e acabam esquecidos numa grande pilha. Quando escutados, podem ser rapidamente descartados se os primeiros segundos da música principal não se mostram interessantes e muito bem produzidos.

É por isso que, hoje em dia, uma demo está mais para uma produção final do que para uma gravação-guia.

Na fase das gravação-guia, melhor seria seguir adiante, acabar a produção de sua música e só então lançar o CD demo, que certamente terá mais chances de se destacar!

Com a gravação-guia em mãos, é fácil envolver outras pessoas, expor o trabalho para gravadoras e receber críticas. No final do dia, a guia comunica as intenções do artista e da equipe de produção, permitindo que selos e editoras tenham uma boa idéia do potencial da canção.

A gravação-guia, bem como toda a documentação que a acompanha, pode ser utilizada pelo compositor (intérprete ou banda) para gravar, mixar e masterizar em um momento futuro, em outro estúdio ou cidade, preferencialmente com participação do mesmo produtor.

Eventualmente, até com outra equipe de produção. Se uma gravadora se interessar pela música, ela poderá oferecer adiantamentos, financiar os custos de produção, fornecer estúdios e técnicos e até mesmo interferir diretamente na produção (afinal, está pagando).

Neste momento, a pré-produção está finalizada e irá garantir uma produção sem grandes falhas ou frustrações. É hora de seguir para o estúdio. Na fase de captação, artistas e técnicos podem se concentrar na performance. Com a pré-produção concluída, gastarão menos tempo e dinheiro dentro das salas de gravação, atingindo resultados surpreendentes.

Utilize a gravação-guia para avaliar a Pré-Produção, afinal, todas as decisões e informações musicais estão contidas nela. Quantos musipontos você daria? ( musipontos, fora abordados na parte I )
Se ainda não considera que atingiu 2 dos 3 pontos, que tal gastar um pouco mais de tempo antes de iniciar as sessões de gravação? Procure testar outros arranjos. Lembre-se que retirar elementos costuma ser mais eficiente do que adicionar.


A música está longa ou curta? Tem um foco claro ou muitas coisas interessantes ao mesmo tempo que podem confundir o ouvinte? A composição é boa, se sustenta sozinha ou exige muito da produção?

( na próxima parte veremos: "Captação de Bases".


fonte: Dennis Zasnicoff