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sábado, 14 de abril de 2018

Um papo sobre: MÚSICA DE QUALIDADE


Você definitivamente já ouviu, e provavelmente já falou, que alguma música é “muito ruim”, e aí alguém certamente chegou e discordou. Será que qualidade é uma coisa subjetiva?
Minha resposta para esta pergunta é um sonoro não; qualidade é com certeza algo que existe mesmo na arte. A questão é: que critérios definem realmente o que é uma música de qualidade? Esta é a parte difícil. Como lidar com isto sabendo que, independente do seu critério, deve haver algo na sua playlist que seria definido como ruim?
Preciso esclarecer aqui certas coisas: o que direi aqui é puramente baseado em minha opinião. E mesmo assim, não pretendo chegar em uma conclusão, apenas apresentarei uma série de critérios que julgo razoáveis; é um artigo para reflexão antes de ser um artigo útil. Não quero mudar o gosto musical de ninguém… As vezes gostamos de músicas que nós mesmos consideramos como "ruim"

INOVAÇÃO
Este critério aqui depende do contexto em qual a música foi criada. Funciona deste jeito: a música soa como todas as outras músicas do seu gênero? Você tem a impressão de já ter ouvido isso mil vezes antes? Se sim, você pode estar olhando para uma música ruim. Ou talvez não ruim, mas provavelmente preguiçosa.
Isto acontece em todos ou quase todos os estilos musicais (no jeito do “Maria-vai-com-as-outras”), mas é mais notável em estilos muito criticados, como o funk carioca e o pós-grunge (gênero de Nickelback, The Calling, etc). Independente do estilo, é comum vermos músicas cujas características são inevitavelmente trazidas intactas de outras músicas do meio. Uma exceção é quando o atributo copiado vem de outro estilo musical; isto, em si, é geralmente inovador.
O negócio é mais feio quando se compara trabalhos do próprio artista. Muito embora haja, obviamente, uma licença e praticamente uma obrigação ao artista que suas músicas venham com sua marca registrada, certos artistas abusam um pouco, especialmente dentro de um mesmo álbum, onde coesão musical entre cada música é algo desejado. Geralmente isto se torna critério de crítica ao artista, e não às suas músicas. É por isso que, por exemplo, considero o álbum Defying the Gods, da banda Rise To Fall, um álbum fraco apesar de muitos gostarem maioria das músicas. Confira Whispers of Hope e Reject The Mould (músicas que vem literalmente uma atrás da outra na sequência do álbum) para entender o que eu quero dizer.
Por outro lado, há artistas e grupos que, só por fazerem o tipo de música que fazem, já escapam de soar similares a outros músicos. É o caso, por exemplo do U2, do Red Hot Chili Peppers e do System of a Down.
Estrutura da música, arranjo, compasso e mesmo atributos simples como tempo e tom de base são algumas características que poderiam mudar de música para música. Músicas excepcionalmente únicas podem ocorrer quando se “brinca” com estes elementos; um dos meus exemplos é Revive My Wounds, da banda Sybreed, que cria algo bem diferente, apenas se utilizando de melodias nada usuais.

VARIEDADE
Quando uma música é repetitiva, realmente é um pouco difícil de se apreciar.
Aqui temos outro motivo pelo qual o funk carioca é tão detestado. O hip-hop também tende a sofrer muito neste critério, e música eletrônica geral, mais ainda. Nesses estilos, é típico que a variedade dentro da música seja escassa, com uma estrutura que se repete com pouquíssima variação, e com mudança significativa apenas nas letras (quando há).
É importante notar que a relação entre variedade e qualidade não é exatamente linear. O estabelecimento bem-sucedido do sistema “verso-refrão-verso-refrão-bridge-refrão” indica que alguma repetitividade pode ser beneficial à música. Por outro lado, pela minha experiência, uma música com estrutura mais variada tende a ter um potencial maior.
O arranjo, a estrutura, as melodias e o ritmo ao longo da música podem determinar o grau de variedade de uma música; quando muitos destes aspectos são estagnados pela duração da música, temos uma música pouco variada. É um desafio maior quando as músicas são longas.
É meio difícil encontrar um exemplo bom de uma música variada, já que este critério é mais eficiente em se encontrar músicas ruins que músicas boas. Mas uma música que acho apropriada é a música Sons of Winter and Stars, da banda Wintersun. São 13 minutos de música, e ainda sim a variedade aqui é bem considerável; o arranjo, o ritmo, o tempo e as melodias variam muito ao longo da música, mas não mais do que o necessário. Em fato, a música é tão bem planejada que certas partes são compridas o suficiente para gerar tensão, e curtas o suficiente para evitar estagnação.

“AGRADABILIDADE”
Este critério é, mais precisamente, direcionado à probabilidade de atrair ouvintes, o que em si pode ou não ser indicativo da qualidade musical da obra.Aqui, a música pop triunfa. Independentemente do que você possa achar da música popular ou de como as músicas mais famosas possam tropeçar nos outros critérios, este é o seu reino.
A ideia é bem simples: um foco em melodias “grudentas”, que sejam agradáveis ao ouvinte. Como já mencionado antes, esta é a especialidade da música pop. O uso de melodias agradáveis como pedra angular em uma música também é muito empregado no rock (assim como em algumas vertentes do metal, que até recentemente só queria fugir de tudo que soasse “agradável”), em alguns subgêneros da música eletrônica, em trilhas sonoras (nas décadas de 80 e 90, uma melodia agradável era essencial para trilhas sonoras de games, graças às limitações tecnológicas dos chips de som da época) e, logicamente, em jingles.
Uma música agradável não precisa ser genérica. Temos Reaching Home, da banda holandesa Textures, que apresenta muita síncope (deslocamento inesperado do ritmo) e melodias menos usuais.

CONTEÚDO (letras)
Agora, este é provavelmente o critério mais polêmico. Alguns acreditam na letra como o aspecto mais importante de uma música, outros dão tão pouca atenção às mesmas que preferem ouvir música instrumental. A maioria dos ouvintes de metal, eu incluso, não prestam muita atenção na letra (quando entendemo-la, kkkk).
Além disto, as próprias qualidades de uma boa letra podem ser consideradas subjetivas. Tem gente que gosta ouvir a Lady Gaga falando sobre ser rica, outros gostam de ouvir um Cantor Gospel louvando a Deus ( ou aquelas músicas de auto-ajuda ) e outros gostam de ouvir Burzum fazendo exatamente o oposto. Portanto, para se estabelecer objetivamente um critério de qualidade, é mais interessante excluir o tema da avaliação. A partir disto, resta apenas padrões de poesia para determinar a qualidade das letras. Pontos bônus se há relação da letra com a música que segue. Obviamente não é um fator existente em uma música instrumental.

ATENÇÃO
Não, eu não estou chamando sua atenção, é só outro critério. O critério da atenção é o mais simples de entender. Atenção aqui está no sentido de atenção aos detalhes; o quanto foi feito para que a música tenha as características desejadas? Foi uma obra preguiçosa ou meticulosamente trabalhada?
A música eletrônica tem alto potencial pra cumprir esta função, já que seus atributos são mais fáceis de se manipular. Muitos consideram que, em termos de qualidade, a música atual não chega aos pés da música clássica pois, assim como nas demais artes clássicas, a atenção aos detalhes era tudo. Mesmo assim, qualquer estilo musical pode beneficiar deste atributo, é só o autor querer. Ainda sim é raro músicas com atenção a detalhes em gêneros como o punk rock e o (adivinha) funk carioca. (parece que eu estou implicando com o funk carioca mas eu só estou realmente sendo honesto!)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Abrangência Musical - Estilo, Técnica e Versatilidade




 Qual o critério para o estudo de gêneros musicais e técnicas de execução variadas, pois é sabido que ninguém pode aprender tudo, ou pelo menos ser bom em tudo. Então, a pergunta é, como ter uma boa abrangência musical, mas sem ficar apenas na superfície? 

Compreendo sua dúvida, pois, enquanto sabemos que é fundamental ter um estilo próprio para se diferenciar como guitarrista, também sabemos que um músico que só sabe fazer uma coisa vai sempre soar igual.

Parece ser um dilema: Devo ter um foco para fortalecer meu estilo ou devo me desenvolver em diversos estilos para ser versátil?

A questão é encontrar o equilíbrio entre estilo e versatilidade, tanto em termos de técnicas quanto de gêneros musicais.

Depende do seu objetivo

Essa pergunta é excelente e gera uma boa discussão. Não existe uma resposta simples, mas o primeiro passo é definir seu objetivo. Se você deseja ser um grande guitarrista de blues como B.B. King, não é necessário saber vários outros estilos. Você pode se concentrar no blues e outros estilos próximos a ele, como vou explicar mais na frente. Mas se o seu objetivo for compor músicas que permeiam vários estilos, ou até mesmo desenvolver seu próprio estilo, o caminho é diferente. E, ainda, se você pretende tocar músicas diversas de outros artistas, surge mais um caminho. Enfim, tudo depende do seu objetivo.

Foco e Curiosidade

Mas, de forma simples e direta, a minha sugestão é desenvolver a fundo seus estilos favoritos, que você mais gosta de tocar, e frequentemente buscar referências fora desses estilos. Ou seja, tenha foco e curiosidade.

Desenvolver-se a fundo num estilo é algo que leva tempo, por isso não dá pra fazer isso com muitos estilos se o tempo é escasso. Mas, aprender um pouco sobre alguns estilos que te interessam pode ser feito rapidamente. E você pode ter mais de um estilo principal também. Por exemplo, eu gosto muito de tocar rock e hard rock, com muita distorção, mas também passo muito tempo tocando reggae, algo que não tem nada a ver com esses outros estilos.

Se tocar vários estilos é algo que te dá prazer, vá em frente!

Ter curiosidade é estar sempre atento a coisas que podem despertar seu interesse e te deixar animado! Curiosidade é abrir os olhos e presenciar a beleza que há ao seu redor, e eventualmente aprender coisas novas para usar no dia-a-dia.

Por outro lado, ter foco é estar em linha com sua própria identidade. Quando as pessoas vão escutá-lo tocando, elas querem ver algo único, diferente dos outros.

Sei que pode soar paradoxal, mas quando escolhemos um foco, acabamos ampliando nosso leque. Estranho, não é? Mas isso acontece de fato, pois estilo e versatilidade são complementares, andam na mesma direção. Quando escolhemos um gênero musical como foco, acabamos descobrindo que há muita coisa interessante para explorar e aprender dentro desse tipo de música em termos de ritmos, técnicas, efeitos, timbres, licks, e acordes. E, ao desenvolver toda essa riqueza que há dentro de um estilo musical, acabamos nos tornando mais versáteis, podendo aplicar esses aprendizados em outros estilos. Afinal, em geral, uma técnica que serve para um estilo serve para outros também, como é o caso dos bends, vibratos, palhetada, etc.

Explore as adjacências

Se a música possui centenas de estilos e precisamos escolher para onde ir, por onde começar? A resposta é explorar os estilos ao redor do seu estilo favorito. Um grande exemplo disso é Johnny Hiland, um dos melhores guitarristas atuais de country. Sua diversidade técnica é impressionante e ele foi fundo em explorar tudo relacionado ao country, como blues e honky tonk, e muitos outros estilos relacionados.

Essa abordagem permite que você conecte os pontos de forma natural, pois estilos que estão próximos uns aos outros possuem muitas características em comum, então basta aprender alguns elementos novos e pronto, você agora consegue tocar mais um estilo em seu repertório. Além disso, você poderá ir além da superficialidade de um estilo. Se você estuda estilos desconexos, dificilmente conseguirá se aprofundar. Mas se eles estão interligados, é possível dominar todos eles.

Não caia na armadilha

A guitarra é um instrumento incrível porque permite tocar centenas de estilos diferentes. Mas isso não significa que um bom guitarrista é aquele que sabe tocar todos os estilos. Entre um guitarrista que é muito bom em apenas um estilo e outro que sabe tocar de tudo um pouco, em geral o primeiro é mais interessante. Afinal, quando queremos ouvir blues, buscamos um artista de blues, quando queremos ouvir bossa nova, buscamos um artista de bossa nova. Ninguém espera escutar vários gêneros em um só artista. Além disso, o tempo passado com muitos estilos poderia ser usado para se aprofundar nos estilos mais relevantes para você.

Criatividade por associações

Para os músicos que compõem ou gostam de improvisar, a criatividade é um fator crucial. A criatividade pode ser desenvolvida com a prática. Não vou entrar em detalhes aqui sobre isso, mas vale destacar que uma das principais abordagens que conhecemos para gerar ideias criativas são as associações. Através dessa abordagem, pensamos em duas ideias desconexas e tentamos imaginar diferentes formas de conectá-las. Os resultados são surpreendentes. Por exemplo, Randy Rhoads criou um estilo próprio de solar unindo música erudita com metal, e Zakk Wylde juntou country com hard rock em muitos de seus solos.

A mensagem aqui é que quanto mais estilos você conhecer, mais opções terá para combinar um estilo com o outro, nem que sejam apenas pequenos detalhes. Alimente sua curiosidade e colha os frutos.

Quantos estilos devo estudar?

Existem centenas de estilos interessantes para tocar. Só no Brasil deve ter mais de 50 estilos e variações. No Nordeste, por exemplo há uma diversidade enorme. Mas os estilos não vem até nós, precisamos ir até eles. Se queremos descobrir coisas novas, precisamos agir como exploradores numa verdadeira aventura musical.

Geralmente, associamos a cada país um tipo de música, mas a verdade é que o cenário musical de cada país é muito mais complexo. Se quisermos, podemos escutar um estilo diferente a cada dia de nossas vidas e nunca vamos esgotar as possibilidades. Por isso, não vamos deixar a busca por versatilidade e abrangência nos levar para a perda de foco. A quantidade de estilos que você vai estudar depende de quanto você quer se aprofundar em cada um deles e de quanto tempo você tem disponível. Vale a pena traçar uma meta. Por exemplo, “Quero poder tocar jazz no nível básico em 6 meses”. Aí, é só correr atrás do desafio!

Como ter abrangência musical

Como mencionei antes, aprender um estilo a fundo leva tempo, mas aprender superficialmente pode ser bem rápido, além de ser interessante para o seu desenvolvimento musical. Por exemplo, digamos que você toque blues e queira que essa seja sua especialidade. Nada te impede de querer aprender um pouco sobre country. Aí, minha sugestão é escolher uma música que represente bem esse estilo e aprender a tocá-la. Com apenas uma música você verá a enorme quantidade de elementos que um estilo pode conter. Você não se tornará um especialista nesse estilo, mas pelo menos terá a chance de descobrir alguns elementos que você pode aplicar no seu dia-a-dia.  A sua abrangência musical pode ser medida em quantas músicas de quantos gêneros você consegue tocar. Quem sabe, você acaba esbarrando em um estilo que te agrade tanto a ponto de você decidir se dedicar mais intensamente a ele.

Quer conhecer mais estilos musicais?




sábado, 5 de setembro de 2015

A Matemática das 12 Notas : Escala Cromática

A música ocidental, que trabalha com 12 notas, não descartou a nota Si como a cultura oriental havia feito. Os ocidentais observaram que as notas Dó e Si eram próximas uma da outra e decidiram criar uma escala mais abrangente. Nessa escala, todas as notas deveriam ter a mesma distância umas das outras. E essa distância deveria ser o intervalo que havia entre Dó e Si (um semitom). Ou seja, entre Dó e Ré, por exemplo, precisaria existir uma nota intermediária, pois a distância entre Dó e Ré (um tom) era maior que a distância entre Dó e Si (um semitom). Por meio da análise de frequências, descobriu-se que multiplicando a frequência da nota Si pelo número 1,0595 chegava-se na frequência da nota Dó, observe:

Frequência da nota Si: 246,9 Hz
Frequência da nota Dó: 261,6 Hz

Multiplicando a frequência da nota Si por 1,0595 teremos:
246,9 x 1,0595 = 261,6 Hz (nota Dó)

Como nosso objetivo é manter essa mesma relação (distância) para as demais notas, vamos utilizar esse procedimento para descobrir qual será a nota que virá depois de Dó.

Multiplicando a frequência da nota Dó por 1,0595:
261,6 x 1,0595 = 277,2 Hz (Nota Dó sustenido)

Repetindo o procedimento para ver o que vem depois de Dó sustenido:
277,2 x 1,0595 = 293,6 Hz (Nota Ré)

Observe que seguindo essa lógica, podemos formar toda a escala cromática! Ou seja, depois de multiplicar a frequência da nota Dó pelo número “1,0595” doze vezes, voltaremos à nota Dó. Isso só é possível porque “1,0595” corresponde ao resultado da raiz . Observe que  multiplicada por ela mesma 12 vezes é ( = 2. E já vimos que uma nota multiplicada por 2 é ela mesma uma oitava acima.

Agora sim podemos ver claramente que esses números não saíram do acaso. O objetivo desde o início foi dividir uma escala em 12 partes iguais, de maneira que a última nota voltasse a ser a primeira.

Foi assim que surgiu a escala temperada, também chamada de cromática.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Produção Musical - Parte III - Experimentações e Gravação Guia



Experimentações

Neste momento, as análises já estão documentadas e diversas decisões foram tomadas. Até agora, o processo ocorreu através de reuniões e discussões entre artista e produtor. A próxima fase começa a fazer uso de áudio no estúdio e/ou técnica. Versões são gravadas para se testar tonalidade e andamento, estudar complexidade e alternativas.

É uma espécie de ensaio da gravação e da mixagem, para que músicos e técnicos possam testar arranjos, formas e variações, retirando qualquer dúvida ainda existente após as análises. Ao mesmo tempo, são realizadas algumas gravações que serão úteis durante o desenrolar do processo.

O registro original da composição (em áudio) pode ser utilizado como base para as versões experimentais, economizando-se tempo.
Por questões de agilidade, o próprio produtor ou outra pessoa da equipe pode tocar alguns instrumentos ou mesmo cantar nas versões guias. Neste caso, o artista não deveria se sentir "traído" de maneira alguma.

Na verdade, se o compositor não é exatamente um bom intérprete, sua música seria muito melhor valorizada se interpretada por outros músicos. Outras vezes, a formação original da banda pode ser modificada durante as gravações, para o bem da música - este sempre é o objetivo maior. Existem excelentes músicos de estúdio que não desempenham bem ao vivo e vice versa.
Ser um artista é muito mais do que entregar uma boa performance: composição, imagem pública, presença de palco, visual, histórico, carisma – aspectos não necessariamente relacionados à produção musical.

As experimentações são uma oportunidade de testar o entrosamento da equipe e a confiabilidade de equipamentos e processos. Já que a qualidade do áudio não é prioridade, a equipe pode se concentrar na mensagem musical.

Durante os experimentos, traçar o contorno emocional da música é outro recurso valioso. O contorno emocional indica graficamente como as informações musicais entram e desaparecem ao longo da música. Está bastante conectado ao arranjo, à Teoria da Informação e à Teoria Gestalt. Que emoções e com que intensidade cada sessão da música oferece? O contorno é estável e cansativo ou apresenta variações, picos e respiros interessantes?
Rapidamente, a quantidade de testes pode se tornar grande e, assim, é muito importante documentar todas as versões: data, equipamentos usados, principais variações, duração, andamento, tonalidade, forma, letras, harmonia, reações dos ouvintes.
Com os recursos atuais, facilmente o áudio pode ser picotado e misturado com outros elementos para agilizar os testes, como batidas diferentes, estilos modernos e antigos, elementos originais ou datados, timbres criativos ou clássicos. Se o artista ainda não possui uma identidade musical, este é um bom momento de construí-la.

Quando ouvimos Santana, reconhecemos que é Santana. The Police, Dire Straits, Steely Dan, Iron Maiden, Elvis Presley, Bach, Jack Johnson e Norah Jones. São todos exemplos de grande personalidade musical que muitas vezes surgiram de experimentações.

É cada vez mais difícil se criar uma identidade musical. Um melhor caminho talvez seja encaixar-se em um estilo ou nicho de mercado. Mais uma vez, as referências se tornam grandes aliadas: “gostaria que soasse como U2", "adoro a percussão daquela música do Jethro Tull", "queria um ritmo marcante como Down on The Corner do Creedence". As referências ajudam a equipe a eliminar alternativas, a compreender as intenções do artista. Além disso, auxiliam o público a se identificar com faixas e artistas, aceleram a adoção de músicas.

Durante esta fase, é muito prático e eficaz utilizar programação MIDI, bibliotecas de loops e samplers. Timbres e ritmos podem ser alterados e "votados" pela equipe. Convide amigos e desconhecidos para testes de audição para ter uma boa idéia do que a música está passando, antes que as horas de estúdio sejam agendadas.

A mensagem está clara? Soa como plágio ou lugar comum? É muito alternativo, de difícil digestão? Qual a primeira reação do público?

A primeira reação pesa muito no sucesso de uma música. Infelizmente, ela tende a desaparecer para aqueles envolvidos na produção, cada vez que escutam a música mais uma vez.

Ao final das experimentações, o produtor deverá ter diagnosticado profundamente alguns critérios como: clareza, simplicidade, ênfase, coerência, especificidade e repetição - elementos importantes, embora inconscientes, para a percepção (e avaliação) dos ouvintes.

Durante os experimentos, deve-se tomar o cuidado para que o artista não considere as versões-teste como uma produção final. Por várias vezes tive dificuldade para explicar ao cliente que aquilo que ele estava ouvindo não deveria ser julgado como produção finalizada, pois ainda estávamos na pré-produção. Timbres que soam como karaokê, notas fora de tempo, loops e efeitos “baratos” somente estão ali para o estudo de possibilidades.

É uma questão de recursos: por que gastar tempo buscando o melhor timbre na sua biblioteca de loops ou quantizando todas notas no groove se provavelmente aquilo não será reaproveitado? No entanto, é preciso um mínimo de “realismo” para que se possa comunicar a proposta.

Para cada versão, faça um mixdown do áudio e salve a sessão do seu software com um nome diferente. Envie o áudio para o artista (ou produtor) e peça para ele comentar. Ele pode usar o áudio para gravar outro instrumento por cima, editar a forma, testar vocais.

Por diversas vezes acabei utilizando 90% do tempo total de uma produção para a pré-produção. Essa é a hora de explorar instrumentos e idéias que estão engavetadas. É muito provável que, em algum momento, a equipe se manifestará: “É isso!”. Uma descoberta, um detalhe, que parece dar forma à música, clareando a visualização do resultado final. Este estalo de descoberta e confiança tende a ocorrer várias vezes durante a produção, preste atenção neles pois podem resolver grandes problemas. Agora é hora de fazer uma gravação-guia!

Gravação-Guia

Naturalmente, todas as experimentações e as várias gravações realizadas durante a pré-produção caminham para uma gravação-referência, um mix que resume todas as ideias e contém uma estrutura candidata à forma final. Esta será a versão final da pré-produção.

Às vezes, esta gravação-guia consegue atingir um resultado tao bom (artístico e técnico) que passa a fazer parte do CD demo (demonstração), do EP ou mesmo do LP do artista*. Principalmente quando não há orçamento para se seguir adiante com a produção, ou quando é importante uma rápida divulgação.
(*EP e LP no sentido de quantidade de faixas, provavelmente o formato será CD ou arquivo digital MP3 para download)

O CD demo deverá incluir de 3 a 5 canções. O repertório deveria representar o artista da melhor maneira possível – estilo, versatilidade e técnica.
Uma demo é útil na divulgação do artista para rádios, casas de show, editoras, selos, produtores, investidores. O problema é que centenas de CDs são enviados diariamente para estes caçadores-de-talentos e acabam esquecidos numa grande pilha. Quando escutados, podem ser rapidamente descartados se os primeiros segundos da música principal não se mostram interessantes e muito bem produzidos.

É por isso que, hoje em dia, uma demo está mais para uma produção final do que para uma gravação-guia.

Na fase das gravação-guia, melhor seria seguir adiante, acabar a produção de sua música e só então lançar o CD demo, que certamente terá mais chances de se destacar!

Com a gravação-guia em mãos, é fácil envolver outras pessoas, expor o trabalho para gravadoras e receber críticas. No final do dia, a guia comunica as intenções do artista e da equipe de produção, permitindo que selos e editoras tenham uma boa idéia do potencial da canção.

A gravação-guia, bem como toda a documentação que a acompanha, pode ser utilizada pelo compositor (intérprete ou banda) para gravar, mixar e masterizar em um momento futuro, em outro estúdio ou cidade, preferencialmente com participação do mesmo produtor.

Eventualmente, até com outra equipe de produção. Se uma gravadora se interessar pela música, ela poderá oferecer adiantamentos, financiar os custos de produção, fornecer estúdios e técnicos e até mesmo interferir diretamente na produção (afinal, está pagando).

Neste momento, a pré-produção está finalizada e irá garantir uma produção sem grandes falhas ou frustrações. É hora de seguir para o estúdio. Na fase de captação, artistas e técnicos podem se concentrar na performance. Com a pré-produção concluída, gastarão menos tempo e dinheiro dentro das salas de gravação, atingindo resultados surpreendentes.

Utilize a gravação-guia para avaliar a Pré-Produção, afinal, todas as decisões e informações musicais estão contidas nela. Quantos musipontos você daria? ( musipontos, fora abordados na parte I )
Se ainda não considera que atingiu 2 dos 3 pontos, que tal gastar um pouco mais de tempo antes de iniciar as sessões de gravação? Procure testar outros arranjos. Lembre-se que retirar elementos costuma ser mais eficiente do que adicionar.


A música está longa ou curta? Tem um foco claro ou muitas coisas interessantes ao mesmo tempo que podem confundir o ouvinte? A composição é boa, se sustenta sozinha ou exige muito da produção?

( na próxima parte veremos: "Captação de Bases".


fonte: Dennis Zasnicoff

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Como estudar músicas complicadas




Com certeza, você guitarrista, seja profissional ou amador, já se deparou com a seguinte situação: você está lá, tocando uma música dos seus ídolos, super empolgado para tirar o som inteiro e, de repente, você tropeça em um fraseado de dois ou três compassos!

Até aí, tranquilo, natural. Essas coisas acontecem. O que você faz? Deixa aquela parte de lado e vai tirando as outras partes da música e treinando aquele fragmento aos poucos.

Mas aí aquela sua dificuldade vira um pesadelo. Você consegue tocar a música inteira, mas aquele trecho é uma pedra no seu sapato!

Você acorda pensando nesse trecho, dorme pensando nele, sonha com ele e esse dilema não se resolve!

Pois bem. Iremos tentar solucionar essa questão neste artigo. Primeiro, vamos entender o que acontece. Essa dificuldade surge porque, inicialmente, o seu raciocínio não está conseguindo acompanhar a passagem a ser executada.

Entenda o raciocínio da música

Considere que o raciocínio da pessoa que compôs o trecho pode ser totalmente diferente do seu. Não se desanime e entenda que cada músico possui uma particularidade e tente enxergar as coisas com outros olhos. E se o Adrian Smith, do Iron Maiden, quisesse tocar um trecho de sua música e sentisse dificuldade? Sem nenhuma pretensão! Mas, simplesmente querendo dizer que, somos todos humanos e possuímos dificuldades e virtudes! Às vezes, essa passagem pode ser uma maneira diferente de você visualizar um contexto musical, e isso acaba se traduzindo em uma dificuldade técnica.

Nem tudo são dedos rápidos! A técnica não é puramente mecânica. É necessário entender que, para você conseguir executar o determinado trecho, seu raciocínio precisa processar essa mensagem para que suas mãos executem isso com perfeição.

Antes de tentar tocar, pare, pense e respire. Depois, visualize as escalas, os padrões e as posições usadas nesse trecho. Isso deixa as coisas mais palpáveis.

Entenda a figura rítmica que está sendo executada

A figura rítmica é simplesmente o ritmo em que é tocado cada trecho - 8 notas por tempo, 6 notas por tempo, etc. Esse é o ponto mais importante. Geralmente, isto não está indicado na tablatura, só em partituras, mas você consegue entender ouvindo a música com calma. Entenda a figura rítmica de cada trecho para saber executá-lo. É nessa parte que a técnica se torna algo mais intelectual do que mecânico. Muita gente ignora esse ponto e, por isso, acaba não executando os fraseados com perfeição. Esse é o grande segredo por trás da técnica! Figura rítmica são números, exatidão! Uma figura rítmica determina o X da questão, praticamente transformando a música numa equação matemática, com valores exatos, não só intuição. E a exatidão não permite falhas!

Ferramenta de Treino Nº 1: Metrônomo

Depois de toda essa análise, tente transformar esse trecho em algo habitual para você. Como fazer isso? Executando em andamentos mais lentos! Hoje temos recursos de sobra. Não há mais desculpas para não se desafiar com peças musicais mais complexas. O primeiro passo é usar o metrônomo, que já está conosco há séculos e muitos guitarristas ainda teimam em não usar! Desculpe minha sinceridade, mas desenvolvimento técnico musical é praticamente impossível sem esse companheiro. Ele deve ser seu melhor amigo!

Ferramenta de Treino Nº 2: Loopers de Velocidade

Outro ótimo recurso são os loopers de velocidade! No Guitar Pro, por exemplo, temos essa possibilidade. Você isola o trecho, coloca no loop (repetição), e escolhe a porcentagem do aumento do BPM a cada vez que o trecho for tocado. Pressione o F9 no seu teclado e descubra o paraíso! Esse tipo de treino ajuda muito.

Diminua o andamento pela metade, execute o trecho dez vezes e aumente cinco BPMs! E assim vá indo até chegar ao andamento original da composição. E não chore! Talvez você só consiga chegar ao andamento original depois de semanas! Mantenha seu propósito. Esse é o caminho.

Treine mais rápido que o normal

Conseguiu chegar ao andamento original da música? Aconselho você a tentar passar 10 BPMs na execução desse trecho. Claro que isso não é uma obrigação, mas é bom para se garantir.

No meu treino técnico, que, atualmente, é concentrado nas minhas composições instrumentais e músicas dos guitarristas que curto, sempre procuro executar as músicas em 10 ou 20 BPMs acima do original. Isso facilita na hora de tocar ao vivo ou na gravação.

A gente nunca sabe como serão as coisas nos momentos importantes. Geralmente, em palco, por determinadas circunstâncias, a gente perde um pouquinho do nosso potencial. Às vezes, você não está com o amplificador do seu costume, ou o som e o lugar não ajudam. Então, se você se preparar em 120%, pode ter certeza que, em qualquer situação, você conseguirá tocar perfeito a 100%!

Com concentração e esforço você chega lá

A maioria dos músicos possui certa dificuldade técnica por que não compreende corretamente a maneira de se estudar e de aplicar as técnicas. Entenda que o estudo técnico inicialmente é algo mental. Depois dessa compreensão, ele se torna um estudo físico. E, como toda prática física, isso exige horas de dedicação e paciência. Essa é a realidade da nossa vida musical. Sempre vencendo barreiras!