sábado, 17 de fevereiro de 2018

Paradoxos Musicais - 1# Cover




- Silvinho, estou pensando em tirar um solo de guitarra do Hendrix pra tocar em um Workshop. O que você me recomenda, tirar igual ou tocar com minha própria interpretação?

- Então mano se for fazer um cover temos os seguintes paradoxos: Se você tocar igual ao Hendrix, vai ter um amiguinho que ira falar: "Tá imitando", "O Hendrix faria melhor"...

- Se toca diferente, outro amiguinho vai dizer: "Sacrilégio", "Violando a obra de um deus"!

- E ainda vai ter que tolerar o outro especialista dizendo: Ele só copia, não cria nada!

- Então o que eu faço Silvinho?

- Faça igual a formiguinha, mas antes pergunte qual a opinião deles a respeito do Elvis Presley,  ele não fazia músicas, só as cantava. Mas e ai não foi o suficiente? Somos apenas uma minuscula parte de contribuição para o universo da música.

- Seja você mesmo, assim vai ser único, pois Hendrix já existiu, você ainda está no caminho.

- Acredito que a música é única das artes que é inacabada por natureza, cada um que pega uma música incorpora e é incorporado por ela. Isso é ser interprete e nosso seu dever.

- Mas e a formiguinha Silvinho?

- Pensei que não ia perguntar (rs)... Mas quem sabe ela carrega 100 vezes o seu próprio peso porque é surda e não fica preocupada com as opiniões de especialistas (by Google) alheios. 

#DeNada

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Limpeza básica - Manual dos porcos - Parte I




Sinceridade na resposta. Você limpa a sua guitarra?

Muitos guitarristas pensam que toda e qualquer manutenção em seu instrumento é coisa para o luthier fazer. Eu não concordo nem um pouco com isso. Você não tira o pó do seu computador e objetos pela casa? Não vejo motivo para não fazer o mesmo em seu instrumento musical. É claro que sujeiras profundas entre trastes ou manchas devem ser tratadas por profissionais. Mas no uso normal o instrumento fica cheio de pó e também cheio de meleca (sebo e suor) que sai do nosso corpo. Em um médio ou longo prazo o instrumento vira um gigante depósito de bactérias e também um lugar propício à formação de fungos e ferrugem que vão comprometendo os metais e também o acabamento do instrumento.

No caso de instrumentos claros é um pesadelo e fica tudo amarelado ou com manchas pela madeira e pintura. Não, isso não é ser “relic”, “vintage” ou “style”, é sujeira mesmo. A diferença para instrumentos “judiados” pelo tempo é que mesmo com a limpeza houve um desgaste natural de todos os materiais. Não confunda estilo com porquice. Pensando nisso resolvi passar algumas dicas para a limpeza de instrumentos de cordas:
Você vai precisar de…
1) Três flanelas
2) Detergente NEUTRO para lavar louça
3) Água limpa
Isso é o básico que você vai precisar para uma boa limpeza.  O primeiro passo é molhar um pouco uma das flanelas apenas com água e torcer bem. Ela deve ficar apenas úmida e não molhada. Passe pelo corpo e braço da guitarra. Não esqueça da escala pois é onde junta mais sujeira:


No braço agora  você já pode passar uma flanela seca. Para o corpo pegue uma flanela nova e coloque em um recipiente com água e um pouco de detergente neutro. Torça bem! Passe pelo corpo, depois passe a flanela apenas úmida que você usou no braço. Depois é só passar a flanela seca. Essa limpeza simples remove gorduras e pó do instrumento.

A dica vale para instrumentos com corpo e braço envernizados ou pintados. Em caso de um instrumento encerado não faça isso pois a madeira está mais exposta e os poros podem absorver a umidade e acabar empenando o seu instrumento.
Muita gente utiliza lustra-móveis ou ceras automotivas para dar brilho ou polir os instrumentos. Eu não recomendo pois mesmo que tenhamos a lista completa de reagentes destes produtos, não sabemos a natureza química do acabamento do nosso instrumento e isso pode comprometer não só a estética como a funcionalidade do mesmo. E também algumas ceras são muito abrasivas e deixam riscos permanentes. Por isso é mais interessante uma limpeza simples. Agora quer algo ultra limpo aí sim recomendo levar para o luthier que vai te devolver o instrumento zero km igual quando você o viu penduradinho na loja sorrindo para você.

Quem quer se aprofundar na arte da limpeza eu recomendo esse kit da dunlop que vem com ótimos produtos já pensados para isso e ainda com instruções de uso:


Devo dizer que não é muito barato, mas rende várias limpezas e se você tem um bom instrumento o mesmo merece.
Para as cordas continuo com a dica de usar o WD-40 que ajuda a proteger a corda da oxidação (resultado da combinação, umidade, oxigênio e ferro)

Ter sempre flanelas macias em casa é uma ótima forma de manter o seu instrumento sempre brilhando. Sempre depois de tocar passe a flanela na sua guitarra. Lembre bem, na guitarra e NÃO nas cordas (pois ela não tira a umidade).

Troque de flanela de tempos em tempos. Normalmente ao lavar elas vão ficando muito ásperas, por isso deixe várias de reserva.

E lembre-se:
"NUNCA DEIXE DE TOCAR O SEU INSTRUMENTO. PARA TE DAR O SOM DOS SONHOS ELE NÃO PEDE MUITO DE VOCÊ, SÓ UM POUQUINHO DE ATENÇÃO."


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A IMPEDÂNCIA e seus amigos



Por que alguns guitarristas usam a combinação head e caixa ao invés de Combo?

Existem muitas razões. A primeira é potência. A maioria dos amps de alta potência
só saem na versão head. A segunda é flexibilidade. O músico pode escolher entre
uma grande variedade de caixas que variam também o número e tamanho dos falantes.
Seu amp terá uma certa performance com uma 4×12, mas você também poderá usá-lo
com uma 1×12 compacta em outras situações.

Lembre-se que seu head e caixa precisam estar conectados da forma correta.


O mais importante a ser considerado é a resistência elétrica, ou impedância de
cada parte. Ela é medida em ohms e representada pelo símbolo grego ? (ômega).

Pra entender melhor as razões para as regras de conexão dos falantes,
precisamos entender um pouco de eletrônica. Pra ficar mais fácil de entender,
vamos relacioná-la a algo que já estamos acostumados e vamos tomar como exemplo
uma mangueira. Pegue a mangueira (sem o esguicho) e abra a torneira. Logo, a
água deve começar a sair da ponta da mangueira. Esse fluxo de água através da
mangueira é parecida com a corrente elétrica, que normalmente é descrita como
o fluxo de elétrons através do cabo e é medida em amperes.

Agora coloque o dedão na ponta da mangueira e tente parar o fluxo de água. A pressão
que você sente é parecida com a Tensão. Ela é a força da eletricidade que empurra os
elétrons através do cabo. Perceba que se você conseguir parar o fluxo de água (nenhuma
corrente), a pressão ainda continuará. É assim num amplificador sem falantes.


A tensão está presente, mas não há o fluxo da corrente.

Finalmente mexa um pouco o seu dedão pra que um pouquinho de água saia. Mudando a
posição do seu dedo, você consegue controlar a quantidade de água que sai da mangueira.
Ele está restringindo a corrente de água. Num circuito elétrico, “coisas” que impedem
ou controlam o fluxo de corrente tem impedância. Numa mangueira, usamos o esguicho
pra restringir o fluxo. Num circuito elétrico, a “coisa” que usa energia elétrica
e tem impedância é chamada de carga (falantes, load box, dummy load).

O que são ohms?
Ohm é a unidade de medida de impedância, que é a propriedade de um falante de
restringir o fluxo de corrente através dele. Normalmente falantes tem impedâncias
de 4, 8 ou 16 ohms.

Por quê ohms são importantes?
Se você conectar seu amplificador ao falante com impedância errada, corre o risco de
danificar o amp. Em valvulados, uma impedância muito alta (ou o falante desconectado)
pode danificar as válvulas ou o transformador de saída.
Conectar só uma caixa ou um falante num combo é mais fácil, pois a maioria dos heads
tem chaves seletoras de impedância, então é só casar a impedância do amplificador com a
da caixa ou falante. Mas o esquema fica um pouquinho mais complexo quando você tem
mais de uma caixa e precisa considerar outros fatores.

Sempre use um speaker cable, que é diferente de um cabo de guitarra comum.

Primeira regra: Não ligue o amplificador sem o falante ou caixa conectada.
Ignorar essa primeira regra pode danificar o seu amplificador, então preste bastante
atenção.
Existem alguns equipamentos que substituem o falante, como load boxes e dummy loads.
A não ser que você esteja usando um deles, lembre-se sempre de verificar se seu falante
ou sua caixa está ligada no amp.
Segunda regra: Certifique-se que a impedância do amplificador é a mesma da caixa ou
falante(s).
Um amplificador com a impedância errada pode ainda soar normalmente, mas pode estar
causando danos ao transformador, resistores e válvulas.

Em situações que você tem uma caixa com 16 ohms e saídas de 4 e 8 ohms, você pode
usar o amp setado em 8 ohms, com a caixa com 16 ohms, mas o amp nunca deve estar
setado com uma impedância maior que a da caixa.
Amplificadores podem ter duas saídas para caixas, com ligação em série ou paralelo.
Paralelo: Duas caixas de 8 ohms plugadas em um amp = carga de 4 ohms.
Em paralelo você divide a impedância total pelo número de caixas (ou falantes numa caixa).
Então se você tem duas caixas de 16 ohms conectadas ao amp, terá um total de 8 ohms.
Deu pra sacar?
Série: Uma caixa de 8 mais outra caixa de 8 ohms= 16 ohms.
Em série, você soma a impedância das caixas, ou seja, duas caixas com 4 ohms serão
vistas pelo amp com 8 ohms.


O resto é com você! Agora que você já sabe como ligar as caixas ao seu amplificador,
você pode deixar seu som com a sua cara. Usar um amp de 10W numa 4×12 pode ser incrível.
Ou usar seu monstro de 100W com uma caixa mais compacta caso não tenha muito
espaço também é adorável. As combinações são muitas. Encontre a sua!
Fontes:
http://www.prestonelectronics.com/audio/Impedance.htm
http://www.justinguitar.com/en/GG-011-SpeakerCabinets.php
http://www.georgesmusic.com/speaker-cabinets-the-world-of-ohms.html

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Loops de efeito em amplificadores

PRÉ E POWER, AS CHAVES PARA ENTENDER O “LOOP DE EFEITOS”
Antes de tentarmos entender melhor o Loop de Efeitos, é importante você saber exatamente o que é o pré amp e o power.
O Pré-Amp – O estágio da “timbragem”
A função do pré-amp é aumentar a amplitude (o volume mesmo) de um sinal de áudio, preparando um sinal eletrônico que sai da guitarra para uma posterior amplificação ou processamento.
Cada pré-amp tem uma sonoridade característica, um timbre, e nesse sentido você vai encontrar várias diferenças entre cada um deles: limpos x distorcidos, vintage x modernos, vocação mais grave x vocação mais agudo… e por aí vai!
As funções principais de um pré-amp (além de aumentar a amplitude do sinal) são: distorcer (em alguns casos), equalizar e timbrar o sinal vindo da guitarra.
O Power – O estágio da “pancada”
O power transforma o sinal ainda fraco do pré-amp em um sinal forte o suficiente para gerar som no alto-falante. Ou seja, o power é o estágio de potência do amplificador, e quanto mais potente maior será o volume que o amp pode gerar.
O power também pode distorcer e timbrar, mas em geral faz isso com menos intensidade do que o pré-amp. Uma curiosidade: as distorções do pré e do power tem características diferentes. Os guitarristas que curtem uma pegada mais vintage costumam gostar mais da distorção gerada pelo power, enquanto quem curte uma pegada mais moderna costuma optar por uma distorção vinda do pré.
ENTRE PRÉ E POWER, O LOOP DE EFEITOS
Quando falamos de pedais de guitarra, eles podem ser utilizados em dois estágios diferentes: antes do pré ou entre o pré e o power. Mas para usar o pedal entre o pré e o power, o seu amplificador tem, necessariamente, que possuir um loop de efeitos. E essa, por sinal, é a função do loop: permitir aplicar efeitos depois do pré e antes do power.
Porque isso é tão importante? Ao conectar o pedal no loop de efeitos (depois do pré), o efeito é aplicado em um sinal já timbrado, distorcido e equalizado. Alguns efeitos só ficam bons se forem utilizados assim, e alguns outros efeitos soam diferentes se forem utilizados direto no input ou no loop de efeitos (vamos falar deles mais pra frente).
O importante é que o loop de efeitos te dá possibilidades!
TIPOS DE LOOP DE EFEITOS
O loop de efeitos de um amp pode ser completamente diferente do loop de efeitos de outro, e é importante entender quais as principais características que criam essas diferenças. Vamos lá!?
Loop de Efeitos Em Série x Paralelo
  • Loop de Efeitos Em série: Nesse tipo de loop, o sinal é integralmente processado pelos efeitos conectados ao loop (se houver efeitos conectados ao loop) antes de voltar ao power. Isso ocorre porque o pré-amplificador é totalmente desconectado do power quando há algum efeito conectado ao loop.
  • Loop de Efeitos em Paralelo: Aqui o sinal é dividido: parte segue para a fase de potência e outra é processada pelos efeitos conectados ao loop. Resultado disso é mais versatilidade – já que a divisão do sinal pode trabalhar como um controle de mix.
Loop de Efeitos Ativos x Passivos
  • Loop de Efeitos Ativo: Sem perda de sinal. Esse loop também é chamado de buffered ou buferizado (porque contém um buffer). O loop ativo casa bem a impedância de saída do pré com a impedância de entrada do pedal.
    Outro ponto interessante é que o loop ativo também recupera as perdas sofridas pelo sinal ao passar por um circuito externo.
  • Loop de Efeitos Passivo: Pode ocasionar perda de sinal, principalmente nas frequências mais agudas (acontece mais se forem ligados muitos pedais no loop). Podem ser problemáticos porque alguns pedais devolvem um nível de sinal muito abaixo da saída do pré, e acabam atenuando demais a saída do amp.
    Esse tipo não “regenera” o sinal da guitarra, fazendo somente o casamento de impedâncias.
DICAS PRÁTICAS SOBRE O LOOP DE EFEITOS
Agora vamos ao que realmente interessa: como esse conhecimento pode ser útil na prática! Quais pedais usar no input? Quais usar no loop? Quais os tipos de loop? Vamos responder todas essas perguntas.
Loop de efeitos como saída de linha
O loop de efeitos pode ser utilizado como alternativa para saída de linha (ligando-se o SEND na entrada da interface de áudio ou na mesa de som).
ATENÇÃO: mesmo que seja utilizado dessa forma, a maioria dos amplificadores valvulados precisa que na sua saída seja ligado um alto-falante ou uma dummy load.
Loop de efeitos para usar pré de um amp e power de outro
O loop de efeitos permite que o pré-amp seja utilizado com outros powers (no caso de se desejar mais potência, por exemplo) ou que o power seja utilizado com outros prés (no caso de se buscar um timbre diferente).
Para fazer isso, basta conectar o SEND do amp que você quer utilizar o pré no RETURN do amp que você quer utilizar o power.
ATENÇÃO: o mesmo dito acima se aplica aqui. Vou até repetir para não ter erro: mesmo que seja utilizado apenas o pré do amp, a maioria dos amplificadores valvulados precisa que na sua saída seja ligado um alto-falante ou uma dummy load.
Pedais no loop x Pedais no input - Quais pedais devem ser conectados no loop? E quais devem ser conectados no input?
  • Pedais que devem ser conectados no Loop de Efeitos – Principalmente quando falamos de timbre distorcidos, alguns pedais funcionam melhor depois das distorções.
    Pra dar alguns exemplos: os pedais de 
    delay e reverb quando colocados antes de um amplificador de alto ganho acabam embolando muito o som. Por isso, delay e reverb sempre devem ser ligados no loop.
    Já alguns efeitos produzem características 
    diferentes se forem utilizados no loop ou no input. É o caso de: chorus, phaser, flanger e boost. O boost, por exemplo, quando é utilizado em um amp que já esteja com timbre distorcido, gera um aumento da distorção se for utilizado no input e um aumento de volume se for utilizado no loop.

  • Pedais que devem ser conectados no Input – Como dito acima, alguns pedais 
    podem ser ligados tanto no input quanto no loop, com resultados diferentes. São eles: 
    chorus, phaser, flanger e boost.
    Existem ainda alguns pedais que devem ser ligados no input: 
    distortion, overdrive, fuzz, compressor, wah wah, afinador e noise gate.


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Motivação, NÃO é isso que você precisa!



Esqueça  a motivação, o que você precisa é disciplina

Para fazer qualquer coisa, há basicamente duas formas de se colocar numa situação em que aquilo efetivamente vai ser feito.
A primeira opção, mais popular e devastadoramente errônea, é tentar se “automotivar”.
A segunda, uma escolha um tanto impopular e completamente correta, é “cultivar a disciplina”.
Trata-se de uma daquelas situações onde adotar uma perspectiva diversa redunda em resultados superiores imediatamente. Poucos usos do termo “mudança de paradigma” são realmente legítimos, mas aqui temos um deles. É como acender a lâmpada em cima da cabeça.

Qual é a diferença?

A motivação, falando de modo geral, opera sob a presunção errônea de que é necessário um estado mental ou emocional particular para que uma tarefa seja realizada.

Isso está completamente invertido.

A disciplina, em vez disso, separa o funcionamento externo dos sentimentos e mudanças de humor, e assim ironicamente, ao melhorar as emoções de modo consistente, evita o problema.

As implicações disso são enormes.
Levar as tarefas a cabo efetivamente causa os estados interiores que procrastinadores crônicos acreditam que precisam para iniciar as tarefas em primeiro lugar.

Colocando de forma mais simples: Não se deve esperar até se sentir bem para começar a estudar ou praticar um instrumento. Mas ao contrário, estuda-se e pratica-se para se sentir bem.

Quando a ação se condiciona pelas emoções, esperar um estado de humor ideal se torna uma forma particularmente insidiosa de procrastinação. Conheço isso muito bem, e gostaria que alguém tivesse me apontado isso vinte, quinze ou dez anos antes de eu acabar aprendendo a diferença ralando na vida.
Quem espera até ter vontade de fazer as coisas para fazê-las, está ferrado! É exatamente disso que surge o temido círculo vicioso de procrastinação.


O ciclo da procrastinação
Mais tarde eu faço! -> Droga, não tô fazendo nada. -> Talvez eu deva considerar começar essa tarefa... -> ... mas não estou disposto o suficiente para fazê-la bem. (repete)

A essência de correr atrás da motivação é a insistência na fantasia infantil de que só devemos fazer as coisas que estamos a fim de fazer. O problema então se coloca da seguinte forma: “Como eu chego ao ponto de estar a fim de fazer o que eu racionalmente decidi fazer?” Isso é ruim demais.

A pergunta certa seria “Como deixo meu humor de lado e faço as coisas que conscientemente quero fazer, sem frescura?”

O ponto é cortar a ligação entre os sentimentos e as ações, e fazer a coisa de qualquer jeito. Você vai se sentir bem, energético e excitado depois de agir.
A motivação inverte tudo isso. Estou 100% convencido de que esta perspectiva defeituosa é o principal motor da epidemia de “sentar de cuecas jogando videogame...” que atualmente ataca os países desenvolvidos.

Também há problemas psicológicos na dependência da motivação.
A vida e o mundo reais algumas vezes exigem que se faça coisas com que ninguém em sã consciência conseguiria se entusiasmar, e assim a “motivação” se depara com o obstáculo insuperável de tentar produzir entusiasmo por aquilo que objetivamente jamais o mereceria. Fora a preguiça, a única solução é acabar com a sanidade das pessoas. Esse é um dilema horrível, e felizmente falacioso.

Tentar martelar o entusiasmo por atividades fundamentalmente chatas e miseráveis é literalmente uma forma de automutilação psicológica deliberada, uma insanidade voluntária, tipo:
” - Gosto tanto desse exercício que mal posso esperar para praticar”.
” - Gosto tanto dessa música que mal posso esperar para estuda-la”.
Palavras positivas e pensamento positivo não mudam ou param nem uma dor de barriga, não é isso que vai te impulsionar.

Não considero episódios autoinfligidos de hipomania os melhores impulsionadores da atividade humana. É inevitável que ocorra algum tipo de compensação tímica com episódios de depressão, uma vez que o cérebro humano não tolera o abuso por tempo indeterminado. Estão presentes travas e válvulas de segurança. Ocorrem ressacas hormonais.

A pior coisa que pode acontecer é ser bem sucedido na coisa errada – temporariamente. Um cenário muito superior é reter a sanidade, o que infelizmente tende a ser confundido com fracasso moral:
“Eu ainda não amo meu trabalho fútil de ficar tirando musicas, devo estar fazendo algo errado.”
“Ainda prefiro tocar Rock, e não Jazz, não entra na minha cabeça, talvez eu seja burro mesmo.”
“Eu devia comprar outro livro sobre teoria pra me motivar.”
“Quando eu comprar aquele pedal X, guitarra Y, e o amplificador Z, ai sim vou me sentir empenhado a estudar...”

Besteira pura!!!! O erro crucial aqui é encarar essas questões em termos de presença ou ausência de motivação. A resposta é a disciplina, não a motivação.
Há outro problema prático com a motivação. Tem validade restrita, precisa ser constantemente revigorada.

A motivação é como dar corda manualmente numa manivela pesada para através disso obter uma grande força instantânea. No melhor dos casos, ela armazena e converte a energia para uma finalidade particular. Há situações onde ela é a atitude correta, exceções em que ficar superanimado e armazenar um montão de energia mental de antemão é o melhor a fazer. Corridas olímpicas ou fugas de prisões seriam casos assim. Mas fora esses casos limítrofes, ela é uma base terrível para o funcionamento regular cotidiano, e para qualquer coisa que exija resultados consistentes em longo prazo.

Em contraste a isso, a disciplina é como uma máquina que uma vez colocada em funcionamento, na verdade passa a fornecer energia ao sistema.
A produtividade não exige nenhum estado mental. Para resultados consistentes em longo prazo, a disciplina supera em muito a motivação, de fato a disciplina acaba correndo ao redor, humilhando a motivação.

Em resumo, a motivação é tentar encontrar aquela vontade de fazer as coisas. Disciplina é fazer mesmo se não se tem vontade. Você se sente bem depois.

A disciplina, enfim, é um sistema que funciona, já a motivação é semelhante aos objetivos em si. Há uma simetria. A disciplina mais ou menos se autoperpetua e é constante, já a motivação é uma coisa meio aos solavancos.

Como se cultiva disciplina? Construindo hábitos – começando com coisas bem pequenas, com que se consegue lidar, comece com coisas mínimas, e assim ganhando impulso, reinveste-se nela em mudanças cada vez maiores na rotina, dessa forma construindo um círculo virtuoso de retroalimentação positiva.

A motivação é uma atitude contraproducente. O que conta é a disciplina.

Agora deixa de moleza, seu instrumento lhe espera.

#DeNada