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sexta-feira, 23 de março de 2018

Percepção Musical - parte 1


Para compreender o que você escuta: este é o objetivo principal da teoria e percepção musical. No papel de executante, regente, compositor ou professor, tal compreensão é necessária para que você possa fazer música em conjunto, avaliar e corrigir a sua execução (e a de outros), comparar interpretações musicais diferentes, assim como possuir uma experiência musical mais completa. Uma das atividades praticadas em Percepção Musical é o ditado. O produto final de um ditado é uma representação visual da música: você escreve o que você escuta. Enquanto isto é uma habilidade musical útil por si só, é importante lembrar que não é o principal objetivo do ditado. O ditado é usado para desenvolver sua habilidade de compreender a música ouvida e avaliar o seu nível de compreensão. Você aprende a escutar mais e melhor quando escreve o que ouviu. Também é um meio de comunicar qual foi sua compreensão da música, para que se possa identificar o que precisa ser melhorado.


Escutando o que vê

Para escutar o que você vê: esta é a habilidade que permite que você leia um trecho musical na partitura e o ouça mentalmente. Você deve escutar a música com um ouvido "interno" tão potente e tão real quanto se estivesse de fato ouvindo alguém tocar. Um dos meios de desenvolver esta habilidade é através do solfejo. O objetivo do solfejo não é o de produzir uma voz linda (embora não exista nada de ruim em obter tal voz), mas sim uma voz precisa. Eventualmente, você deverá poder cantar "silenciosamente". Outro propósito do solfejo é o de permitir a observação do que você está pensando. Ninguém pode escutar o que está dentro de sua cabeça. Pode não ser um meio ideal, mas solfejar em voz alta é o único modo para que alguém (seja o professor, um colega ou você mesmo) possa avaliar se você pode de fato escutar aquilo que enxerga. É o único modo de identificar seus pontos fortes e fracos, e assim ajudá-lo a melhorar sua habilidade.


Reconciliar a leitura e o som

Você deve desenvolver a habilidade de detectar e corrigir discrepâncias entre e a música escrita e a música que você ouve. Por exemplo, quando você está ensinando ou regendo um conjunto você deve poder identificar notas erradas e que tipo de erro ouviu para poder orientar a correção dos mesmos. Às vezes é a notação que precisa se reconciliar com o som, como, por exemplo, quando você transcreve o solo de uma gravação ou confere se existem erros em uma partitura. Tanto uma quanto outra atividade envolve uma comparação da execução audível com a sua execução interna da partitura - portanto você precisa poder escutar o que vê.


Tocar o que tem intenção

Ao executar música, você precisa executar com precisão o que está na sua mente. Parte disto depende da sua proficiência técnica no seu instrumento ou voz. Outra parte depende do seu sentido interno de altura, ritmo, dinâmicas, etc. Você pode ver uma sexta menor na música e tentar tocar este intervalo, mas não ser bem sucedido porque lhe falta a habilidade de afinar com precisão. Você precisa saber intelectualmente como é uma quiáltera para poder executar uma com precisão. Seu senso rítmico pode não estar suficientemente desenvolvido para poder começar e manter um pulso específico sem o uso de um metrônomo ou de um regente. O objetivo de cada exercício de percepção musical não é o de replicar uma melodia ou ritmo em particular, mas sim aprender habilidades e estratégias que são aplicáveis em toda música que você pode encontrar.


Ouvido absoluto vs. ouvido relativo

Existe muita discussão sobre a questão de ouvido absoluto vs. ouvido relativo. Estes termos se referem, na realidade, ao tipo de processamento mental utilizado para a identificação de alturas musicais. O processamento absoluto percebe alturas diretamente através do reconhecimento da freqüência do som escutado: uma freqüência de 440hz é uma nota lá. Por outro lado, o processamento relativo exige a comparação entre uma determinada altura e uma nota de referência: percebe-se, por exemplo, duas notas consecutivas como um intervalo de terça maior (neste caso a segunda nota só poderia se identificada sabendo-se a primeira).

Por mais útil que o ouvido absoluto possa parecer, estruturas musicais mais complexas só podem ser percebidas através do ouvido relativo, já que tais estruturas são definidas justamente pela relação particular entre notas específicas. Uma pessoa portadora apenas de ouvido absoluto, sem a capacidade de fazer relações entre os sons escutados, não poderia perceber diretamente intervalos, acordes, escalas, motivos, sequências, transposições, etc. A verdade é que todo bom músico tem o seu ouvido relativo bem treinado, independente de ter ou não um ouvido absoluto. Portanto, a conclusão é simples:

"O ouvido absoluto é desnecessário para o desenvolvimento do músico."
















segunda-feira, 13 de março de 2017

Os Estudos Musicais e a Educação do Ouvido



[Émile Jaques-Dalcroze, 1898]

Inutilidade dos estudos de harmonia desprovidos da aquisição ou da prévia utilização da audição ''interior'' - Necessidade de cultivar as faculdades auditivas dos harmonistas - Natureza dos exercícios conhecidos como ''desenvolvimento do ouvido'' - Perigos da realização de estudos especializados e, particularmente, de estudos de piano não acompanhados por estudos gerais - O papel das faculdades táteis e motoras na educação musical - Sensibilidade para elaboração de exercícios específicos destinados a regular e desenvolver o temperamento.
Um dos preceitos favoritos dos mestres de harmonia é o seguinte: ''Não se deve jamais utilizar seu instrumento para construir e escrever as sucessões de acordes''. Fiel à tradição, apliquei-me em repetir esse axioma durante as minhas aulas, até o dia em que um dos meus alunos perguntou-me com ingenuidade: ''Mas, senhor, por que eu dispensaria o piano, uma vez que sem ele eu não sou capaz de ouvir coisa alguma?''. Subitamente começou a vibrar, dentro de mim, uma centelha de verdade. Compreendi que toda regra que não tenha sido forjada pela necessidade e através da observação direta da natureza é arbitrária e falsa, e a proibição da utilização do piano não teria o menor sentido, a não ser que ela fosse destinada a jovens dotados de uma audição interior. As sensações táteis podem, em certa medida e em alguns casos, substituir as sensações auditivas: conhecemos compositores que possuem faculdades auditivas incompletas, mas conseguem escrever interessantes obras, compostas, como se diz, no piano. Eles seguramente só puderam estudar harmonia, negligenciando a observação da lei suprema, pois seria impossível escrever com precisão as sucessões de acordes sem dispor de um ouvido interior que lhes fornecesse o eco antecipado de suas ressonâncias. Ou uma coisa ou outra: ou é preciso compor com o auxílio do piano, se não dispusermos de um ouvido musical, ou é necessário dispensar o piano, se formos capazes de ouvir. Ao imporem aos seus alunos a obrigatoriedade de escrever as harmonias sem o amparo de um instrumento, os professores têm, portanto, como dever, despertar nos estudantes o sentido auditivo musical e desenvolver neles o sentimento melódico, tonal e harmônico com o auxílio de exercícios especiais.
Existem exercícios desse gênero? Esses exercícios são ensinados nas escolas de música? Essas foram as perguntas que eu me fiz inicialmente e que me esforçava em solucionar, escavando nas bibliotecas e consultando os programas de ensino dos Conservatórios. A resposta foi: ''não, não existem procedimentos pedagógicos destinados a reforçar as faculdades auditivas dos musicistas e não há nenhuma escola de música preocupada em analisar o papel dessas faculdades nos estudos musicais''.
Entendamos com clareza: existem, com toda certeza, numerosos livros nos quais são prescritos muitos exercícios de leitura à primeira vista, de transposição, de escrita e, mesmo, de improvisação vocal. No entanto, todos eles podem ser realizados sem o auxílio da audição; os exercícios de leitura e improvisação podem ser realizados com o auxílio do sentido muscular e os exercícios de transposição e escrita, com o auxílio do sentido visual. Nenhum deles é diretamente dirigido ao ouvido e, todavia, é através do canal auditivo que as vibrações sonoras são registradas em nosso cérebro. Não seria insensato ensinar música sem se preocupar em diversificar, graduar e combinar, em todas as suas nuances, as escalas de sensações que despertam em nossa alma os sentimentos musicais? Como é possível que o ensino atual de música não leve em consideração a qualidade principal que caracteriza o músico?
Apliquei-me, portanto, a inventar exercícios destinados a reconhecer a altura dos sons, a medir os intervalos, a escrutar os sons harmônicos, a individualizar as diversas notas dos acordes, a seguir os desenhos contrapontísticos das polifonias, a diferenciar as tonalidades, a analisar as relações entre as sensações auditivas e as sensações vocais, a desenvolver as qualidades receptivas do ouvido e - graças a uma ginástica de um novo gênero destinada ao sistema nervoso - a criar, entre o cérebro, o ouvido e a laringe, correntes necessárias para fazer do organismo, como um todo, algo que pudesse ser denominado ouvido interior. Ingenuamente eu imaginei que bastaria inventar esses exercícios para que eles fossem aplicados nas aulas especiais!...
Infelizmente, as dificuldades com as quais eu me deparei ao tentar construir um sistema destinado ao desenvolvimento auditivo não eram nada, comparadas àquilo que encontrei ao tentar introduzir esse sistema nos programas de ensino. Os grandes argumentos contra sua introdução eram que o verdadeiro musicista deveria possuir naturalmente as qualidades necessárias ao exercício de sua arte; e que o estudo não poderia substituir os dons naturais. Por outro lado, o tempo de estudos, já muito limitado, tornava impossível, ao que parece, atrapalhar os alunos com novos estudos que os impedissem de dedicar-se aos exercícios de técnica para os dedos. Além disso, ''os estudos instrumentais eram suficientes para formar um bom músico'', etc., etc. Alguns desses argumentos eram aparentemente justos, e é evidente que somente deveriam consagrar-se à arte musical os indivíduos particularmente dotados, isto é, aqueles que possuíssem, digamos, de modo natural, as qualidades necessárias de reconhecimento dos sons, tais como sensibilidade dos nervos e elevação dos sentimentos, sem as quais não existe um músico perfeito. Mas, enfim, o fato de que as aulas de instrumento estão repletas de indivíduos incapazes de ouvir ou de escutar música permite-nos constatar que os conservatórios admitem ser possível, mesmo aos que não são músicos natos, cantar ou tocar piano!
Ora, qual a razão para ocupar-se unicamente da instrução dos dedos desses alunos, esquecendo-se de sua educação auditiva?
Em relação aos bons músicos, dedicados aos estudos de composição ou de direção orquestral, não é possível supor que exercícios cotidianos de discernimento dos graus de intensidade e altura dos sons; de análises sensoriais dos timbres e de suas combinações; de polifonias e harmonias em todos os graus da escala sonora pudessem tornar seus ouvidos ainda mais refinados e sua inteligência musical ainda mais flexível?
O estilo musical varia de acordo com o clima e a latitude e, por conseguinte, de acordo com os temperamentos impregnados pelos ambientes e resultantes, assim, das condições de vida. As divergências de harmonia e movimento que caracterizam a música dos diferentes povos derivam, portanto, do estado nervoso e muscular de cada organismo, independentemente de suas faculdades auditivas. Nos estudos musicais, não seria conveniente dedicar uma atenção especial às faculdades motoras dos alunos; ao conjunto de reações, impulsos, de pausas e recuos, de movimentos espontâneos e movimentos deliberados que constituem o temperamento? Muitas vezes fiquei surpreso ao observar a dificuldade das crianças pequenas para acompanhar, andando, uma música muito lenta; realizar paradas ou partidas bruscas, conforme o comando; descontrair seus membros, ao sentirem medo; orientar ou combinar seus movimentos de braços, quando lhes ensinamos os gestos de uma canção. Tanto tempo se passa entre a vontade de movimentar-se e a possibilidade de realizar esse movimento, que não é de espantar que tantas pequenas laringes sejam inábeis; tantas cordas vocais se apresentem pouco flexíveis e pouco precisas; tantas respirações sejam mal reguladas nos exercícios de canto e também na maneira de escandir e dividir o tempo e de emitir a nota no momento justo. Portanto, não apenas o ouvido e a voz da criança deveriam ser exercitados, mas também tudo aquilo que, em seu corpo, coopera com os movimentos ritmados, tudo aquilo que, músculos e nervos, vibra, contrai-se e descontrai-se sob a ação de impulsos naturais.
Não seria, então, possível criar novos reflexos; empreender uma educação dos centros nervosos; acalmar os temperamentos agitados demais; regular os antagonismos e harmonizar as sinergias musculares; estabelecer comunicações mais diretas entre os sentidos e a mente, entre as sensações que provocam a inteligência e os sentimentos que recriam meios sensoriais de expressão? Todo pensamento é a interpretação de um ato. Uma vez que, até hoje, tem sido suficiente oferecer à mente a consciência do ritmo graças unicamente às experiências musculares da mão e dos dedos, não lhe comunicaríamos impressões muito mais intensas se fizéssemos colaborar o organismo inteiro em experiências que lhe despertassem a consciência tátil-motriz? Ponho-me a sonhar com uma educação musical na qual o próprio corpo desempenharia o papel de intermediário entre os sons e o pensamento e tornar-se-ia o instrumento direto de nossos sentimentos - em que as sensações do ouvido se tornariam mais fortes, graças àquelas provocadas pelas múltiplas matérias suscetíveis de vibrar e ressoar em nós: a respiração dividindo os ritmos das frases e as dinâmicas musculares traduzindo as dinâmicas que ditam as emoções musicais.

Assim, na escola, a criança não só aprenderia a cantar e a escutar com precisão e no compasso, mas aprenderia também a mover-se e a pensar de modo preciso e ritmicamente. Começaríamos por regular o mecanismo do andar, aliando os movimentos vocais aos gestos de todo o corpo. E isso seria, ao mesmo tempo, uma instrução para o ritmo e uma educação e pelo ritmo.
Infelizmente, quando penso nas dificuldades que tenho atualmente para convencer os educadores musicais sobre a possibilidade de exercícios cujo objetivo seja ensinar a criança a escutar as sonoridades antes de executá-las e registrá-las graficamente e a despertar o pensamento antes de empreender sua tradução, eu me pergunto: a educação dos centros motores será possível um dia? Os homens recusam toda proposta nova, quando certas tentativas anteriores lhes proporcionam alguma satisfação e suas mentes habituaram-se a não mais contestar a utilidade delas. Todo ato libertador com o qual consentem parece-lhes definitivo e imutável, e toda verdade futura parece-lhes hoje uma mentira. Todavia, o pensamento humano desenvolve-se pouco a pouco, apesar das resistências; as ideias esclarecem-se; os desejos afirmam-se; os atos multiplicam-se. Um dia, quem sabe, quando os pedagogos vierem a reconhecer universalmente a possibilidade de reforçar os diversos modos de sensibilidade por meio de procedimentos de adaptação, variação e substituição, a educação musical possa apoiar-se menos exclusivamente na análise e mais no despertar das sensações vitais e da consciência dos estados afetivos. Nesse dia, nascerão, por toda parte, métodos fundamentados na cultura da combinação das sensações auditivas e táteis, e eu poderei desfrutar da silenciosa alegria daqueles que puderam proferir, em algum momento doloroso de suas vidas, o eterno ''E pur si muove!''.




segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Diferença entre Ouvido Absoluto e Ouvido Relativo


Antes de mais nada gostaria de comentar que quando Beethoven escreveu a famosa nona sinfonia em 1824, aos 54 anos de idade, ele já estava surdo havia dez anos. Muitos se perguntam como ele foi capaz de compor uma das músicas mais admiradas de todos os tempos sem nem conseguir escutar. Como ele sabia quais notas escrever no papel?

A resposta para essas perguntas não é simples, pois ninguém sabe como funcionava a mente desse gênio. Mas há fatos importantes que conhecemos sobre Beethoven. Ele tinha desenvolvido, ao longo de sua vida, uma Percepção Musical muito avançada. Não só ele tinha um Ouvido Absoluto, como também tinha Ouvido Relativo.

Veremos :

- O que significa Ouvido Absoluto e Ouvido Relativo;
- Qual é a importância da Percepção Musical para solar na guitarra;
- Como treinar para ter Ouvido Absoluto e Ouvido Relativo.

O que é Ouvido Absoluto?

A pessoa que tem Ouvido Absoluto possui uma habilidade muito especial. Ao escutar qualquer som, ela consegue imediatamente dizer qual é a nota musical sendo tocada. É uma memória sonora muito forte. Ao ouvir uma música no piano, ela pode dizer com precisão o nome de cada nota: Dó, Mi, Fá, etc. Mas não é só isso. Por incrível que pareça, qualquer ruído no dia-a-dia, como um telefone tocando, uma buzina na rua, ou um bebê chorando também é rapidamente reconhecido. O telefone toca, e ela identifica: “Isto é um Lá”.  

Já se nasce com Ouvido Absoluto?

Existem dois grupos de pessoas com esta habilidade. Um grupo são as pessoas que já nascem com esse dom e que, geralmente, na infância, seu pais percebem isso e incentivam a criança a tocar algum instrumento e aprender música. E o outro grupo são as pessoas que tem facilidade e gosto pela música e que acabam desenvolvendo essa habilidade com o auxílio de um professor e bastante exercício.

Existem diferentes tipos de Ouvido Absoluto

O Ouvido Absoluto se manifesta de formas diferentes em cada pessoa. Umas conseguem dizer o nome de qualquer nota em menos de um segundo; outras precisam refletir um pouco antes de responder. Umas acertam sempre; outras erram de vez em quando. Umas conseguem reconhecer notas em qualquer instrumento; outras só conseguem reconhecer as notas no instrumento que estão acostumadas a tocar.

Há ainda outras formas de Ouvido Absoluto, que não seguem a definição ao pé da letra. Por exemplo, o guitarrista que tem facilidade de tirar músicas de ouvido, ao escutar uma música, ele já sabe exatamente onde encontrar as notas na guitarra. Apesar de não saber dizer o nome das notas de ouvido, há uma memória sonora muito forte, e a resposta motora é imediata. A pessoa lembra-se da sensação física de tocar aquela nota.

Qual é a utilidade do Ouvido Absoluto?

Uma das vantagens é que fica mais fácil de tirar músicas de ouvido, sem precisar ler partituras, cifras ou tablaturas. Além disso, na hora de compor, a pessoa pode escrever as notas sem precisar estar com o instrumento na mão para verificar as notas. Fica mais fácil também de se comunicar com outros músicos, principalmente durante ensaios com sua banda.

Para guitarristas, o Ouvido Absoluto pode ser bastante útil na hora de solar e improvisar, pois além de feeling e criatividade, é necessário saber onde no braço da guitarra estão as notas que você está imaginando.

Todo músico precisa ter Ouvido Absoluto?

Apesar de ser uma habilidade desejada, não é necessário ter Ouvido Absoluto para ser um grande músico. É preciso deixar claro que Ouvido Absoluto não faz você tocar melhor, e também não faz ser mais criativo.

Um exemplo famoso é o maestro Arturo Toscanini, que foi um dos principais maestros do século XX. Além de não ter Ouvido Absoluto, ele chegava a desafinar na hora de cantarolar as melodias. Mas isso não o impedia de realizar seu trabalho com perfeição. Isto é, não ter Ouvido Absoluto não é uma limitação.

Além disso, algumas pessoas que possuem Ouvido Absoluto, apesar de gostarem desse dom, dizem que pode ser cansativo perceber todas as notas, ao invés de simplesmente apreciar uma música.

Esse talento, no entanto, é extremamente útil para alguns músicos, como os vocalistas, que precisam imaginar o som antes de emiti-lo com a voz. Do contrário, a nota cantada será errada. Em instrumentos como trombone e trompete, ocorre algo semelhante. Há também instrumentos de cordas, como violino e violoncelo, que não tem as notas indicadas pelos trastes, como a guitarra. Assim, podemos ver que guitarristas e violonistas necessitam menos dessa habilidade, pois é fácil de visualizar as notas e escalas no instrumento.

Lembre-se também que ter Ouvido Absoluto não significa ter um ouvido musical. Para desenvolver um ouvido musical, que é essencial para um músico, é mais importante desenvolver o Ouvido Relativo e treinar Percepção Musical.

O que é Ouvido Relativo?

Ter Ouvido Relativo significa conseguir dizer quais são os intervalos entre as notas. Por exemplo, você escuta duas notas, Dó e Ré, e, apesar de não conseguir identificar quais notas são, você consegue perceber que há um intervalo de 1 tom entre elas. Ou, se tocarem Dó e Mi, você percebe que se trata de um intervalo de 2 tons.

A pessoa que não tem Ouvido Absoluto, mas tem Ouvido Relativo, consegue identificar as notas de uma música se tiver uma nota como referência. Imagine que alguém toque uma nota e diga para você que é um Dó. Em seguida, ela toca um Mi, mas sem te dizer qual é a. Como você tem Ouvido Relativo, você percebe que esta nota está dois tons acima da nota anterior, que era um Dó, e rapidamente conclui que a segunda nota tocada foi um Mi.

O Ouvido Relativo ajuda muito na hora de tirar uma música de ouvido, pois, depois de identificar qual é a primeira nota, você logo vai encontrando as notas seguintes.

O Ouvido Relativo é importante por ser a capacidade de perceber as relações entre as notas musicais - isto é, os intervalos. Música é feita de intervalos. São eles que geram os sentimentos que a música proporciona.
Um exemplo são os acordes. Qual a diferença entre acorde maior e menor? O acorde maior tem uma sonoridade aberta e alegre, enquanto o acorde menor tem uma sonoridade fechada e séria. Mas falando das notas, a única diferença é que o acorde maior tem uma terça maior (intervalo de dois tons em relação à tônica), enquanto o acorde menor tem uma terça menor (intervalo de um tom e meio em relação à tônica). Percebeu como pequenas diferenças nos intervalos mudam tudo?

O que é Percepção Musical?

Percepção Musical é perceber como os sons formam uma linguagem musical. A música é algo complexo, formado por elementos como melodia, ritmo e harmonia. Desenvolver sua Percepção Musical é se tornar cada vez mais capaz de distinguir esses elementos.

Todos nós temos algum nível de Percepção Musical e, quanto mais ouvimos e tocamos música, mais “musicais” nos tornamos. É possível ser um excelente músico, como é o caso de centenas de artistas famosos, apenas aprendendo o básico e depois se guiando pelo feeling e criatividade. Mas, aqueles que estudam e treinam a fundo a Percepção Musical acabam desenvolvendo habilidades bem mais avançadas, como: conseguir identificar escalas ao escutar melodias, saber identificar acordes numa música, identificar campos harmônicos, e identificar ritmos complexos.

Como treinar Ouvido Absoluto, Ouvido Relativo e Percepção Musical?

Existe uma forma muito simples de treinar seu ouvido e você pode começar hoje. Independentemente se você quer ter Ouvido Absoluto, Ouvido Relativo, ou apenas melhorar um pouco sua Percepção Musical, o caminho é o mesmo: Solfejo.

Percepção Musical é um ramo de estudo bem amplo e profundo, ensinado ao longo de anos por professores de música. Mas, mesmo sem fazer aulas de música, você também pode desenvolver seu ouvido e Percepção Musical. Para treinar tudo isto que falamos aqui neste artigo, basta começar a praticar Solfejo.

O que é um Solfejo? É difícil?

Talvez você não conheça ou não tenha muita prática com Solfejo, por isso vamos com calma, entendendo uma coisa de cada vez. Você verá que é fácil. 

Solfejo é a leitura da partitura através do canto. Você olha as notas na partitura e as canta ao mesmo tempo. É preciso também cantar as notas no ritmo certo, indicado na partitura. Mas é possível praticar Solfejo mesmo sem partitura. Se você toca piano, pode praticar com um piano. Se toca guitarra, pode treinar com uma guitarra. Em qualquer situação, você precisa ter um instrumento afinado para ter as notas certas como referência. É por isso, que muitos vocalistas praticam com um piano ou teclado.


Como Treinar Solfejo? (exemplo básico )

Vamos ver abaixo dois exercícios simples que você pode fazer sozinho. Ambos desenvolverão sua Percepção Musical.

Exercício para Ouvido Absoluto: quando for afinar seu violão ou guitarra (sempre usando um afinador), tente memorizar o som das 6 cordas, uma de cada vez. Primeiro, toque a nota, e depois, cante esta nota, tentando imitar o som com perfeição. Por exemplo, quando tocar a corda Lá, cante “Lááá”. Faça isso todo dia e, aos poucos, perceberá que conseguiu gravar em sua memória esses 6 sons. Comemore quando não precisar mais do afinador!
Exercício para Ouvido Relativo: Na quinta corda do seu violão ou guitarra, toque a escala de Dó Maior, composta pelas notas Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si. A cada nota que tocar, pare e cante esta nota: “Dóóó. Rééé. Miiii. etc”. Esse é só o aquecimento. Depois, inverta as notas, mas sempre começando pelo Dó, “Dóóó. Miii. Rééé. Fááá. etc”. Isso treinará sua capacidade de perceber os intervalos entre as notas. Sempre toque a nota primeiro, e depois, tente cantar igual. No final do exercício, você pode se desafiar a cantar as notas antes, e depois tocá-las para ver se está acertando.

Depois de se acostumar com esses dois exercícios, poderá criar variações, treinando em outras cordas, com diferentes intervalos, e aumentando o grau de dificuldade. Tenha persistência e pratique bastante.


Conclusão

Agora, lembre-se da história que contei sobre Beethoven no primeiro parágrafo deste artigo, e reflita sobre o seguinte: não é preciso ter Ouvido Absoluto para compor músicas. Beethoven tinha uma facilidade incrível de escrever as notas no papel, registrando-as para toda a eternidade. Mas a sua verdadeira genialidade estava em sua criatividade e imaginação para criar belas músicas.