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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O VERNIZ de seu instrumento



Desde o momento em que os instrumentos começaram a ser fabricados em madeira, foi necessário a utilização de algo para protegê-los. Seja para proteger o instrumento do músico (o suor pode causar muito desgaste, basta ver como ficam as ferragens douradas) ou da ação da natureza, a madeira tem que ser muito bem cuidada para que o instrumento dure. Isso ocorre pois as madeiras usadas pra a construção de instrumentos musicais são bem frágeis.Algumas madeiras, como o alder, o basswood, o marupá, são facilmente danificados com qualquer batidinha. Outras madeiras, como o maple, tendem a deformar ou talvez até mesmo rachar sob a influência de sais, ácidos, umidade ou uma combinação dessas influências.

Algumas madeiras não precisam de uma camada espessa de verniz ou seladora, uma camada fina já funciona para proteger o instrumento (um exemplo são os braços das MusicMan, que possuem um acabamento simples em óleo, o famoso Tru-Oil, para que você sinta a madeira crua nas mãos e tenha a proteção mesmo assim). Outras madeiras, no entanto, nem precisam de acabamento, como é o caso do Rosewood (jacarandá) e o Ébano.

A fim de assegurar a longevidade do instrumento, o luthier cobre o instrumento com um revestimento especial, a laca ou verniz. Existe uma grande variedade de materiais que podem ser usados para esse fim. Vamos dar uma olhada em algumas das principais possibilidades de um luthier tem quando se trata do acabamento de uma guitarra.

GOMA-LACA


Violino com acabamento em goma-laca.
A goma-laca ou esmalte foi usado por centenas de anos para o acabamento de violinos e violões, dando uma sensação muito natural, orgânica ao instrumento. Um pedaço de madeira com acabamento em laca (feito pelo processo que em inglês chamam de "French Polish") fica com um brilho suave, com uma cor de mel. A madeira consegue respirar muito com esse tipo de revestimento, daí vem a sensação natural, orgânica desse tipo de acabamento. A desvantagem de goma-laca é que é muito difícil de aplicar. Você tem que ter alguma experiência para poder fazer esse tipo de acabamento. Além disso, goma-laca pode mostrar algum desgaste ao longo do tempo. A melhor parte de goma-laca é que é um produto totalmente natural. Ela vem em flocos que são diluíveis em álcool. Os flocos são uma resina endurecida extraída de insetos. Ela é raspada das árvores, recolhida, seca e então usada. Curiosamente, a goma-laca também é usada como uma camada protetora para limões (sim, limões) e também como isolante para os fios de cobre que você encontra em seu captador (como nos PAF).

Gibson Les Paul Standard 1959. Esta guitarra foi concluída em sunburst. 
Esta imagem mostra como o acabamento tem alguma descoloração, alguns desbotamento e uma boa quantidade de craquele.


NITROCELULOSE

O acabamento de nitro e a beleza do craquelado.

Nitrocelulose foi o próximo passo de desenvolvimento em acabamentos para madeira. Em sua forma bruta, a nitrocelulose é um composto altamente inflamável, utilizado para explosivos. Esta substância bruta é então dissolvida em acetona e, em seguida, é pulverizada ou escovada, endurecendo e formando um filme muito fino. A nitrocelulose também foi bastante usada no passado para acabamento de carros na industria automotiva. Quando a acetona evapora, a nitrocelulose forma uma película de proteção na madeira. O que é muito bom em relação à nitrocelulose é que ela seca rápido e com ela é muito fácil de polir o instrumento e o deixar brilhante. Além disso, quando se aplica várias camadas, elas se fundem e formam uma camada só, bem mais espessa (ainda assim, acredite, o acabamento é incrivelmente fino: uma guitarra pode ter um acabamento final menor que a espessura de um cabelo humano).

Uma propriedade única de nitrocelulose é que ele mantém esse estado de evaporação constantemente. Assim, o solvente continua a evaporar muito depois da nitrocelulose secar ao toque, até mesmo após ser polido.Isso significa que a camada de nitrocelulose continua a ficar cada vez mais fina ao passar dos anos (isso explica o "relic" que tanto amamos nos intrumentos de nitrocelulose). Isso acontece só com a nitrocelulose, uma vez que outras outras tintas e vernizes não apresentam essa característica. Isso também significa que nitrocelulose é bastante frágil. É mais propenso a riscos do que vernizes modernos, no entanto os arranhões são mais fáceis de serem consertados.

Como a goma-laca, a nitrocelulose pode mostrar algum desgaste depois de muito uso (ou devo dizer abuso?). Basta dar uma olhada nas guitarras vintage, como essa Les Paul aí em cima. Estes pontos de desgastes são um resultado direto do atrito. Uma outra característica valorizada na nitrocelulose é sua capacidade de mostrar formar essas "craquelações" maravilhosas. Se a guitarra é sujeita a variações bruscas de temperatura, a tinta vai se expandir e contrair a uma taxa diferente do que a madeira, o que acabará por resultar em rachaduras no acabamento. A nitrocelulose pode ser tingida de qualquer cor desejada, e tanto o corante muda de cor ao longo do tempo sob a influência de radiação UV quanto a própria nitrocelulose, que começa como cristalina, e acaba descolorando e ficando mais opaca. O corante vai desaparecendo e a nitrocelulose vai amarelando ao longo do tempo, criando aquela pátina encantadora que tanto amamos.

No entanto, a nitrocelulose não é um produto muito amigável com o ambiente. Além de ser inflamável em sua forma líquida, ele também é tóxico. Mas é assim para quase todo o tipo de verniz.

  

POLIURETANO

Observe como o poli o desgasta, muito diferente do nitro. Muito menos sexy.

O poliuretano é o verniz moderno, um composto orgânico que é, essencialmente, uma combinação de grandes monómeros à base de carbono. Poliuretano tem muitas aplicações, entre eles colas muito fortes, fibras sintéticas (Spandex) e verniz. Ao contrário da nitrocelulose, o poliuretano não vai raspar com o desgaste e o uso pesado (não passe vergonha, não tente relicar sua guitarra com acabamento em poli). Ele irá manter sempre um acabamento brilhante, embora com alguns arranhões (inevitáveis) e pontadas. Outra diferença importante é que ele é conhecido por quebrar a sua composição se sofrer um forte impacto. Se isso acontecer, seu instrumento ficará com umas manchas brancas no acabamento que não saem de jeito nenhum.

Ao ser aplicado na guitarra, o poliuretano tem que ser aplicado em uma camada mais grossa, pois não derrete, não funde e por isso não se pode aplicar várias camadas. Isso pois o endurecimento do poliuretano baseia-se numa reação química do composto com o ar ou com produtos químicos do verniz, ao passo que outros vernizes (tais como goma-laca e nitrocelulose) dependem de uma evaporação do solvente.

Uma crítica importante em relação ao verniz de poliuretano não é sobre questões ambientais, mas sobre a durabilidade do verniz. Poliuretano é tão difícil de desgastar que ele só sairá do seu instrumento com uma raspagem pesada e geralmente, quando desgasta, ele não desgasta de leve. Ele desgasta em "nacos" de acabamento, sendo um desgaste esteticamente feio.

  

ÓLEO DINAMARQUÊS E O "TRU-OIL"

Guitarra incrível da Crimson Guitars, com acamento em óleo polimerizado.
Esses óleos são mais difíceis de se encontrar no Brasil. O óleo dinamarquês (Danish Oil) e o Tru-oil são todos os óleos do mesmo tipo, mas feito por diferentes fabricantes.No entanto, o funcionamento é semelhante. O óleo é esfregado sobre a peça e polimeriza-se (fica rígido, solidificado, seca) com o ar, formando uma película. Uma vez que a reação química necessária para secar o óleo é uma reacção exotérmica (ou seja: faz seu próprio calor) os panos usados para limpar o óleo podem pegar fogo espontaneamente (que loucura), por isso é MUITO importante deixar esses panos sempre estendidos no chão. Se os panos não estiverem estendidos no chão, o calor gerado simplesmente não pode escapar e pode inflamar o petróleo. O óleo não é, de forma alguma, tão combustível quanto a nitrocelulose. No entanto, prevenir é melhor do que remediar.

Óleos polimerizados como esses são fáceis de aplicar, já que nenhum equipamento especial é necessário. Os resultados são impressionantes: um brilho com uma sensação natural, orgânica.

A escolha do acabamento é altamente dependente dos resultados que você está procurando. 

Fonte: https://musicjungle.com.br/blog/guitarra/o-que-voce-precisa-saber-sobre-o-verniz-e-a-sua-guitarra

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Raio da Escala: que raio é isso?

    fonte: guitarra99 - Paulo May


Raio : "O raio de uma circunferência (ou círculo) é definido com a distância do centro a um ponto qualquer da circunferência." Portanto, o raio é metade do diâmetro da circunferência.

Partindo disso, vamos pegar de exemplo o famoso raio de 7.25 polegadas das Fender antigas. 7.25 polegadas equivale a 184.1 milímetros. Vamos arredondar para 18,4 centímetros. Pegue uma régua, marque 18,4 cm, depois abra um compasso e faça um círculo usando esse raio (ou prenda um lápis na régua e gire-a - não precisamos ser exatos aqui). Observe a curvatura em qualquer ponto desse círculo: essa é a curvatura da escala.


A mão humana tem, mesmo na posição de descanso, uma curvatura natural, por isso quando fazemos acordes, percebemos que as escalas mais curvadas (de raios menores) são mais agradáveis/naturais:


 Escala reta exige uma abordagem diferente no manuseio do braço. Tem quem goste. Eu detesto! :)
Algumas escalas comuns:


Fender Stratocaster American (atuais):          9.5" (241 mm)
Vintage Fenders:                                                 7.25" (184.1 mm)
Gibson Les Paul:                                                 12" (305 mm)  
Ibanez (variam de 12" a 18"): RG e S:             14"(400-430)  Artcore:12" (305mm)
Jackson:                                                               16" (406 mm) ou composto, de 12" (nut) a 16" (heel).
PRS: a maioria é:                                                10" (254 mm). Santana e Custom 22/12: 11"
Guitarras (maioria) com LSR roller nuts:         9.5" a 10" (241 mm to 254 mm)
Guitarras (maioria) com Floyd Rose bridge:    10" (254 mm)
Violões Clássicos:                                                flat (reto, sem raio)

        O problema de escalas com raios menores que 9.5", ou seja, muito curvadas, é que quando damos um "bend", ppte nas duas primeiras cordas, às vezes ocorre um travamento da nota. Para minimizar esse problema, a ponte, aliás, os carrinhos/saddles da ponte devem ser alinhados numa curvatura correspondente ao raio da escala, fazendo também uma curva. Pouca gente se toca disso. Os saddles da 3ª e 4ª cordas estão bem mais elevados que os da 1ª e 6ª numa guitarra com escala de raio 7.25", por exemplo:


 Essa é a ferramenta (gabarito) para checarmos o raio da escala:


Atualmente a moda é braço com escala de raio"composto" (compound radius). Inicia com uma curvatura maior, favorecendo os acordes e termina com uma menor, favorecendo os solos e bends:


Tecnicamente, quando essa transição é gradativa, deveria ser chamada de escala "cônica" e não composta, porque ela lembra de fato um cone:


Cada guitarrista acaba tendo um raio de escala preferido. Eu gosto bastante dos raios entre 9.5" e 12". A PRS SE com raio de 10" é extremamente confortável pra mim.
Mas isso pode mudar com o tempo. O cara inicia com bases e prefere raios menores. Depois, começa a fritar e vai aumentando o raio... :)

Outro fator importante é a forma do braço , que juntamente com a escala, fazem o "full contact" com a nossa mão. As formas mais comuns de braço são:


Não sei se vocês já perceberam, mas pontes para Les Paul já vem com uma certa curvatura. Exatamente 12" de raio, pra seguir o raio da escala Les Paul. Eu ajusto também os parafusos dos captadores para essa curvatura - nada mais óbvio e pouca gente faz.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Cuidados e Manutenção I : Limpeza




Para melhor conservação do instrumento, alguns cuidados são   essenciais para prolongar a vida do violão ou da guitarra. Muitas vezes por manuseio errado ou armazenagem em local incorreto os instrumentos podem sofrer avarias as quais podem ser evitados com cuidados básicos.

Primeira ação a ser tomada como regra, é tomar cuidado com quem manuseia o instrumento, evitando ao máximo deixar o violão, a guitarra ou o baixo com pessoas que não sabem como lidar com eles , podendo assim danificá-los. Já quanto ao próprio proprietário do instrumento, alguns cuidados básicos são imprescindíveis:

Tempo úmido ou seco: com as mudanças de temperatura e umidade o instrumento sofre variações sendo necessário certo controle sobre ele para evitar danos. Evitar ao máximo ambiente com umidade excessiva por período prolongado de tempo, isto ajuda a manter as colagens estruturais intactas.

Cases e capas podem acumular umidade com o tempo, sempre que constatado
certa umidade neles, deixar secar ao sol. No caso de acústicos, um higrômetro junto ao instrumento é algo que pode auxiliar no controle, tanto umidade excessiva quanto do tempo muito seco, que danificam as finas madeiras que são usadas, o ideal é manter em ambiente com umidade entre 40% a 60%, fora desta faixa, umidificadores e desumidificadores ajudam a controlar a umidade do instrumento, evitando danos estruturais e rachaduras na madeira. Do mesmo jeito evitar ambientes muito quentes por período prolongado, que também afetam as colagens estruturais.
Deixar o instrumento no carro em dia quente é algo que pode comprometer completamente um violão ou guitarra.

Limpeza do instrumento: ao terminar de utilizar seu instrumento, faça uma limpeza com pano macio e seco para retirar qualquer sujeira ou suor que caia sobre a superfície e nas cordas, geralmente são recomendadas flanelas macias, mas é sempre bom analisar o tipo de pano, pois alguns podem causar micro riscos no instrumento. O uso de produtos só se faz necessário se a sujeira estiver muito “grossa”, neste caso o uso de produtos específicos para limpeza de instrumentos o recomendável. Antes de aplicar qualquer produto certifique-se quanto ao tipo de acabamento que o seu instrumento possui, vernizes do tipo PU tem uma resistência maior e a grande maioria dos produtos de limpeza não o afetam; vernizes do tipo nitrocelulose já tem uma base um pouco mais sensível e podem se danificar com alguns limpadores com solventes químicos, evitar lustra móveis ou limpadores do gênero; vernizes do tipo goma laca ou óleo deve-se evitar qualquer tipo de limpador, o ideal é usar somente o pano seco, no máximo, levemente umedecido para limpar e logo em seguida pano seco para retirar qualquer umidade do instrumento. Existem produtos específicos
para limpeza de instrumentos, em geral não são caros pelo rendimento, a manutenção bem feita é mais barato que a reparação do dano.
Observação: para acabamentos em verniz fosco não se deve usar nenhum tipo de polidor, somente pano seco que deve ser aplicado sem muita força. Limpar o instrumento com força fará com que ele comece a tomar brilho.

Limpeza da escala: a limpeza da escala vai depender do tipo de acabamento que ela recebe. Alguns instrumentos têm a escala polida com ceras, outras somente aplicações de óleo e em casos de escala clara a aplicação de vernizes. Quando a escala é envernizada a limpeza deve ser feita como no resto do
instrumento, somente pano seco ou com polidores de instrumentos. A grande maioria dos instrumentos recebe apenas aplicação de óleo na escala, para a limpeza, embora antes devesse  analisar a necessidade, acúmulo de sujeira na escala é removida com produtos específicos, neste caso o luthier deve ser
procurado para orientação ou para realizar o trabalho. Após limpa a escala então é feita a aplicação do óleo de limão, duas a três gotas em uma estopa ou pedaço de pano pequeno, tal medida de produto é o suficiente para a escala toda, aplica-se o óleo na estopa e então é passado na escala, espalhando bem. Após aplicar o óleo, espera-se 1 minuto e retira-se o excesso de óleo com um
pano ou estopa seca. Deve-se sempre evitar excessos, pois em excesso o óleo pode acelerar a degradação da madeira e ela começa a desgastar rapidamente, sendo necessária sua troca em menor tempo, em geral, minha recomendação é de no máximo 2 vezes ao ano fazer a aplicação de óleo. Não existe o óleo ideal, existem os mais comuns, para saber qual o mais adequado ao seu instrumento, converse com o seu luthier de confiança.

Limpeza de peças metálicas: as peças metálicas de guitarras devem ser limpas com os mesmos polidores de instrumentos ou pano seco. Após o uso, limpar as peças do suor ou sujeira para evitar que se oxidem rapidamente. Deve-se usar um pano somente para as peças, pois as peças metálicas soltam resíduos no pano que pode causar riscos no instrumento. Peças douradas tendem a perder o acabamento mais facilmente, mas todos possuem certo desgaste. Ao limpar evitar esfregar a peça com muita força, evitando assim a retirada do banho que dá a cor à peça.