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quinta-feira, 14 de março de 2019

Termos Abstratos da Mixagem



Os engenheiros podem ficar muito empolgados quando o assunto é mixagem de música.
Mas o som é algo difícil de ser descrito – ao nos depararmos com um mar de jargões técnicos a serem usados, falar sobre nossas faixas pode ser frustrante.
Felizmente, existem termos corriqueiros que os engenheiros utilizam para expressar questões relacionadas à mixagem e às qualidades do som
Abordarei sete dos termos mais usuais no mundo da mixagem – o que eles significam e como lidar com os elementos da sua mixagem aos quais eles se referem.
1. Boomy
 O termo Boominess faz referência à energia excessiva das baixas frequências que causam um efeito de sustain exagerado nos seus alto-falantes.
Por exemplo: “Quero que esse kick seja gordo, mas agora ele soa apenas boomy.”
“Quero que esse kick seja gordo, mas agora ele soa apenas boomy.”
Os alto falantes só são capaz de reproduzir com clareza uma certa quantidade de low end.
Graves em excesso podem sobrecarregar os alto falantes, causando um efeito negativo que se irradia em todo o espectro de frequência sonora.
Como consertar:
Trate os baixos que soam boomy com um filtro de passa-alta em fontes com muito low end.
Mova o filtro até começar a ouvir um impacto negativo no som – você deve ser capaz de cortar as baixas frequências mais do que você imagina.
2. Muddy
 O termo muddy geralmente diz respeito a uma congestão de elementos conflitantes faixa de frequências média inferior.
Por exemplo: “A mix inteira fica muddy quando eu ligo o baixo, talvez eu deveria cortar em 250 Hz.”
A faixa média inferior é uma região difícil para engenheiros iniciantes e intermediários. Quando a mix soa muito muddy, a claridade e a separação dos instrumentos é afetada.
Como consertar:
Evite uma mix que soe muddy esculpindo os médios inferiores sempre que eles não forem essenciais para o som desejado.
Os instrumentos que tradicionalmente dominam o espectro do low end como o kick e o bass são a primeira opção para a aparação dos médios inferiores.
Boa parte da energia vinda dessas fontes deveria estar concentrada no low end deixando espaço nos médios para outros instrumentos.
3. Boxy
 Trata-se de um som ou uma mix composta em sua maioria por frequências médias sem que hajam baixas e altas o suficiente.
Por exemplo: “Essas guitarras soam muito boxy, deveríamos usar um microfone com mais high end.”
“Essas guitarras soam muito boxy, deveríamos usar um microfone com mais high end.”
Uma mix boxy soa flat e com carência de detalhes. Você vai notar isso assim que usar como referência uma faixa comercial bem produzida.
Como consertar:
Evite um som boxy assegurando-se de não sobrecarregar os seus médios e de não negligenciar os pólos extremos do seu espectro de frequência.
4. Quente
 Ao chamarmos um som de quente nos referimos à distorção harmônica e à um top end não enfatizado.
Por exemplo: “Uau, esse vocal ficou quente depois que adicionei aquele plugin de compressor valvulado.”
Um som quente possui uma qualidade bastante almejada sendo geralmente atribuído aos equipamentos analógicos. Ele contribui para que uma mix soe suave e consistente aos ouvidos.
“Uau, esse vocal ficou quente depois que adicionei aquele plugin de compressor valvulado.”
Como obtê-lo:
Crie um som quente aparando sutilmente os agudos e aplicando processadores de saturação/analógicos.
Assegure-se de fazer isso com moderação – muita saturação artificial de emulação analógica podem desequilibrar o som som. Vá com calma!
5. Harsh
 Essa expressão designa uma faixa de médios superiores agressiva que cansa os ouvidos.
Por exemplo: “O sintetizador de ondas quadradas tá bem harsh, você pode reduzir o corte de frequência do filtro um pouco?”
A Harshness é um problema em muitas mixes. A última coisa que você quer para a sua mix é que ela soe cansativa para os seus ouvintes.
Os efeitos de uma mix harsh podem ser ainda piores em sistemas sonoros comuns como fones de ouvido ou alto falantes de laptop.
Como consertar:
Evite um som harsh sendo extra cuidadoso com o seu EQ e com o posicionamento do microfone ao lidar com energias na faixa de 3-5 kHz.
6. Depth
 “Fazer o panning nos mics da sala de uma forma mais ampla concedeu mais depth à bateria.”
O Depth é a qualidade tridimensional de uma mix.
Por exemplo: “Fazer o panning nos mics da sala de uma forma mais ampla concedeu mais depth à bateria.”
O Depth é algo desejável para criar uma sensação imersiva que capta a atenção dos ouvintes.
Ele ajuda na separação dos instrumentos e o senso de espacialidade geral.
Como obtê-lo:
Use uma mistura de microfonação próxima e distante ao monitorar para obter uma boa variedade de ambiências para mesclar durante a mixagem
Fontes diferentes em distâncias perceptivelmente diferentes e um panning nas posições vai te ajudar a estabelecer a profundidade da sua mix.
7. Ar
 O Ar consiste na vivacidade sutil nas altas frequências da sua mix.
Por exemplo: “Os microfones de fita soam bastante escuros e poderiam usar algum ar.”
O ar confere realismo e dimensão à fontes como vocais e microfones de sala. Um top end aberto, suave e arejado é um desejo comum em muitas mixes.
“Os microfones de fita soam bastante escuros e poderiam usar algum ar.”
Pense no ar como uma faixa de agudos presentes, agradáveis e bem equalizados.
Como obtê-lo:
Use um gentle bell ou um filtro shelving no seu equalizador mais suave para incrementar o top end sutilmente entre 8-16kHz.
Seja cuidadoso! Excessos podem introduzir harshness na sua faixa. O pouco já é suficiente!
Um ar sutil na sua mix pode ajudar os vocais a se ajustarem de forma suave acima de todo o resto e conferir realismo e vivacidade às gravações dos microfones de sala.
Qual é o ponto quando falamos sobre mixagem
A mixagem é um processo bastante subjetivo, assim como os termos usados para descrevê-la.
Todo engenheiro provavelmente tem noções ligeiramente distintas sobre o que “ar” ou “depth” significam.
As definições desses termos são somente orientações para te motivar a pensar e falar sobre questões importantes na sua mix e dessa forma te ajudar a conceber sonoridades específicas.
Agora que você já sabe o que tudo significa, aprofunde-se na sua mix com um destino mais claro em mente!

Fonte: https://blog.landr.com

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Produção Musical - Parte VII : Mixagem



Esta etapa só deve começar quando todas as captações estiverem concluídas, editadas e compiladas. Mixar, na verdade, nada mais é do que misturar.

Cada gravação foi registrada em uma trilha distinta no computador ou fita. Durante a mixagem, várias trilhas tocam ao mesmo tempo enquanto o técnico mistura a proporção (volume), a posição (esquerda, fundo, etc.) e os efeitos de cada uma delas, buscando clareza, impacto, interesse.

A mixagem não precisa ser estática! Um instrumento podem variar de intensidade durante a música, mudar de posição, parar de tocar ou soar com outro timbre em algumas partes da música. Essa imensa gama de possibilidades faz com que cada mix seja diferente do outro.

A grande lei da mixagem é que cada elemento precisa ter um propósito bem definido, para se evitar congestionamento de informações. Via de regra, menos é mais. Nossa tendência é adicionar para enriquecer, enquanto que retirar pode ser o melhor caminho quando se deseja criar variedade e interesse.

Durante as gravações, provavelmente técnico e produtor fizeram alguns rough mixes para facilitar overdubs e coberturas. Estes mixes possuem um grande valor e podem ser usados como referência durante a mixagem, assegurando que a proposta original não seja esquecida. Se o rough mix não estiver suficientemente desenhado para servir de base para a mixagem que se inicia, o produtor criará um neste momento.

Um excelente indicador da qualidade da pré-produção (e das gravações) é conseguir fazer um rough mix em poucos minutos, no qual todas as trilhas estejam audíveis e claras, sem a necessidade de explorar intensamente recursos da mesa (real ou virtual). Se o rough mix está soando bem então as trilhas devem estar mais do que prontas para serem mixadas.

Se houver tempo, peça que cada músico da banda faça sua própria mixagem. Os resultados podem ser surpreendentes! Há diversos casos de produções que acabaram utilizando um rough mix como versão final da mixagem, porque não conseguiram criar uma mais interessante depois.

Mixar é um processo tanto artístico quanto técnico. O engenheiro (técnico) de mixagem, juntamente com o produtor, pode levar a produção para caminhos totalmente distintos e até irreconhecíveis. Por isso é importante revisitar, de tempos em tempos, o registro original, a gravação-guia, o rough mix e as referências fornecidas pelo artista.

Quatro diferentes domínios são explorados durante a mixagem: Volume, Espectro, Panorama e Profundidade. Qualquer atividade realizada durante o mix, inevitavelmente vai interferir em um ou mais destes domínios.

O conceito de “mixagem” costuma ser confundido com criação, gravação, até mesmo com a produção. Na verdade, trata-se apenas de uma das etapas e deveria ser realizada na ordem proposta neste manual. Se a mixagem começar a modificar profundamente a forma ou a instrumentação da música, estará de fato fazendo o papel de pré-produção, podendo influenciar muito mais no resultado final, mas normalmente de uma maneira negativa.

Um dos aspectos mais importantes da mixagem é a correta monitoração, afinal técnico e produtor farão muitas decisões baseadas no que estão ouvindo. O que escutam deve representar com fidelidade o que está gravado. Pode parecer óbvio, mas é comum o sistema de monitoração (sala, amplificadores, monitores, posição de audição) ser menos do que aceitável, refletindo em erros que serão revelados mais tarde, na masterização.

Uma monitoração deficiente modifica a percepção de timbres, profundidade, panorama, detalhamento, ruídos, efeitos, equilíbrio. Mais uma vez, o desempenho acústico da sala se mostra a variável mais importante, juntamente com ouvidos bem treinados.

O técnico tem papel crucial no fluxo da mixagem. Um profissional experiente conhece as linguagens do meio e pode se comunicar facilmente com artistas e produtor. A economia de tempo e esforço é grande, ainda mais se há domínio sobre os equipamentos. Sua atenção deve estar voltada para os aspectos técnicos da produção, e não ao funcionamento de hardware e software. Há produtores que sempre trabalham com o mesmo técnico, pois reconhecem as vantagens de uma boa interação dentro da sala de controle.

A familiaridade do técnico com a sala, bem como as características acústicas da monitoração, têm grande peso no resultado. Não é por acaso que as produções caseiras não costumam soar tão bem.
Além de volumes (níveis) e panorama (esquerda-centro-direita), os processamentos mais comuns durante a mixagem são:

●Equalização – corretiva e criativa, retira excessos ou compensa faltas. Modifica o equilíbrio entre as freqüências (graves, médios, agudos), destacando elementos, corrigindo timbres ou evitando o congestionamento no espectro sonoro. Nossos ouvidos têm dificuldade para separar informações e a mixagem precisa auxiliar neste processo. EQ é uma das ferramentas disponíveis durante o mix.

●Compressão – basicamente, controla as variações de volume de uma trilha ou conjunto de trilhas. Alguns estilos musicais pedem maior uniformidade – pouca diferença entre os sons baixos e altos - daí o nome “compressão”. Compressores são comumente mal utilizados e podem acabar com a dinâmica natural da música.

●Reverb/Delay – os sons naturais que escutamos resultam da soma do som direto com reflexões do ambiente. Algumas reflexões são mais notáveis, outras formam um “rastro” de som. Estas informações influenciam diretamente na nossa percepção de distância, tamanho de sala, naturalidade etc. Delays e reverbs artificiais podem melhorar o realismo, a espacialidade e o impacto de instrumentos, muitas vezes colocando-os numa mesma “sala virtual”.

O mix final é avaliado pela equipe de produção e pelos artistas numa sessão de audição. Profissionais da gravadora também costumam participar desta sessão. O áudio final, normalmente em estéreo, é gravado com alta qualidade em um formato confiável e de fácil manipulação pelo engenheiro de mixagem.

Antigamente, o mixdown (ou bounce) era realizado em tempo real, através de um console de mixagem. As trilhas, já editadas e sincronizadas entre si, eram tocadas simultaneamente enquanto o engenheiro de mixagem (auxiliado por outras várias mãos) operava os inúmeros controles de volume, panorama, mandadas de efeitos, equalizadores e compressores.

Com a evolução dos consoles, várias destas operações passaram a ser automatizadas. As variações durante a música, sobretudo os faders de volume, podiam ser planejadas e programadas com antecedência. Durante a gravação do mix final, estes controles moviam-se “sozinhos” através de motores, facilitando o trabalho e melhorando a precisão do mix.

Hoje em dia, além de podermos automatizar virtualmente qualquer controle dentro do computador, também não é mais necessário que se utilize um console de mixagem grande, caro e faminto de manutenção regular. Há quem ainda prefira fazer a mixagem “out of the box”, ou fora do computador. Nesses casos, o computador funciona como um gravador multi-pista (fornecendo as trilhas para o console) e como um gravador estéreo (recebendo o mixdown de volta).

As razões para se utilizar um console externo podem ser variadas. Muitos engenheiros trabalharam anos e anos com um determinado console e, de fato, tendem a ser muito mais práticos, rápidos e precisos quando utilizam suas mãos, ao invés de mouse e teclado. Outros alegam que a qualidade do áudio é incomparável, recusando-se a mixar digitalmente.

Particularmente, não acredito na diferença de qualidade de áudio. Conforme vimos anteriormente, diversos fatores influenciam no resultado final, e não apenas uma das etapas, ou um equipamento em particular. Minha sugestão é que o técnico utilize o método com o qual se sente mais confortável.

Também é possível utilizar superfícies de controle externas que “simulam” um console de mixagem e trazem os benefícios dos dois mundos.

Este registro da mixagem final, copiado e arquivado, chama-se de “master mix”. No futuro, as eventuais remasterizações para formatos variados (incluindo aqueles que ainda nem existem), serão feitas a partir dele. Quanto melhor a qualidade de áudio do master mix, maiores e melhores as possibilidades de masterização para diferentes formatos e públicos: CD, SACD, vinil etc.

Um dos erros mais comuns durante mixagem é adiantar-se e tentar “masterizar” o mix final na mesma etapa. Assim como não é recomendado cortar o próprio cabelo, a masterização deve ser feita por um outro profissional que esteja menos envolvido no processo de produção e ofereça uma visão externa, treinada, mais objetiva e sem influências.

Fonte: Dennis Zasnicoff

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Produção Musical - Parte VI - Overdubs e Rough Mix




Frequentemente, algumas das trilhas gravadas precisam de ajustes. Uma audição detalhada poderá revelar ruídos de captação, erros de tempo ou notas desafinadas. Talvez o vocalista estivesse resfriado ou pouco inspirado, a pele de um tambor da bateria pode ter desafinado ou um cachorro apareceu latindo bem no meio da bridge.

Os overdubs são regravações de passagens que precisam ser melhoradas*. Corrigem erros de captação e permitem a “colagem” de partes para a composição de uma frase musical perfeita.
(*tecnicamente, podem se referir a qualquer gravação realizada sobre outras)

Quando a linha melódica é complexa ou rápida demais para ser executada com perfeição em um só take, o processo de overdub permite que um trecho seja gravado repetidas vezes, em loop. Posteriormente, técnico e produtor podem montar um take perfeito com as melhores partes de cada trecho gravado. Esta técnica é conhecida como comping.

Uma sessão de overdub oferece atenção especial ao solista. Grande parte da equipe está concentrada em uma só performance, um instrumento, um microfone. Vários takes podem ser gravados em loop enquanto existe comunicação em tempo real com o artista - comentários, avaliações, sugestões.

Um perigo é o overdub soar fora de contexto, porque normalmente os takes são gravados em salas (acústicas) diferentes da originalmente usada para as bases ou coberturas, com grande espaçamento de tempo. Além disso, o uso de fones de ouvido e a ausência de outros instrumentistas na sessão de gravação podem criar um “isolamento” para o músico, dificultando sua performance. Quanto mais acostumado com o ambiente de estúdio, melhores as chances do artista desenvolver sua gravação sem dificuldades.

O mix que o artista escuta durante o overdub está agora bem completo, com base e cobertura. Mas ainda não se trata da mixagem final, que tomará bastante tempo e atenção na próxima fase. Assim, este “mix rascunho”, ou rough mix, pelo menos permite que a gravação ocorrendo neste momento se encaixe no contexto. Os efeitos aplicados sobre o rough mix e o próprio overdub (como compressão e reverberação) são ouvidos pelo músico em tempo real, nos seus headphones, ajudando a melhorar sua interpretação.

O rough mix, ou “mixagem rascunho”, auxilia na gravação dos overdubs e ainda tem outras utilidades.

Este rough mix é resultado de uma mixagem rápida, simples e intuitiva, geralmente com participação de muitas pessoas na sala de controle (técnicos e músicos). Por este motivo, representa o sentimento espontâneo da equipe durante as sessões de gravação e deverá ser revisitado regularmente durante a mixagem, para que conceitos e idéias importantes não sejam perdidos.

Durante os takes, é essencial que o músico tenha total conhecimento da forma da música, suas entradas e saídas, letras e harmonia, para que o processo não se prolongue e nem se torne cansativo. 

A boa comunicação entre técnico e artista agiliza bastante as gravações e, para tanto, são utilizados gestos previamente combinados e microfones de talkback. Muitos overdubs, sobretudo aqueles que não dependem da acústica de uma sala grande e viva, acontecem dentro da própria técnica e isso colabora bastante para o entrosamento entre técnico, artista e produtor.

Um ambiente agradável, confortável e criativo retira a pressão do artista e do técnico, favorecendo a música. Técnicos devem ter especial cuidado para não interferirem na performance do artista com erros de operação, preocupando-se em testar e instalar equipamentos com antecedência.

Da mesma forma, artistas devem respeitar as limitações tecnológicas (mesmo que aparentemente não existam) entregando uma performance ensaiada, de alta qualidade, pois raramente “consertar na mixagem” é a melhor saída. Há um limite do que se pode fazer durante a mixagem. Vale sempre lembrar que a gravação (performance, captação) tem muito mais influência no resultado final do que as fases seguintes, como edição e mixagem.

Nem sempre as etapas de captação (base, cobertura e overdubs) precisam ser encaradas como processos independentes. Muitos artistas desempenham nitidamente melhor quando tocam juntos. 

Mas, naturalmente, quanto mais complexo o arranjo ou quanto maior a dificuldade de cada frase instrumental, mais caminhamos para gravações independentes e isoladas. Neste cenário sequencial, o aluguel do estúdio pode ser planejado para cada uma das etapas e somente os músicos essenciais para cada take precisam estar presentes naquele período de gravação.

O produtor (ou técnico) pode realizar um mixdown das trilhas já gravadas para que todos possam escutar em casa, no carro ou no próprio estúdio. É uma boa ideia exportar a sessão do software (DAW) para o desenvolvimento de rough-mixes fora do tempo de estúdio.

O setup de gravação - conexão de cabos e equipamentos, preparação da sessão no computador, seleção de microfones, posicionamento de instrumentos e amplificadores, técnicas de microfonação – costuma tomar muito tempo. Idealmente, um assistente de já estaria familiarizado com as necessidades de cada faixa e take através de uma reunião prévia com o produtor. Alguns estúdios oferecem uma tolerância de tempo para montagem e desmontagem, outros permitem a realização do setup na noite anterior.

Informe-se com o seu estúdio e certifique-se de que o produtor está a par de todos os detalhes que envolvem a operação – horários de funcionamento, taxas especiais em horários alternativos, pausas para refeições, políticas de acesso de pessoas, equipamentos disponíveis e seu estado de funcionamento, disponibilidade de um técnico de gravação, formatos de áudio, vazamento de ruídos, backup de arquivos e transferência de dados.

A música deveria soar relativamente bem logo após as gravações, no rough mix, sem precisar de muitos efeitos, equalização etc. Demorei muito tempo para aprender esta lição. Se não soar bem* neste momento, é sinal de que ainda é preciso realizar outras gravações, possivelmente voltar à pré-produção e adiar as sessões de mixagem.
(*”bem” não significa “finalizado” ou “comercial”, com prática, aprendemos a julgar os takes nesta fase da produção, entendendo que não precisam soar lapidados, mas sim convincentes)

Todas as trilhas foram analisadas do começo ao fim? Há consistência nos takes, principalmente entre aqueles de um mesmo instrumento ou voz?

A avaliação das gravações pode ser feita através da audição do rough mix. Nas suas primeiras produções, é bem difícil conseguir um som “profissional”. Não existe uma receita, senão seria fácil ensinar e aprender. O som final é resultado de muitos fatores: músicos, sala, instrumentos, equipamentos, posicionamento, técnico...


Fonte: Dennis Zasnicoff

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Produção Musical - Parte V : Captação de Coberturas



Solistas e instrumentos melódicos podem agora registrar suas partes com naturalidade e emoção, encaixando-as perfeitamente sobre a base.

Como o esqueleto da música já está gravado, outros estúdios e até mesmo instrumentistas de outras localidades podem participar das coberturas. Esta possibilidade traz flexibilidade para o projeto.
(isso é especialmente verdade para instrumentos raros, orquestração e naipes que requerem salas especiais ou artistas especializados)

Vocais podem ser gravados em uma sala enquanto o guitarrista registra um solo delicado e demorado em outra. Outros elementos menos fundamentais, que trazem "tempero" e personalidade para a música, também são gravados nesta fase. Frequentemente, são os Pads harmônicos de fundo (conhecidos como "cama"), percussões complementares, backing-vocals, cordas de orquestra, samplers, sintetizadores diversos.

Para que possam escutar a base ao gravar suas linhas, os solistas receberão um mix de fundo nos seus headphones (ou monitores). É essencial que este mix tenha um volume adequado e destaque os elementos mais importantes para aquele solista. Um percussionista pode precisar de mais bumbo, um vocalista deseja ouvir o piano um pouco mais alto e com reverb. Um erro comum é enviar um mix muito baixo ou muito alto para o vocalista, que tenderá a cantar desafinado. O mesmo acontece quando o músico não consegue escutar a si próprio (“aumenta o retorno!”). Infelizmente, poucos técnicos e produtores gastam o devido tempo preparando os mixes que influenciarão diretamente as performances dos artistas.

Quando possível, preferimos gravar as coberturas no mesmo estúdio das bases, o que irá garantir maior homogeneidade acústica. Nem sempre percebemos esta vantagem durante as gravações, mas ela torna-se bastante óbvia nas próximas etapas.

No mundo ideal, todos os instrumentistas tocariam juntos e um único par de microfones captaria a “mixagem” final em estéreo. Não precisaríamos dividir as gravações em etapas e nem realizar mixagens.

Na prática esta situação é improvável, até mesmo impossível em alguns estilos musicais. Em gravações “ao-vivo”, perdemos o controle das partes, dependemos de uma performance perfeita dos músicos, há problemas de vazamentos entre microfones e falta de uma acústica adequada na sala.
Este estilo de produção “minimalista” ainda é bastante comum em algumas gravações audiófilas de jazz e música erudita, conferindo uma naturalidade incrível. Vale lembrar que não só os artistas, mas técnicos e produtores, precisam ter domínio total sobre o processo de gravação para se fazer uma gravação audiófila “ao vivo”.

Fonte: Dennis Zasnicoff


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Produção Musical IV - Captação das Bases




Aqui começa a produção propriamente dita, na forma de gravações em estúdio e/ou programações no computador. Quanto maior o domínio sobre os aspectos técnicos do estúdio, maior será a atenção dada à interpretação – que é o grande foco das fases de captação. O intérprete pode fazer toda a diferença em uma produção, como de fato acontece toda hora com cantores que parecem ter o “timbre perfeito” para aquela canção. Lembre-se, a seleção dos intérpretes, os testes e as decisões já deveriam ter sido feitos durante a pré-produção.

Com exceção de alguns estilos musicais e situações especiais, o processo de gravação é sempre do tipo multi-pista sequencial. Cada instrumentista ou grupo de instrumentistas registra sua parte, a qual será usada como fundo musical (playback) para a gravação do próximo e assim por diante. Quem começa e qual o playback do primeiro músico?

As bases costumam ser os primeiros elementos gravados.

Muitas vezes chamadas de "cozinha", constituem os elementos rítmicos, de tempo e marcação, como bateria, baixo e violão.

A gravação das bases independe dos solistas (vocais e instrumentos melódicos de destaque). No entanto, são essenciais para a boa performance dos mesmos, que virá a seguir. Como um vocalista conseguiria gravar sem escutar ritmo e harmonia? Qual o momento exato para a entrada do solo de saxofone? Todo solista precisa escutar a base da música para poder encaixar sua execução precisamente no ritmo e na harmonia.

A base rítmica inicia a fase de gravações, podendo utilizar um click (metrônomo) como referência de tempo. Está difícil? Utilize a gravação-guia como playback, mais uma utilidade para ela! Se tudo correu bem na pré-produção, a guia está exatamente no tempo, na tonalidade e na forma final da produção.

Em diversos estilos musicais, a base precisa soar orgânica. A gravação seqüencial corre o risco de soar artificial e portanto é comum que o baterista, o baixista e os demais instrumentistas da base gravem juntos, ao mesmo tempo, na mesma sala, buscando uma maior naturalidade na performance.

A qualidade acústica da sala e o conhecimento dos técnicos pesam muito na gravação das bases. Na verdade, em todas as captações, incluindo cobertura e overdubs, que veremos na sequência.

O estúdio deve ser encarado como mais um equipamento. A diferença é que ele está sempre funcionando, não tem controles e não pode ser desligado!
O som que escutamos interage diretamente com a sala e pode sofrer grandes alterações.

Um tratamento acústico adequado cria um ambiente propício para uma audição precisa, permite maior controle sobre as gravações e o equilíbrio sonoro. Uma sala problemática esconderá todo o potencial daqueles monitores de referência ou daqueles microfones que você acabou de comprar e não custaram barato.

Melhor gastar tempo dentro do estúdio, testando posicionamentos, instrumentos e equipamentos, do que perder ainda mais tempo na técnica durante a mixagem, correndo o risco de nunca atingir o resultado esperado.

As técnicas de microfonação têm um impacto enorme sobre o resultado final da produção.

Faça o teste: caminhe pelo estúdio enquanto está falando, perceba como cada posição gera um som distinto. As diferenças podem ser tão notáveis quanto uma equalização. O som muda como se estivéssemos aplicando efeitos durante a mixagem.

Antes de experimentar modelos de microfones ou selecionar equipamentos e plugins que serão aplicados ao áudio, escolha cuidadosamente a posição do instrumento e do microfone dentro da sala.

A característica acústica da sala determinará quais são as possibilidades (já experimentou gravar sua voz no banheiro?). Em outras palavras, a microfonação equivale a utilizarmos diferentes equipamentos nas etapas subseqüentes. Captar o timbre que se deseja neste momento é a melhor maneira de se evitar ajustes futuros que não serão tão eficientes quanto uma acústica realista e natural.

Produtor e técnicos devem estar muito familiarizados com o estúdio e seus equipamentos para que possam se concentrar na sonoridade, utilizando seu know-how de gravação. Os equipamentos têm um peso muito menor do que se costuma imaginar, ficando atrás da acústica, até mesmo da qualidade da energia elétrica em alguns casos.

No mundo do áudio profissional, sobretudo no Brasil, existe um super-valorização de equipamentos e softwares. Não caia nesta armadilha! Primeiro vem o conhecimento, depois as instalações (acústica e elétrica), por último, os equipamentos. Você ficará surpreso em saber que muitas das grandes produções que hoje escutamos foram realizadas com equipamentos extremamente simples, em salas nada ideais. Porém o know-how dos músicos e dos técnicos falou mais alto.

Você saberá dizer se a base está bem captada se os outros instrumentistas não tiverem dificuldades para acompanhá-la tocando suas partes. A levada é compatível com a intenção da música? Os tambores da bateria foram afinados? (acredite, é raro que se lembrem disso.) A harmonia conhecida de todos? Todas as sessões da música possuem os acordes cifrados, em uma partitura, tablatura ou qualquer outra forma de representação?

Durante as captações seguintes à base, um novo arranjador poderá participar do processo, adicionando ou substituindo instrumentos, pela falta de disponibilidade de músicos ou devido a problemas com algum instrumento. Dessa forma, alguns solistas que não participaram da pré-produção precisarão ter acesso a todas as informações musicais que sejam necessárias para suas performances. Documente, anote, organize-se.

Uma base bem gravada é a fundação da música e irá sustentar as demais performances. O tripé fundamental da música pop moderna é composto por Caixa-Bumbo-Baixo. Dedique especial atenção à captação destes elementos (ou aqueles que façam estes papéis).

Fonte: Dennis Zasnicoff

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Produção Musical - Parte III - Experimentações e Gravação Guia



Experimentações

Neste momento, as análises já estão documentadas e diversas decisões foram tomadas. Até agora, o processo ocorreu através de reuniões e discussões entre artista e produtor. A próxima fase começa a fazer uso de áudio no estúdio e/ou técnica. Versões são gravadas para se testar tonalidade e andamento, estudar complexidade e alternativas.

É uma espécie de ensaio da gravação e da mixagem, para que músicos e técnicos possam testar arranjos, formas e variações, retirando qualquer dúvida ainda existente após as análises. Ao mesmo tempo, são realizadas algumas gravações que serão úteis durante o desenrolar do processo.

O registro original da composição (em áudio) pode ser utilizado como base para as versões experimentais, economizando-se tempo.
Por questões de agilidade, o próprio produtor ou outra pessoa da equipe pode tocar alguns instrumentos ou mesmo cantar nas versões guias. Neste caso, o artista não deveria se sentir "traído" de maneira alguma.

Na verdade, se o compositor não é exatamente um bom intérprete, sua música seria muito melhor valorizada se interpretada por outros músicos. Outras vezes, a formação original da banda pode ser modificada durante as gravações, para o bem da música - este sempre é o objetivo maior. Existem excelentes músicos de estúdio que não desempenham bem ao vivo e vice versa.
Ser um artista é muito mais do que entregar uma boa performance: composição, imagem pública, presença de palco, visual, histórico, carisma – aspectos não necessariamente relacionados à produção musical.

As experimentações são uma oportunidade de testar o entrosamento da equipe e a confiabilidade de equipamentos e processos. Já que a qualidade do áudio não é prioridade, a equipe pode se concentrar na mensagem musical.

Durante os experimentos, traçar o contorno emocional da música é outro recurso valioso. O contorno emocional indica graficamente como as informações musicais entram e desaparecem ao longo da música. Está bastante conectado ao arranjo, à Teoria da Informação e à Teoria Gestalt. Que emoções e com que intensidade cada sessão da música oferece? O contorno é estável e cansativo ou apresenta variações, picos e respiros interessantes?
Rapidamente, a quantidade de testes pode se tornar grande e, assim, é muito importante documentar todas as versões: data, equipamentos usados, principais variações, duração, andamento, tonalidade, forma, letras, harmonia, reações dos ouvintes.
Com os recursos atuais, facilmente o áudio pode ser picotado e misturado com outros elementos para agilizar os testes, como batidas diferentes, estilos modernos e antigos, elementos originais ou datados, timbres criativos ou clássicos. Se o artista ainda não possui uma identidade musical, este é um bom momento de construí-la.

Quando ouvimos Santana, reconhecemos que é Santana. The Police, Dire Straits, Steely Dan, Iron Maiden, Elvis Presley, Bach, Jack Johnson e Norah Jones. São todos exemplos de grande personalidade musical que muitas vezes surgiram de experimentações.

É cada vez mais difícil se criar uma identidade musical. Um melhor caminho talvez seja encaixar-se em um estilo ou nicho de mercado. Mais uma vez, as referências se tornam grandes aliadas: “gostaria que soasse como U2", "adoro a percussão daquela música do Jethro Tull", "queria um ritmo marcante como Down on The Corner do Creedence". As referências ajudam a equipe a eliminar alternativas, a compreender as intenções do artista. Além disso, auxiliam o público a se identificar com faixas e artistas, aceleram a adoção de músicas.

Durante esta fase, é muito prático e eficaz utilizar programação MIDI, bibliotecas de loops e samplers. Timbres e ritmos podem ser alterados e "votados" pela equipe. Convide amigos e desconhecidos para testes de audição para ter uma boa idéia do que a música está passando, antes que as horas de estúdio sejam agendadas.

A mensagem está clara? Soa como plágio ou lugar comum? É muito alternativo, de difícil digestão? Qual a primeira reação do público?

A primeira reação pesa muito no sucesso de uma música. Infelizmente, ela tende a desaparecer para aqueles envolvidos na produção, cada vez que escutam a música mais uma vez.

Ao final das experimentações, o produtor deverá ter diagnosticado profundamente alguns critérios como: clareza, simplicidade, ênfase, coerência, especificidade e repetição - elementos importantes, embora inconscientes, para a percepção (e avaliação) dos ouvintes.

Durante os experimentos, deve-se tomar o cuidado para que o artista não considere as versões-teste como uma produção final. Por várias vezes tive dificuldade para explicar ao cliente que aquilo que ele estava ouvindo não deveria ser julgado como produção finalizada, pois ainda estávamos na pré-produção. Timbres que soam como karaokê, notas fora de tempo, loops e efeitos “baratos” somente estão ali para o estudo de possibilidades.

É uma questão de recursos: por que gastar tempo buscando o melhor timbre na sua biblioteca de loops ou quantizando todas notas no groove se provavelmente aquilo não será reaproveitado? No entanto, é preciso um mínimo de “realismo” para que se possa comunicar a proposta.

Para cada versão, faça um mixdown do áudio e salve a sessão do seu software com um nome diferente. Envie o áudio para o artista (ou produtor) e peça para ele comentar. Ele pode usar o áudio para gravar outro instrumento por cima, editar a forma, testar vocais.

Por diversas vezes acabei utilizando 90% do tempo total de uma produção para a pré-produção. Essa é a hora de explorar instrumentos e idéias que estão engavetadas. É muito provável que, em algum momento, a equipe se manifestará: “É isso!”. Uma descoberta, um detalhe, que parece dar forma à música, clareando a visualização do resultado final. Este estalo de descoberta e confiança tende a ocorrer várias vezes durante a produção, preste atenção neles pois podem resolver grandes problemas. Agora é hora de fazer uma gravação-guia!

Gravação-Guia

Naturalmente, todas as experimentações e as várias gravações realizadas durante a pré-produção caminham para uma gravação-referência, um mix que resume todas as ideias e contém uma estrutura candidata à forma final. Esta será a versão final da pré-produção.

Às vezes, esta gravação-guia consegue atingir um resultado tao bom (artístico e técnico) que passa a fazer parte do CD demo (demonstração), do EP ou mesmo do LP do artista*. Principalmente quando não há orçamento para se seguir adiante com a produção, ou quando é importante uma rápida divulgação.
(*EP e LP no sentido de quantidade de faixas, provavelmente o formato será CD ou arquivo digital MP3 para download)

O CD demo deverá incluir de 3 a 5 canções. O repertório deveria representar o artista da melhor maneira possível – estilo, versatilidade e técnica.
Uma demo é útil na divulgação do artista para rádios, casas de show, editoras, selos, produtores, investidores. O problema é que centenas de CDs são enviados diariamente para estes caçadores-de-talentos e acabam esquecidos numa grande pilha. Quando escutados, podem ser rapidamente descartados se os primeiros segundos da música principal não se mostram interessantes e muito bem produzidos.

É por isso que, hoje em dia, uma demo está mais para uma produção final do que para uma gravação-guia.

Na fase das gravação-guia, melhor seria seguir adiante, acabar a produção de sua música e só então lançar o CD demo, que certamente terá mais chances de se destacar!

Com a gravação-guia em mãos, é fácil envolver outras pessoas, expor o trabalho para gravadoras e receber críticas. No final do dia, a guia comunica as intenções do artista e da equipe de produção, permitindo que selos e editoras tenham uma boa idéia do potencial da canção.

A gravação-guia, bem como toda a documentação que a acompanha, pode ser utilizada pelo compositor (intérprete ou banda) para gravar, mixar e masterizar em um momento futuro, em outro estúdio ou cidade, preferencialmente com participação do mesmo produtor.

Eventualmente, até com outra equipe de produção. Se uma gravadora se interessar pela música, ela poderá oferecer adiantamentos, financiar os custos de produção, fornecer estúdios e técnicos e até mesmo interferir diretamente na produção (afinal, está pagando).

Neste momento, a pré-produção está finalizada e irá garantir uma produção sem grandes falhas ou frustrações. É hora de seguir para o estúdio. Na fase de captação, artistas e técnicos podem se concentrar na performance. Com a pré-produção concluída, gastarão menos tempo e dinheiro dentro das salas de gravação, atingindo resultados surpreendentes.

Utilize a gravação-guia para avaliar a Pré-Produção, afinal, todas as decisões e informações musicais estão contidas nela. Quantos musipontos você daria? ( musipontos, fora abordados na parte I )
Se ainda não considera que atingiu 2 dos 3 pontos, que tal gastar um pouco mais de tempo antes de iniciar as sessões de gravação? Procure testar outros arranjos. Lembre-se que retirar elementos costuma ser mais eficiente do que adicionar.


A música está longa ou curta? Tem um foco claro ou muitas coisas interessantes ao mesmo tempo que podem confundir o ouvinte? A composição é boa, se sustenta sozinha ou exige muito da produção?

( na próxima parte veremos: "Captação de Bases".


fonte: Dennis Zasnicoff

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Produção Musical - Parte II - Registro e Analise



Registro Original

A música concebida precisa ser registrada de alguma forma. Tanto para fins de proteção dos direitos autorais quanto para viabilizar uma produção – poder ser revisitada, estudada, otimizada, analisada, comunicada a outros profissionais. O registro pode acontecer de várias formas, sendo que as mais comuns são: partituras, tablaturas, cifras, letras ou uma simples gravação do áudio que registra apenas letras sobre melodia, melodia sobre harmonia ou simplesmente ideias melódicas.

Em futuras reuniões com o produtor musical, o compositor ou intérprete discutirá objetivos, expectativas, cronogramas, custos, alternativas, referências e repertórios. Além de ser utilizado como ponto de partida para a pré-produção, este registro também servirá para comunicar ao produtor e sua equipe qual é a essência da música – sua mensagem, conteúdo lírico e musical. Trata-se, portanto, do primeiro registro objetivo do compositor.

Quando gravado em formato de áudio, possui uma particularidade de extrema importância – captou intenções espontâneas do artista, que são importantes e não devem ser esquecidas durante as próximas fases.

É costume revisitar o registro original durante a produção para não se distanciar do objetivo inicial.

Um produtor experiente saberá identificar quais são elementos do registro original que devem ser trabalhados e não julgará a música como uma produção final - afinal, ela só está começando. A qualidade do áudio, por exemplo, pouco importa neste momento.

A gravação original normalmente é composta de voz e violão, voz e piano ou algum instrumento de maior familiaridade para o compositor. Muitos artistas preocupam-se em gerar um registro com boa qualidade de áudio. Gravam várias versões, fazem alterações e colocam instrumentação.
Essas etapas deveriam ser deixadas para depois. Na verdade, o resultado pode até ser negativo – o registro perde a intenção original e a essência da composição, que é base para a pré-produção que se inicia agora. O registro original não deve ser confundido com a gravação-guia, que será explicada adiante.
O registro original, para todos os efeitos, é a expressão mais espontânea e sincera do compositor.

A avaliação (e a quantidade de musipontos, tratados na Parte I ) de uma composição pode ser feita através dele. Com prática, rapidamente sabemos se estamos diante de uma composição fraca, boa ou excelente.
Curiosidade: depois que a música já está produzida, como podemos avaliar uma composição isoladamente? É só cantá-la ou tocá-la no violão. Uma boa composição soará interessante, mesmo sem produção! As composições com 3 ou 4 musipontos são as primeiras candidatas a remixes e versões acústicas.

Análises

Esta fase inicia a Pré-Produção.

A Pré-Produção tem função muito clara no processo: otimizar a composição através de um ponto de vista alheio. Fazer com que a música tome forma e esteja pronta para ser produzida (gravada, mixada).

São planejados cronogramas, recursos e alternativas. A princípio, as etapas que seguem a pré-produção não deveriam voltar atrás para trabalhar, por exemplo, letras, instrumentação, forma ou estilo. Estes aspectos podem e devem ser decididos agora, na pré-produção, justamente para se evitar futuros erros e frustrações.

No papel de compositores, é fácil termos uma visão bastante particular da nossa obra. É como um filho, nós o protegemos e não queremos enxergar seus defeitos.
Já na pré-produção, é altamente recomendado que uma outra pessoa comece a acompanhar o processo produtivo, participando das decisões. 

O produtor musical normalmente começa a agregar nesta fase. Este profissional possui um distanciamento natural da composição e tende a julgar com maior clareza o possível impacto da música no público.

As análises mais comuns realizadas nesta fase são:

●Identificar qual o "estilo de produção" e concentrar-se nele durante todo o processo. Uma música pode possuir um elemento marcante e repetitivo, lírico ou musical (Hook, Riff), pode querer destacar um ritmo ou levada (Groove), possuir um forte conteúdo poético e narrar uma história (Letras), caminhar para um clímax musical (Chorus) etc.

●Estudar a complexidade da produção para se estimar custos e prazos, bem como metas factíveis.

●Escalar e contratar eventuais profissionais adicionais - técnicos e músicos.

●Analisar os elementos principais quanto à sua clareza e eficiência (ex.: título, tema, forma, início, contorno).

●Avaliar aspectos psicoacústicos da música, como equilíbrio, economia, variedade, contraste e foco.
●Planejar o equilíbrio tonal: uso do espectro sonoro (instrumentação e arranjo), congestionamento e inteligibilidade.

●Otimizar a distribuição espacial e temporal - elementos próximos e distantes, panorama horizontal, "tamanho" de cada instrumento, profundidade, intimismo, punch, naturalidade.

●Tomar decisões conscientes para que se possa seguir adiante e não voltar mais ao assunto. Saber produzir é saber quando parar. O processo pode nunca ter fim, sempre haverá possibilidades e dúvidas. Aliás, este é um dos principais motivos para se contratar um produtor.

O papel do produtor é visualizar o resultado final da música, que provavelmente só estará claro (e audível) ao término da produção, estimulando decisões que contribuam para o objetivo estabelecido. Portanto, uma relação de confiança entre os artistas e o produtor é fundamental para o sucesso das próximas etapas.

Uma ferramenta muito útil durante as análises é o uso de referências. A grande maioria das composições baseia-se em algum elemento já existente. É praticamente impossível ser 100% original.

As referências escolhidas pelo artista/intérprete (ou aquelas trazidas pelo produtor) guiam a produção e ajudam a manter o foco.
Obviamente, as referências devem ser usadas com cuidado para não caracterizarem plágio. Tratam-se de músicas (ou discos) previamente lançadas que possuem algum elemento marcante – um timbre, uma levada, um instrumento, uma maneira de se cantar, um efeito sonoro ou estilo musical.

Nem todos os produtores seguem um padrão durante as análises. Em alguns casos, justamente porque já desenvolveram a habilidade de escutar a composição visualizando o resultado final da produção. Em outros casos (diria até na maioria deles) acreditam que analisar cada um dos detalhes seria uma perda de tempo.

Minha visão é que tempo de pré-produção nunca é tempo perdido! Aproveite que o “taxímetro” do estúdio não está rodando, ainda não há pressão da gravadora (ou de quem quer que esteja financiando) e tudo ainda pode ser modificado com certa facilidade. Seguir um roteiro de análises é talvez a melhor maneira de se desenvolver o que chamo de “diagnóstico da primeira audição”.

Pode parecer estranho existirem pessoas na produção levando horas para analisar os diferentes aspectos de uma composição, enquanto que os ouvintes simplesmente escutarão a música, sem ouvidos críticos.

Esta é talvez a maior resistência de alguns produtores: “Os ouvintes não pensarão nisso, não sabem analisar esses critérios.” Ingênuo engano! O público é bastante crítico, embora não pense conscientemente durante uma avaliação.

Apreciar ou criticar é fácil – gosto, não gosto. Como consumidores, passamos anos e anos desenvolvendo nossos critérios de avaliação, através de inúmeras experiências, lembranças e referências. Querendo ou não, somos excelentes críticos! A dificuldade é criticar vestindo o chapéu de produtor, poder conscientemente criar algo que cause uma determinada reação. Como muitos dizem, com toda razão: criticar é fácil, difícil é fazer melhor. Ainda que você trabalhe com produção musical, durante a maior parte do tempo você estará escutando, não produzindo – aprendendo a julgar e não a ser julgado.

Quando faço uma avaliação no meu site, explico minha análise do ponto de vista do produtor. A “audição crítica” requer prática e foco, para que eu não me comporte como um ouvinte. No entanto, no final das contas, se avalio, por exemplo, uma música com nota 6, muito provavelmente a maioria dos ouvintes também concordará que se trata de uma produção notável, mas ainda sem potencial de virar um hit.

Fonte: Dennis Zasnicoff

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Produção Musical - Parte I - Princípios Básicos e Criação




O que é um Produtor Musical ?

Produtor Musical no mercado fonográfico é o profissional contratado para​ dirigir o registro sonoro de obras musicais. Na prática, o produtor precisa aliar duas coisas: técnica e arte.

Apresentando a Escala “Musipontos”

Na produção musical, costumo repartir as prioridades da seguinte maneira: de tudo que podemos fazer para contribuir no resultado final de uma música...

●40% provém da Composição
●30% da Pré-Produção
●20% da Gravação
●10% da Mixagem / Masterização
_______

100% Total

De onde tirei esse modelo de proporções? É justamente essa resposta que você deverá encontrar nos capítulos que seguem. Ao final, você deverá concordar com os critérios ou pelo menos compartilhar da visão, criando seu próprio método de avaliação que não deverá ser muito diferente. Ele surgiu da análise de músicas durante anos de trabalho como produtor musical e tantos outros como ouvinte questionador. De maneira alguma representa a verdade absoluta, mas tem funcionado muito bem para muitas produções.
Nesta escala, cada uma das etapas acima pode contribuir com um número limitado de pontos, somando o máximo de 10 musipontos. A composição é avaliada de 0 a 4, a pré-produção pode ter de 0 a 3 pontos, gravações recebem até 2 musipontos e no máximo 1 para a mixagem/masterização.

1.Muito Fraca
2.Fraca
3.Abaixo da Média
4.Razoável (média de tudo que se produz)
5.Acima da Média (potencial de rádio*)
6.Notável (sucesso em um nicho de mercado)
7.Destaque (hit, paradas de sucesso)
8.Ótima (grande público)
9.Clássico (sobrevive a diversas gerações)
10.Referência (grandes e raros marcos na história)

(*tocar no rádio - aparecer nas paradas etc. - depende de outro fatores de pós-produção, algumas músicas 4 já tocaram no rádio e muitas outras 6 ou 7 nunca, são apenas referências para reforçar o valor de uma pontuação)


As Etapas (e truques) da Produção

Cabe ao produtor e ao artista (compositor, intérprete ou banda) entenderem as limitações de cada etapa para então priorizarem os aspectos mais importantes. Primeiro as primeiras coisas! E o resultado será satisfatório, com bom aproveitamento de tempo, energia e recursos.

As 10 fases principais da produção musical estão explicadas em detalhes na sequência:

Composição
1.Criação
2.Registro Original

Pré-produção
3.Análises
4.Experimentações
5.Gravação Guia

Produção
6.Captação da Base
7.Captação da Cobertura
8.Overdubs e Rough Mix
9.Mixagem
10.Masterização

A terminologia aqui usada pode ser diferente daquela existente em outras literaturas. A divisão que faço entre Composição, Pré-Produção e Produção visa facilitar o entendimento de cada etapa, além de reforçar alguns conceitos importantes de cada fase:

Composição: intimamente ligada ao artista, ao compositor, não depende necessariamente de outros profissionais e não tem se modificado muito ao longo dos anos – escrever uma música, antes de mais nada, significa ordenar notas musicais e letras. Os estilos de trabalho variam consideravelmente de compositor para compositor, mas nunca deixou de ser uma atividade bastante árdua e especializada, para poucos, ao contrário do que muitos pensam.

Pré-produção: possivelmente a fase menos conhecida e explorada, ao mesmo tempo que é essencial para o resultado final de uma música. É o momento de planejamentos e decisões, que requer uso de técnicas e disciplina. Está normalmente associada a um produtor musical (que pode atuar mais como arranjador, músico, técnico, gerente de projeto etc.) e não necessariamente precisa se utilizar de estúdios ou instrumentistas profissionais.

Produção: relacionada às interpretações, performances dos músicos, gravação e edição de fonogramas. Ocorre dentro de estúdios e salas de controle, englobando gravações, mixagens e masterização. Aqui começa o registro definitivo do áudio, com valorização de espaços acústicos, técnicas, equipamentos e técnicos.

1.Criação

Tudo começa com uma boa matéria prima. O fundamento de uma música sempre foi e sempre será o seu conteúdo lírico e musical. Existem inúmeras escolas de ensino, teorias e cursos superiores de Música, e portanto, sobre a arte de compor, reger, arranjar e interpretar músicas.
Algumas dos conhecimentos essenciais de um bom compositor são:

●Harmonia
●Contraponto
●Ritmo
●Arranjo e Instrumentação
●Ouvido absoluto e/ou relativo
●Instrumentos e Timbres
●Vocabulário musical
●Tipos de rimas

Muitas pessoas que conheço imaginam que compor é um dom, algo com que nascemos. De fato, muitos artistas parecem ter o toque divino que os separam dos demais, mas muito provavelmente esses mesmos artistas possuem larga experiência e domínio do ofício, usaram e abusaram das técnicas de composição para que um dia pudessem fazer uso de sua inspiração e originalidade.

Sempre me lembro da minha experiência com Pablo Picasso. Quando tive o primeiro contato com suas obras mais famosas, não fiquei nada convencido das suas qualidades como pintor. “Rabiscos grotescos? Parece coisa de criança!”, pensava. Tenho certeza que muitos também tiveram esta impressão.

Depois soube que Picasso nem sempre pintou com aquele estilo. Era um estudioso nato e tinha domínio sobre muitas técnicas da pintura, podia retratar uma imagem qualquer com perfeição e caminhou por diversos ramos das artes plásticas até desenvolver seu próprio estilo e genialidade. Qualidades que ainda não consigo apreciar por completo, porque não sou especialista nem consumidor frequente desta forma de arte, mas que são inegáveis, haja visto o valor de suas pinturas e o reconhecimento mundial que tem sua obra.

Compor é um processo técnico e repetitivo. A criatividade é importante e pode ser aprimorada com exercícios diários. No Brasil, temos dezenas de milhares de compositores. Destes, alguns milhares dedicam boa parte do dia para a atividade de compor. Deste grupo, várias centenas fazem exercícios regulares, estimulando as regiões do cérebro responsáveis por imagens, analogias e descrições, escrevendo horas a fio.
Finalmente, deste pequeno universo, apenas poucas dezenas de compositores consagrados (com composições de 3 ou 4 musipontos) são responsáveis por mais da metade do que ouvimos todos os dias.

Quando o artista concentra-se na concepção da obra, sem pensar nas fases seguintes, está fazendo o melhor uso de suas habilidades.

Quero mostrar que compor é um trabalho árduo e especializado. Se este é seu objetivo, vale a pena estudar as técnicas e se dedicar. Lembre-se: dedicar-se, em qualquer profissão, significa estudar e praticar por anos e anos.
Suas composições podem começar a atingir notas 2 ou 3 antes do que você imagina. Saberá otimizar música e letras. Se você acha que nunca vai atingir 3 ou 4 (nota máxima) nas composições e não está satisfeito com 2 ou 3 musipontos, talvez seja mais interessante utilizar composições de terceiros, participando da produção como instrumentista, arranjador, produtor ou técnico de som.
As editoras musicais são um bom ponto de partida para se buscar compositores e composições. Elas são responsáveis por divulgar artistas e repertórios, na busca por licenciamentos, remunerações para compositores. Diversas gravadoras e produtores buscam talentos nas editoras.

Se você pretende se especializar em composição, procure estudar como funciona a legislação dos direitos autorais, quais são os editores mais influentes no seu mercado e o que fazer para registrar e divulgar o seu trabalho. Mas acima de tudo, escreva, escreva muito! Rabisque, apague, recomece. Antes de fazer sucesso com uma canção, um compositor normalmente já terá escrito centenas delas.

As melhores composições possuem algo em comum:

●Representam sentimentos ou situações universais, facilmente compreendidas por ouvintes que se identificam.

●São específicas, não sendo objetivas. O grande segredo do compositor é conseguir passar uma mensagem clara através de uma descrição particular, única, original, rica.

●Estão centradas sobre uma ideia genuína, um tema claro.

●Utilizam técnicas musicais e poéticas para ganhar interesse (teoria da informação, sentidos do corpo, surpresa, recompensa, humor).

Procure registrar suas idéias assim que elas acontecem. Muitas vezes, isso ocorre pela manhã, quando nossa cabeça ainda está "vazia" e despreocupada. Tenha sempre à mão lápis e papel, ou um gravador portátil (muitos celulares possuem esta função). Este estalo é quase sempre o ponto de partida de uma grande composição.

Como as pessoas se comportam? O que as interessa? Como VOCÊ enxerga uma determinada situação? Provavelmente há muitas outras pessoas que se identificam com o seu ponto de vista!


Se a inspiração aparecer durante a produção musical, ótimo! Mas não deixe de fazer música porque acredita que não tem talento. Tão importante quanto o talento é a dedicação - estudos, prática e consistência.

Fonte: Dennis Zasnicoff