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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

ANALISE MODAL – Parte I – Modos gerados pela Escala Diatônica Maior (eBook + áudios) 2ª edição

ANALISE MODAL – Parte I (eBook + áudios) 2ª edição
Modos gerados pela Escala Diatônica Maior 
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O método aborda conceitos referentes a forma correta de análise dos modos gerados pela escala diatônica maior, com abrangência melódica e harmônica. Contendo conceitos quando as suas estruturas, formas e aplicações, soluções para perdas de diatônicidade e intenções modais.
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ANALISE MODAL – Parte II – Modos gerados pela Escala menor Harmônica (eBook + áudios)
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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A origem das ESCALAS MUSICAIS - PARTE 1







A história

A partir da descoberta de artefatos musicais da antiguidade, supõe-se que a primeira escala desenvolvida tenha sido a escala de cinco sons ou pentônica, o que é confirmado pelo estudo de sociedades antigas encontradas contemporaneamente. Observando-se, no entanto, que a palavra "pentatônica" é, na verdade, substituída no vocabulário musical, pela palavra "pentafônica", uma vez que a primeira (pentatônica), remete à ideia de cinco notas tônicas em uma mesma escala ou tonalidade sonora musical, o que não é a verdade; e a segunda (pentafônica) refere-se, mais claramente, à escala ou tonalidade formada por cinco sons ou notas diferentes. No entanto, o termo "pentatônica" ainda é muito mais utilizado popularmente do que o termo "pentafônica".

As escalas de 7 notas foram prováveis desenvolvimentos da escala pentatônica e tem-se o registro de sua utilização pelos gregos (vou tratar especificamente delas na parte 2 desse post em outro artigo), apesar de que qualquer tentativa de resgate da sonoridade dessas escalas tratar-se-á de exercício puramente especulativo.

A música grega morre junto com o Império Romano, deixando apenas uma nota de rodapé do que seria todo o sistema musical utilizado à época. O fato é que, com o surgimento do cristianismo, houve uma adoção dos ritos judaicos, e essa é a origem do que seria a música ocidental posterior. Na Idade Média, a elaboração de um sistema de escalas (vem do italiano e significa escada) levava em conta, não somente a nota fundamental do modo (fundamentalis), como também a chamada corda de recitação, que era a nota ao redor da qual a melodia se desenvolvia, sendo essa nota a mais utilizada na música. Essas escalas foram chamadas de modos eclesiásticos e compunham-se de quatro: protus, deuterus, tritus e tetrardus.

Esse sistema, chamado modal, não é um sistema totalmente definido; como há variação da corda de recitação entre duas músicas, elas podem estar dentro de um mesmo modo, mas se desenvolvem em direções diferentes, sendo reclassificadas aí, a depender do âmbito em que elas se desenvolveram, como estando no modo plagal ou autêntico. Além disso, a música poderia muito bem gravitar entre os modos, o que dificultaria a classificação exata sobre o modo em que ela está (ou em que modo começou, ou em que modo terminou).

Posteriormente, dois modos receberam a preferência dos compositores (o modo chamado jônico, ou tritus plagal, e o chamado eólio, ou protus plagal), sendo estes as origens das escalas diatônicas maior e menor: iniciava-se o período tonal da música.

A partir do temperamento da música, ocorrido no século XVIII, onde procurava-se dar os mesmos valores proporcionais aos intervalos da escala diatônica, surge uma nova escala, em que todas as notas têm o mesmo valor dentro desta: A escala cromática.

Com o segundo período do romantismo musical (romantismo nacionalista), fez-se necessária a incorporação de escalas exóticas nas quais as músicas de muitos países se baseavam. Às escalas ciganas, já conhecidas séculos antes, juntam-se escalas mozárabes, russas, eslavas, etc...  

O compositor e pianista Claude Debussy incorpora a escala de tons inteiros, também conhecida como escala hexafônica (simétrica), onde se divide a oitava em seis intervalos iguais de um tom, à música. Posteriormente, novas escalas surgiram, com a chamada música micro-tonal, além de incorporações de escalas antigas, como a indiana, que divide a oitava em 22 sons, e a escala nordestina brasileira, mistura dos modos lídio e mixolídio. Sendo um modo nada mais que derivado do IV grau da escala menor melódica, precisamente mixolídio 4#.

Tipos mais comuns de Escalas
Escalas modernas, que na cultura ocidental são as mais utilizadas:
Escala cromática
Escala Maior
Escala menor
Escala pentatônica, sendo que a mesma teve inserções e variações, sendo as mais comuns:
Maior, menor, pentablues (adicionando a 4#), m6, (M)7, m7/5b, m7M,  M5#, dim°, etc...

No caso das Escalas menores, as mesmas se dividem basicamente em 3 grupos :
Escala Menor Natural ou Primitiva
Escala Menor Harmônica
Escala Menor Melódica

Modos Gregos
Escalas gregas ou modos gregos, também chamados modos litúrgicos ou modos eclesiásticos, como Dórico, Frígio e Lídio.
No tocante aos modos derivados, temos as seguintes sonoridades (21 no total):

Derivados da Escala diatônica maior:
I Jônio
II Dórico 
III Frígio
IV Lídio
V Mixolídio
VI Eólio
VII Lócrio

Derivados da Escala menor harmônica:
I Eólio 7M 
II Lócrio 6
IIIb Jônio 5# 
IV Dórico 4# 
V Mixo 9b13, 
VIb Lidio 9#  
VII Diminuta/ Alterada 6

Derivados da Escala menor melódica:
I Dórico 7M 
II Frígio 6 
IIIb Lídio 5# 
IV Mixolídio 4#
V Mixo 13b 
VI Lócrio 9  
VII Alterada

Escalas exóticas
Formas escalares que não sejam os modos maior, menor ou eclesiásticos são conhecidos como escalas exóticas, artificiais ou sintéticas. Algumas são derivadas da música folclórica, algumas vêm de outras culturas que não a Ocidental, e algumas são construídas por compositores para gerar relações intervalares especiais. Essas formas escalares podem ser construídas a partir de qualquer nota. Entre as escalas mais comuns nessas categorias estão as seguintes:

Cigana Espanhola (7b) T 2b 3M 4 5 6b 7b
Cigana Espanhola (7M) T 2b 3M 4 5 6b 7M
Pelog Javanês T 2b 3b 4 6b
Balinesa T 2b 3b 5 6b
Scriabin T 2b 3M 5 6
Hiro Josh (Japão) T 2 3b 5 6b
Iwato (Japão) T 2b 4 5b 7b
Kumoi Josh (Japão) T 2b 4 5 6b
Kokin Josh (Japão) T 2b 4 5 7b
havaiano T 2 3b 5 6
Prometheus T 2 3M 4 # 7b
P'Yangio (Coreia) T 2 4 5 6
Enigmática T 2b  3M 4 # 5 # 6 # 7M
Napolitana T 2b 3b 4 5 6b 7M
Napolitana (6M) T 2b 3b 4 5 6M 7M
Cigana Húngara T 2 3b 4 # 5 6b 7b
Oriental T 2b 3M 4 5b 6b 7b
Tom inteiros T 2 3M 4 # 5 # 7b
Tom inteiros (7M) T 2 3M 4 # 5 # 7b (7M)
Lídio menor T 2 3b 4 # 5 6b 7b
Árabe (major locrian) T 2 3M 4 5b 6b 7b
Escala Árabe  T 2b 3M 4 5 6b 7b
Persa T2b 3M 4 5b 6b 7M
Bizantina  liturgicaT 2b 3M 4 5 6b 7M
Húngara T 2 # 3M 4 # 5 6 7b
Húngara menor 1 2 3b # 4 5 b6 7
Romena T 2 3b 4 # 5 6 7b
Hindustão T 2 3M 4 5 6b 7b
Simétrica T 2b 3b 3M 4 # 5 6 7b
Persa T 2b 3M 4 5b 6b 7b
Tunisiana T 2 3b 4# 5 6 7b
Síria (pentatônica)  T 2b 3M 4 5#
Hindu T 2 3M 4 5# 7b
Etíope  T 2 3M 4 5 5# 7M
Enigmática T 2b 3M 4# 5# 6# 7M
Escala Egípcia T 2 4 5 7b
Chinesa antiga (ancient chinese) T 2 3M 4# 5 6
Chinesa T 3M 4# 5 7M
Argelina T 2 3b 4 4# 5 6b 7M


Escalas Simétricas
São aquelas que possuem exatamente a mesma seqüência de intervalos quando tocadas de forma ascendente e descendente. Em outras palavras, utilizamos a mesma lógica (estrutura intervalar) para executar a escala nos dois sentidos: de baixo para cima e de cima para baixo. Entre as mais comuns temos

Cromática (semitons) T 1#/2b 2 2#/3b 3M 4 4#/5b 5 5#/6b 6 7b 7M
Tons Inteiros (tons) T 2 3M 4# 5# 7b
Diminuta (tom, semitom) T 2 3b 4 5b 6b 7bb 7M
Dominante Diminuta (semitom, tom) T 2b 2# 3M 4# 5 6 7b
Arpejo Diminuto (um tom e meio) T 3b 5b 7bb
Aumentada (um tom e meio, semitom) T 2# 3M 5 6b 7M


Modos de Transposição Limitada 

Os modos de transposição limitada são modos de música que possuem certa simetria e propriedades de repetição em um número limitado de transposições . Esses modos são em número de 7 e retornam à sua forma inicial após 2, 3, 4 ou 6 transposições.

Eles foram codificados pela primeira vez pelo compositor Olivier Messiaen em seu livro "Technique de mon langue musical". Ele os estudou ao mesmo tempo em seus aspectos harmônicos e melódicos:

M1 - T  2  3M   4#  5# 7b  (intervalos de tom, escala hexafônica - tons inteiros)

O primeiro modo de Messiaen, também chamado de escala por tons , consiste em seis segundos principais. É definido pelos intervalos: tom, tom, tom, tom, tom, tom . Possui duas transposições e um modo. Este modo não é uma invenção de Messiaen, mas já existia na literatura musical: Mikhaïl Glinka ( Rouslan e Ludmila ), Franz Liszt, Rimsky-Korsakov ( Le coq d'or ), e especialmente Vladimir Rebikov , Claude Debussy e Béla Bartók (que considerado um modo intermediário entre o diatonismo e o cromatismo) usou-o extensivamente antes de Messiaen.


M2 - T 2b 2# 3M 4# 5 6 7b (escala Dominante Diminuta)

O segundo modo ou escala octotônica é dividido em quatro grupos de três notas cada. Ele tem três transposições, como o acorde diminuto com sétima para que você possa encadear quatro sétimas menores ou nonas dominantes a uma distância das terças menores. É também denominado "modo meio-diminuto", "tom semitom" ou "modo Bertha".


M3 - T 2 3b 3M 4# 5 6b 7b 7M  

O terceiro modo (escala não atônica) é dividido em três grupos de quatro notas cada. Possui quatro transposições, como o acorde de quinta aumentada . Você pode encadear três sétimas ou nonas maiores com uma distância das terças maiores. Note-se que a escala de tons ( 1 r modo) está incluído lá.


O quarto , quinto , sexto e sétimo modos têm seis transposições cada, como a "salamandra".

M4 – T 2b 2 4 4# 5 6b 7M

M5 – T 2b 4 4# 5 7M

M6 – T 2 3M 4 4# 5# 6# 7M

M7 – T 2b 2 3b 4 4# 5 6b 6 7M


Na música , "salamandra" é outro nome para o alcance da aumentada (não deve ser confundido com o diminuído direto ). O termo "trítono" vem do fato de que este intervalo tem exatamente três tons (enquanto a quinta diminuta tem dois tons e dois semitons diatônicos ). A salamandra tem a particularidade de ser um intervalo com movimento forçado (esse intervalo precisa ser resolvido pela tensão que gera),

Intervalos de modo

Enquanto a escala maior tem como padrão "TT 1 / 2T TTT 1 / 2T", isto é, em número de semitons "2 2 1 2 2 2 1" (a soma dos quais cobre os 12 semitons da oitava), os modos com transposição limitada são baseadas em:

Moda

Número de semitons

"primeiro modo"

2 2 2 2 2 2

"segundo modo"

1 2 1 2 1 2 1 2

"terceiro modo"

2 1 1 2 1 1 2 1 1

"quarto modo"

1 1 3 1 1 1 3 1

"quinto modo"

1 4 1 1 4 1

"sexto modo"

2 2 1 1 2 2 1 1

"sétimo modo"

1 1 1 2 1 1 1 1 2 1



Nas nomeações dos intervalos citados ao decorrer do artigo, levar em consideração a enarmonia (mesmo som ou intervalo com mais de um nome), e os intervalos de forma simples e composta. 



terça-feira, 21 de novembro de 2017

TRITONO: A história não contada - PARTE I



Já indo direto ao assunto, seria o "Trítono" o intervalo musical do Diabo?

Uma dos maiores mitos no ensino da música está relacionado ao intervalo de quarta aumentada (ou quinta diminuta), um intervalo de três tons chamado "trítono" (o intervalo correspondente entre dó e fá sustenido, por exemplo). Este intervalo tem uma proporção de 45:32 e, justamente por isso, é percebido pelo ouvido como uma dissonância. Além disso, foi chamado de "diabolus in musica". E aí é que começa a desinformação.

O diabo é aquele que divide (dia-bolus; o oposto seria sim-bolus, união). Como o trítono é o intervalo que divide a oitava em duas partes idênticas, e ainda é uma dissonância, acabou ganhando essa denominação imagética, uma representação puramente simbólica e filosófica.

Pois o discurso infundado e desinformante que vigora por aí carrega vários equívocos, preconceitos, imprecisões e até mesmo mentiras, as quais serão desvendadas agora. Resta saber se tal desinformação foi plantada conscientemente ou foi apenas uma anedota que ganhou ares de verdade.

A primeira é que "o intervalo de quarta aumentada recebeu o nome de 'diabolus in musica' na Idade Média.

Há sérias divergências entre os autores sobre quando esse nome surgiu. As referências à expressão "diabolus in musica" datam do início do século 18, com Fux, Telemann, entre outros compositores e teóricos. Denis Arnold, no New Oxford Companion to Musics, sugere que o apelido foi aplicado por Guido D'Arezzo, no período medieval. O Dicionário Grove de Música afirma que foi no Renascimento e Grout e Palisca, no História da Música Ocidental, sequer associam o monge beneditino à famosa expressão "mi contra fa est diabolus in musica". De fato, não encontramos referência a essa frase no próprio tratado musical de Guido D'Arezzo, o "Micrologus". O "A Performer's Guide To Renaissance Music", de Kite-Powell, afirma que a frase é uma citação latina e não lhe atribui autoria. Portanto, não é impossível que esse apelido tenha realmente sido cunhado por teóricos medievais, mas está longe de ser uma certeza.

Outra mentira é que o trítono foi proibido pela Igreja durante a Idade Média. O fato é que não há nenhum registro que prove que executar o intervalo de trítono era proibido.
Nas 165 páginas da ata do Concílio de Trento (1545-1563), no qual encontramos reflexões sobre toda a prática religiosa até antão, há apenas um parágrafo bastante genérico que orienta, de maneira subjetiva, a evitar-se as práticas musicais que possam atrapalhar o culto, referindo-se mais em relação à polifonia com dezenas de vozes, que impedia a boa compreensão do texto, do que com questões técnicas e teóricas. Aí também não há absolutamente nada contra o trítono.

"Bandiscano, poi, dalle chiese quelle musiche in cui, con l’organo o col canto, si esegue qualche cosa di meno casto e di impuro; e similmente tutti i modi secolari di comportarsi, i colloqui vani e, quindi, profani, il camminare, il fare strepito, lo schiamazzare, affinché la casa di Dio sembri, e possa chiamarsi davvero, casa di preghiera."

A verdade é que esse intervalo não era executado de maneira regular, pois não havia o costume, o hábito, o uso que foi adquirido com o advento do acorde e, mais tarde, do sistema tonal. A Idade Média musical é caracterizada pela monofonia (apenas uma linha melódica), tal como toda a tradição do cantochão, e por ser o primórdio da polifonia, uma música bastante simples harmonicamente, como os organuns, as salmodias e os discantus.

Ainda assim, existem inúmeros exemplos de trítonos melódicos mesmo em cantos gregorianos (música sacra ritualística!). A grande compositora Hildegard von Bingen (1098-1179), que além de compositora era monja beneditina, mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica, poetisa, dramaturga e escritora e correspondia-se regularmente com reis e papas (malditos medievais machistas!) e os mestres da ars antiqua Leonin e Perotin também escreveram trítonos. Na música de Perotin, muitas vezes o trítono era usado e considerado uma consonância imperfeita, espécie de quinta anômala.
É evidente que o uso do trítono era comedido e as dissonâncias eram tratadas com extrema parcimônia até mesmo na polifonia mais complexa da ars nova, até porque a harmonia vai se tornando mais complexa gradualmente e, com o advento do tonalismo, o trítono então é definitivamente incorporado ao sistema, dentro de sua estrutura acórdica mais essencial: o acorde maior com sétima menor, posteriormente chamado de "dominante".

A pior mentira de todas é a que afirma que "milhares de compositores foram jogados nas fogueiras da Inquisição por tocarem o intervalo de trítono". É inacreditável que muitos professores afirmem isso sem sequer corarem (eu mesmo já o fiz, pois havia aprendido assim).

Mais uma vez, não há nenhum registro histórico de compositor que fora condenado à morte pela Inquisição por tocar um trítono, nem nos livros de História da Música nem nos estudos históricos sobre a Inquisição na Idade Média, como no ótimo "A Inquisição", de Michael Baigent. Os compositores da tradição gregoriana, Hildengard, Perotin, Leonan, nenhum compositor ou instrumentista morreu na fogueira. Isso é vergonhosamente falso, é uma afirmação tão boboca e fantasiosa que chega a ser ridícula. Se durante séculos o trítono foi usado com parcimônia (mas foi usado!), não foi por causa de uma proibição autoritária da Igreja Católica, muito menos sob a cruel punição do coitado do compositor ser lançado à fogueira, mas simplesmente porque não era um elemento estético e técnico efetivamente incorporado ao sistema da época.

Por fim, há um grande equívoco em considerar o trítono um ataque à tradição. O trítono é a própria tradição! Ele é a base da tensão da dominante com sétima, a força motriz do movimento harmônico da tonalidade. 

"O trítono é a pimenta (tempero) de Deus para a música."

Se algum músico medieval lançasse mão apenas de trítonos, ele não seria condenado à fogueira, apenas cairia em descrédito, não seria ouvido, passaria fome e ficaria com a pecha de mau músico. Já na modernidade, vemos alguns compositores usando o trítono indiscriminadamente, alegando que com isso estão "revolucionando" a música, o que faz com que sua música seja ardida e não saborosa, e ninguém a escute, mas ainda assim, estes compositores são tratados como gênios inquestionáveis.
Eu mesmo já ouvi de professores essa história de que se o sujeito tocasse um trítono ele iria para a fogueira, mas compreendi na hora o seu caráter anedótico e não levei a sério. Acontece que, pesquisando na internet, pude constatar a quantidade de publicações que afirmam isso como fato histórico certo e verdadeiro (sem nunca citarem fontes, claro). Os links abaixo exemplificam esse verdadeiro desastre pedagógico do ensino musical brasileiro:
etc, etc, etc...

Já na Wikipedia em inglês (e em outros sites estrangeiros) a história está bem explicada:
http://en.wikipedia.org/wiki/Tritone

Um artigo em perfeita consonância com a tese de que o trítono não era proibido na Idade Média coisa nenhuma é este, de Margo Schulter, no qual ele desvenda o uso do trítono da Idade Média à Renascença, sem dúvida o melhor artigo sobre o assunto: http://www.medieval.org/emfaq/harmony/tritone.html

Ou seja, esse disparate se tornou verdade apenas nas publicações diletantes do Brasil (e em algumas aulas superiores de harmonia ministradas por professores anti-cristãos), por conta de um certo preconceito disseminado contra a Idade Média. O curioso é que esse mito do trítono é usado tanto por militantes pregam contra o rock'n roll, por exemplo. Por isso a desmistificação dessa história é tão urgente. Pelo bem do ensino musical brasileiro, pelo bem da Verdade e pelo bem dos jovens estudantes de música.

Seguindo essa linha de pensamento, você já ouviu essa história: o músico Robert Johnson vendeu sua alma para o demônio. Em troca, ganhou talento e sucesso. A negociação ocorreu em uma encruzilhada no interior do Mississipi – até hoje, garantem crentes e céticos, cruzamentos são um ótimo lugar para fazer comércio com o coisa ruim.
Bem, se o pai do blues fez mesmo a transação arriscada, não adiantou muita coisa. Ele foi um artista itinerante, que andava de cidade em cidade tocando em esquinas, espeluncas e clubes decadentes nos sábados à noite. Pouco foi valorizado como artista em vida, e morreu em 1938, aos 27 anos – segundo a versão mais aceita, após um gole de uísque envenenado por um dono de boteco, que morria de ciúmes de sua esposa e achava que ela tinha um caso com o músico.

O mito de Johnson nasceu, na verdade, em outra encruzilhada, da cultura americana com a cultura alemã: é o mito de Fausto. Na mesma época em que o músico negro – pobre e filho ilegítimo – fundava um dos gêneros mais importantes da música popular dos EUA, o autor alemão Thomas Mann começava a idealizar sua obra-prima: o romance Doutor Fausto, história de um compositor que (adivinha só!) vende a alma para o tinhoso em troca da máxima realização artística.

Ambos são versões, uma erudita e uma popular, da história de um alquimista que viveu na Alemanha no século 15. Dá para passar mais um tempão falando de todas as encarnações do mito fáustico – como o 100% brasileiro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa – mas não será tão legal quanto explicar o demônio na música do ponto de vista matemático: será que há mesmo algo de demoníaco no blues (ou em qualquer outro tipo de música)?
Um lenda urbana popular entre músicos diz que há, e dá uma explicação 100% matemática para isso. Corre por aí a história de que um determinado intervalo musical, chamado trítono, é o próprio som do inferno, tão dissonante que não podia (por um decreto assinado pelo Papa em pessoa!) aparecer nas partituras de música sacra durante a Idade Média.
Um intervalo musical é, em bom português, uma combinação de duas notas diferentes. Você pode testar vários deles mesmo se não souber tocar nenhum instrumento: vá a um piano de estação de metrô, escolha duas teclas aleatórias (não muito distantes entre si) e toque ambas ao mesmo tempo. Algumas dessas combinações vão soar super bem. Outras, nem tanto.  

O trítono é o intervalo que você ouve na abertura da música Black Sabbath – que está no álbum Black Sabbath, da banda Black Sabbath. Quem achar o metal em questão heavy demais também pode ouvir o trítono no comecinho de Purple Haze, de Jimi Hendrix. Ou na abertura dos Simpsons (ouça as notas mais graves do piano no segundo 0:16). O bichinho aparece até em Garota de Ipanema – mas aí ele dá as caras em uma substituição de acordes que não é tão óbvia, então vamos passar batido.
São todas músicas muito diferentes entre si – e com exceção da do Black Sabbath, nenhuma soa particularmente demoníaca. Isso acontece porque, na música, não existem intervalos do céu e do inferno, só intervalos mais consonantes e intervalos mais dissonantes. Os primeiros são simpáticos e bonitinhos. Os segundos são tensos, criam desequilíbrio. Um usa camisa polo e tênis Lacoste, o outro é repleto de tatuagens. E ambos são úteis em qualquer música.

O trítono, no caso, é um líder punk anarquista. E isso é mesmo culpa da matemática. Acontece o seguinte: você sabe se um intervalo é rebelde ou não olhando as frequências das duas notas que o compõe. Dá para fazer um trítono, por exemplo, com um dó (C) e um fá sustenido (F#). O dó tem 261,6 Hz. O fá sustenido, 369,9 Hz.


Agora é só dividir o maior pelo menor e você chegará a aproximadamente…



Que, você aprendeu na escola, são os primeiro dígitos de um número infinito chamado…


Ou seja: a relação entre as duas frequências é um número tão quebrado que sequer tem fim – um irracional, semelhante ao Pi (π). 
Agora faça a mesma coisa com um intervalo que é consonante, como dó (C) e sol (G), que tem 391.9 Hz. A divisão vai dar um inocente 1,5 (3/2). Um número comportado, com finitude. Uma fração bom moço (por dissonante que soe a discordância de gênero aqui).


Isso é uma regra: quanto mais louco o resultado da divisão, mais o intervalo machuca os nossos ouvidos. Agora vamos fazer um exercício mais maluco ainda: transferir as proporções acima para uma referência visual. No caso, dimensões de folhas de papel.

A folha do trítono parece familiar? Não é coincidência. Acontece que a relação entre as frequências que formam esse tipo de som é exatamente a mesma que rola entre os lados de uma folha de papel A4.
O que deixa no ar uma pergunta: porque esse intervalo, que na forma sonora é tão incômodo, assumiu o formato de uma folha de papel e tomou conta do mundo? A explicação é simples: ele pode ser dividido no meio, e o resultado serão duas folhas menores, mas de proporções idênticas à original. A ilustração abaixo explica bem:


O trítono é o único intervalo capaz de dividir uma oitava (a famosa sequência ‘dó, ré, mi etc.”) em duas partes exatamente iguais do ponto de vista matemático.



E ele também pode ser dividido ao meio mais uma vez: dois trítonos sobrepostos formam um acorde chamado diminuto. Por incrível que pareça, essa dupla não tem o som do apocalipse: dá para perceber direitinho quando um fá sustenido diminuto aparece em What a Wonderful World. Preste atenção em 1:31, momento exato em que ele aparece. Ele nada mais é que uma transição, que empurra a canção para outro acorde, mais estável.


O blues tem uma característica curiosa: todos os seus acordes têm sétimas menores, o que significa, na língua dos leigos, que todos eles carregam um trítono. É isso que dá ao estilo parte de sua angústia característica – nada mais adequado para expressar a dor dos escravos americanos no século 19. Não havia nada de demônio em Robert Johnson, portanto: ele só transformou em música a história de gerações de trabalho forçado.
Outros estilos de música popular, é claro, também têm acordes com um trítono. A diferença é que eles não aparecem o tempo todo.
Quanto à igreja como já comentei, bem, não há registro histórico de que ela realmente tenha proibido essa combinação. De fato, o músico Adam Neely tirou do fundo do baú uma canção de mosteiro do auge do feudalismo em que o dito cujo dá as caras sem medo de ser feliz.
Segundo ele, um dos primeiros registros do termo latino diabolus in musicaaparece só no século 18, pelas mãos do teórico Johann Fux. Ele não se referia ao trítono – na verdade, desaconselhava arranjadores a colocarem duas vozes cantando notas muito próximas entre si (no caso, mi e fá). A razão não era religiosa, apenas prática: além da combinação ser desagradável aos ouvidos em certas situações musicais, também é muito difícil acertar o tom de sua própria nota quando outros membros de um coral estão cantando notas muito próximas.

De fato, o trítono (assim como a segunda menor formada por mi e fá) é um intervalo incômodo de cantar e tem potencial para desafinar, então é mesmo bem provável que ele não tenha sido recomendado por especialistas ao longo da história da música – tudo se resume a um problema técnico, sem participação do tinhoso. Pode tocar Tritono à vontade: você não vai para o inferno (rs)



Colossenses 1:16 "pois nEle foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele."

Romanos 1:36 "Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém."

Tiago 1:17 "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação."



Ps: Continuarei o assunto, relacionando o tal a Escala Pentatônica.



#Tritono

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Senso Musical


Senso musical, o que será que quero dizer com isso? Pois bem me refiro ao fato de você ao estar tocando, estar improvisando ou até mesmo compondo algo e ter o exato domínio sobre as coisas, ou fechar os os olhos para tudo e apenas deixar fluir.
Chega até ser uma situação curiosa, pois estudamos anos de nossas vidas para absorvermos o máximo de conteúdos e recursos para tudo e chega um momento que parece que a solução é exatamente o contrário!

Já compus música de todo jeito e foi bem legal. Em inúmeras situações, por que a concepção artística de estar criando músicas é tão legal e ampla, que te domina e te tira desse sentido óbvio e

meio a tudo isso você tem seu conhecimento, a sua consciência, algo que te prende na "verdade!". Costumo dizer que uso o conhecimento para limitar minha loucura musical!(rs)
Ou será que eu deveria estar fazendo o contrário?

Eu acredito que tudo é válido na intenção de criar uma boa música, para isso nunca pode haver limitações! O senso é você estar atento à tua o que está rolando o não senso é estar em um plano acima disso e de fato isso não é nada fácil!

Devemos exercitar nossa intuição musical, e ao trabalhar a improvisação, também estudar sem depender muito das escalas, improvisar pensando nas notas, sem usar as escalas, apenas tocar, deixar fluir! Independente do que isso seja!

No começo isso pode até uma sensação divertida e que vai ser fácil, pois se eu consigo improvisar com as escalas, sem elas será muito mais fácil e eu poderei criar inúmeras situações legal. Mera  Inocência de nossa parte!

Faça o teste, muita gente vai improvisar dessa forma e não consegue sair da primeira nota. E é aí que entendemos que conhecimento não é tudo, e se você não souber como conduzi-lo ele pode te limitar muito! Você não pode deixar o conhecimento te dominar, você que tem que ter o domínio sobre as coisas, você conduz!

Muitas vezes perdemos ideias incríveis, por apenas estarmos presos na 'censura do conhecimento!' Entendem o ponto que eu quero ressaltar? Há inúmeros guitarristas (compositores em geral) que criaram coisas incríveis, sem ao menos saber o que estava sendo feito! Não que devemos abandonar tudo, esquecer nossos estudos e dar um rumo no mundo! O estudo é vital! Porém você deve ter o domínio sobre o que está sendo feito. Afinal o compositor é você!

Por isso que essa questão de composição cai em um conceito muito volátil! Tudo depende da intenção do compositor, por isso que acho que regras e fórmulas são coisas muito pequenas diante da grandeza artística da composição.

Gênios.... O que falar sobre eles e quem são eles? Por que consideramos alguém genial... Hendrix, Steve Vai, ou até por que não Kurt Cobain!!! O que seria ser genial??

Por inúmeros fatos eu curto muitos e muitos compositores, desde os mais 'certinhos' até aqueles mais doidos, um exemplo disso o Buckethead, incrível como ele consegue gerar som de tudo! "Não existe laranja podre pra ele!". Como é incrível seu processo de composição e como ele nega e contradiz muita coisa, e isso soa de forma muito boa, as vezes o cara chega exatamente naquele ponto onde só há contradições rítmicas e faz um baita som.... sempre muito bom de se escutar.

Alguns caras eu consigo entender e explicar, no momento chamo de genial aquele cara, o qual eu não consigo entender a lógica de raciocínio e não consigo explicar o por que daquilo!

Sempre fui muito racional ao estudar música, sempre fui daqueles caras, que gosta de visualizar as coisas, logo estudei bastante teoria, não me gabando, mas são poucos os conceitos que hoje em dia me pegam desprevenido sem que eu consiga explicar ou deduzir o que ali está rolando e isso é muito legal e eu de fato gosto desse tipo de coisa, pode ser que daqui há dez anos eu venha a entender a incógnita de hoje, é sempre bom estar se aplicando, estar na inquietação, procurando coisas novas, ampliando seus conhecimentos!

A música é muito ampla, e somos uma mínima parcela (quase não considerável) de tudo isso!

Por fim a música está acima de qualquer conceito, técnica ou habilidade, até mesmo as questões de vaidade que nos faz pensar sempre em algo mais rebuscado, em diversas situações é aquele acorde simples que vai resumir suas ideias.

Acredito que o importante é pensar mais na música e não nas possíveis fórmulas, no fim criamos uma dependência muito grande desses recursos, que são sim importantes mas que, não podem nos dominar, quem faz a música é o músico e não a teoria, essa é um auxílio para isso tudo!

É engraçado o fato de estarmos estudando por anos à fio e depois passar um outro grande tempo estudando para saber o que devemos priorizar em nossas composições, é uma situação engraçada, difícil até de se explicar, mas é muito importante refletirmos um pouco sobre.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Dicas para começar a Compor


Pergunte a compositores de onde suas ideias vêm e eles e veja como eles tateiam para achar as palavras certas ou imagens para explicar o inexplicável: canções aparecem do nada, como um raio num dia de sol. Elas estão no ar, passam pela gente várias vezes por dia e estão disponíveis para quem as estiver ouvindo. Elas nascem de erros interessantes e de acidentes de sorte e, é claro, de dores pessoais e experiências ruins. Elas são como peixes no fundo de águas escuras, que às vezes mordem a isca e outras não. A inspiração é uma coisa misteriosa e muitas vezes compositores nem querem adentrar nesse mistério —eles temem que, se entenderem o que acontece, não vão mais conseguir fazer isso.
A inspiração pode ser impossível de definir, controlar ou prever, mas isso não quer dizer que a gente tem de ficar de papo para o ar esperando ela. Há muitos jeitos de ficar mais receptivo à inspiração e reconhecê-la mais rápido quando ela chegar. Muitos compositores compartilharam seus truques para vencer o bloqueio criativo e escrever boas músicas. Aqui vão cinco ideias interessantes:
É uma coisa muito inconsciente. É como se um trechinho de canção aparecesse em você o tempo todo. É como se fosse um poço, onde você mergulha seu balde. Quando você é compositor, como eu, você tem de trabalhar firme no seu ofício—se você ouvir algo, quer descobrir como fazer algo parecido. Mas as músicas em si, eu não sei bem de onde elas vêm e como me ocorreram. Elas são presentes, e seu trabalho é recebê-los e passá-los para a frente.
—Greg Brown

1. Balbucie.

Se você já escreveu uma melodia antes da letra, é bem capaz que tenha cantado usando frases sem sentido, ou só sons que se encaixem no ritmo. Geralmente você precisa se livrar desses “tapa-buracos” e fazer uma letra “de verdade” (a gente é muito grato por Paul McCartney ter bolado a letra de “Yesterday”, que compôs inicialmente usando “scrambled eggs”, ou ovos mexidos, como letra), mas preste bastante atenção nas suas criações espontâneas. Às vezes elas podem te indicar uma direção interessante a seguir ou, além disso, essas palavras têm um som bom e que combinam com a música —foi por causa disso que você as cantou quando estava compondo. Ligue o gravador e deixe as palavras fluirem, sem filtro ou edição. Você pode rever esse material depois, procurando algo de bom para usar, ou só jogar tudo fora.
O processo para mim é geralmente me sentar, começar a tocar, colocar minha voz dentro da melodia e deixar o gravador funcionando durante todo esse tempo, porque eu geralmente entro num transe quando estou no que chamo de terra da melodia Eu não sei exatamente o que estou fazendo. Canto letras sem sentido e as palavras começam a se formar. Depois, quando estou terminando a canção, eu posso voltar a ouvir essa gravação de trabalho e, em 90% das vezes, os sons de vogais já começam a mostrar quais serão as letras que estarão ali dali a um mês ou dois. Eu realmente acredito nesse caldo de inconsciente, em que tudo é formado, e que tem mais inteligência do que meu cérebro de ervilha pode conceber.
—Beth Nielsen Chapman
Eu muitas vezes me sinto mais realizado quando começo a compôr e não sei exatamente o que estou fazendo. Eu só tenho uma melodia em que acredito o suficiente para murmurar tocando no meu som e vou ouvindo até que começam a aparecer as letras para a melodia que eu quero musicar. No caminho você começa a ter ideias. A coisa se resuma a transformar lixo em coisas bonitas. Criar beleza a partir do nada. Uma coisa bem Zen.
—Chris Whitley

2. Erre.

Muitos compositores que tocam violão ficaram viciados em usar afinações esquisitas, porque um novo tom vai distanciá-los daquilo que eles sabem tocar e criar um ambiente para acidentes estranhos e interessantes. Esse é só um exemplo de como erros podem gerar ótimas ideias e por que é bom cultivá-los.
Se você só trabalhar com aquilo que conhece, você não crescerá. É só através do erro que a descoberta é feita e, para descobrir, você tem de criar algum tipo de situação em que um elemento aleatório, uma atração estranha, para usar um termo da física. Quanto mais eu puder me surpreender, mais eu continuarei fazendo música e brincar com as notas é um jeito de continuar com essa peregrinação. Você está sempre puxando o tapete debaixo de si mesmo e assim não periga ficar preso a uma fórmula.
—Joni Mitchell
Eu uso teclado, que não sei tocar até hoje, como um jeito de tirar a minha familiaridade com o meio musical. Todos nós estamos tentando fazer isso de um jeito ou de outro, se libertar dos padrões que seus dedos se acostumaram a sentir. É assim que você cria algo que pode ter uma qualidade única. Coisas boas acontecem, se você se jogar no precipício uma vez ou outra.
—John Sebastian

3. Colecione nomes

Muitos compositores mantêm um arquivo com possíveis nomes de músicas. O Woody Guthrie era um colecionador ávido. Seu manuscrito “How to Make Up a Ballad-song” (“como fazer uma balada”, que está no arquivo Woody Guthrie Archives) descreve como ele gastava horas pensando nos nomes das canções e tinha milhares deles “guardados como selos”. John Fogerty manteve um caderno de nomes durante toda sua carreira e me contou sobre ele.
Eu tenho um caderninho de plástico e que eu carrego comigo para cima e para baixo. A primeira coisa que escrevi nele foi “Proud Mary.” Eu não tinha ideia do que isso significava, mas, depois dessa vez, sempre que tinha uma ideia, anotava no caderninho. O que descobri foi que, se eu tivesse um nome que soasse bom, eu podia tentar escrever uma música que se encaixasse nele. Foi assim que “Bad Moon Rising” aconteceu. Eu tinha escrito isso no caderninho e, algum tempo depois, brincando com acordes e uma historinha, eu vi essa frase e pensei. “Yeah—é sobre isso que é essa música” e ela foi nessa direção.
—John Fogerty
Um bom nome pode te dar uma vantagem na escrita—pode sugerir uma emoção, uma atitude, um suíngue, um personagem e muito mais. Uma ideia de título pode pintar na sua cabeça ou você pode ver ou ovir ela em algum lugar. Minhas próprias músicas “Stop, Drop, and Roll,” (pare, deite e role) e “The Day After Yesterday,” (o dia depois de ontem) “My Life Doesn’t Rhyme,” (minha vida não rima) e “Enough About You (What About Me)” (chega de você [e quanto a mim?]) todas começaram com essas frases pintando em conversas. Com um nome, seu trabalho de composição vai se tratar mais de jogar luz sobre uma ideia do que sobre criar algo do zero.
Eu gosto quando tenho um título. Daí eu já sei, isso é o que é. Falando no geral, essas músicas tendem a ser mais comerciais, na falta de uma palavra melhor para definir. Você sabe, o Vince Gill e eu escrevemos “It’s Hard to Kiss the Lips at Night That Chew Your Ass Out All Day Long” (é difícil beijar à noite os lábios que mastigam sua bunda de dia). Bom, isso era um título velho de canção, uma piada. Eu sou grato aos títulos que me ocorrem porque essas músicas são mais fáceis de escrever.
—Rodney Crowell

4. Faça arranjos e rearranje.

Se o silêncio está ensurdecedor e você estiver de saco cheio de olhar para uma folha em branco, tente trabalhar com materiais que já existam. Escreve letras para sua melodia predileta ou tente encaixar algumas letras ou poesia que já tenha num ritmo. Ou simplesmente pegue sua canção predileta e a mude um pouco; foi assim que Alynda Lee Segarra, da Hurray for the Riff Raff, começou, assim como muitos outros músicos.
Quando eu estava viajando e conheci o [violinista] Yosi Perlstein, que hoje toca comigo, a gente tocava juntos velhas canções folk, tipo “Worried Man Blues” e mudaríamos as letras um pouquinho porque achávamos que as músicas não deviam ser só sobre homens—podiam ser sobre mulheres também. Ele gostava de trocar uma palavra ou outra, só para tornar mais universal. Essa realidade então me ocorreu. Eu só compunha música há pouco tempo, devia ter uns dezoito anos, e adorei a ideia de pegar música folk e mudá-la para continuar o diálogo, renovar e tornar o som algo para a minha geração.
Às vezes eu faço isso [retrabalho uma canção antiga] só porque estou com a criatividade bloqueada e preciso começar de algum lugar.
—Alynda Lee Segarra
Se você espera usar sua adaptação comercialmente e não quer se envolver com questões de licenciamento, atenha-se às músicas de domínimo público. Mas, mesmo assim, reescrever um hit pop pode ser um exercício ótimo, e vale para aprender. O processo de adaptação te obriga a sair de sua zona de conforto e resolver problemas criativamente. Eis como Duncan Sheik descreve como usou poesia nas músicas do seu disco Phantom Moon.
Eu geralmente escrevo a música primeiro e as letras depois, quando elas vêm até mim. Então foi um ajuste mudar isso, mas quando eu me acostumei, passou a ser muito natural. Na verdade, eu gostei muito, porque a letra vira um quebra-cabeças bem interessante, como pegar a estrutura de um texto e trabalhá-lo como estrutura musical, fazendo uma canção inteira. A cada vez que eu fazia isso, era uma aventurazinha.
—Duncan Sheik
Se você tiver problemas para deixar de usar uma versão do material que está usando como fonte (vamos dizer, tentar escrever novas letras para “Man of Constant Sorrow”, mas não consegui tirar a voz do cantor Ralph Stanley da cabeça), tente acelerar o ritmo, ou diminuí-lo, levá-lo para outro acorde ou ainda usar um instrumento diferente —qualquer coisa que vá fazer o que é familiar ficar estranho e novo.

5. Use um template.

Outro jeito de começar a escrever música do zero é pegar a estrutura de uma música que já exista e a preencha com sua letra e sua canção. Em termo de letra, por exemplo, a música que já existe pode te ajudar a saber quantas linhas uma música deve ter, o número de sílabas em cada uma dessas linhas e onde as rimas devem estar.
Teve uma vez que, bem tarde da noite, eu estava sentado numa van em algum lugar da Espanha. .Eu de repente tive uma ideia ótima de letra e fiquei pensando, ai caramba, o que eu faço agora, peço para pararem o carro? E era uma letra muito boa, algo que eu queria escrever há muito tempo. Então peguei meu bloquinho e caneta e, no escuro, comecei a escrever a música usando um template de outra música que já existia. Peguei “Desolation Row”, do Bob Dylan, e escrevi minha música em cima das notas de “Desolation Row.” E, quando voltei para a Inglaterra, peguei meu violão e escrevi uma melodia nova, que não parecia em nada com “Desolation Row” mas tinha minha pegada.
—Billy Bragg
Você pode achar vários templates para usar nas suas criações em músicas que já existem. O David Wax (da David Wax Museum) escreveu muitas músicas trabalhando com as estruturas e as cadências de canções folclóricas mexicanas.
O que eu fiz muitas vezes é pegar uma canção tradicional e tentar decifrar o refrão, como a estrutura se repete. Quanto às letras, também é muito interessante ter uma estrutura. Qualquer estrutura nova pode ser uma ferramenta valiosa. Isso pode te inspirar a escrever de um jeito que você não teria feito.
—David Wax
Bom trabalho...