quarta-feira, 30 de março de 2016

Flow (fluxo)

Fluxo (do inglês: flow) é um estado mental de operação em que a pessoa está totalmente imersa no que está fazendo, caracterizado por um sentimento de total envolvimento e sucesso no processo da atividade
Apesar de todos os componentes abaixo caracterizarem o estado de fluxo (flow), não é necessária a presença de todas estas sensações para experienciar o estado de fluxo:
1.   Objetivos claros (expectativas e regras são discerníveis).
2.   Concentração e foco (um alto grau de concentração em um limitado campo de atenção).
3.   Perda do sentimento de auto-consciência.
4.   Sensação de tempo distorcida.
5.   Feedback direto e imediato (acertos e falhas no decurso da atividade são aparentes, podendo ser corrigidos se preciso).
6.   Equilíbrio entre o nível de habilidade e de desafio (a atividade nunca é demasiadamento simples ou complicada).
7.   A sensação de controle pessoal sobre a situação ou a atividade.
8.   A atividade é em si recompensadora, não exigindo esforço algum.
9.   Quando se encontram em estado de fluxo, as pessoas praticamente "se tornam parte da atividade" que estão praticando e a consciência é focada totalmente na atividade em si.


“Flow” é uma coisa que só quem já experimentou sabe o que é

Trata-se de algo que não se pode ver, apenas sentir. Flow está em todas as atividades, mas é especialmente relevante para aquelas em que não queremos pensar em cada passo que estamos dando. Isso faz toda diferença. Imagine um surfista descendo uma onda de 10 metros a uma velocidade absurda. A onda se transforma a cada milésimo de segundo, tornando-se algo novo a cada instante. A prancha em seus pés treme o tempo todo e seu equilíbrio é desafiado continuamente. Muitas vezes essa experiência da onda gigante dura apenas alguns segundos e mesmo que o surfista pratique por décadas, ele nunca verá a mesma onda duas vezes. Então, como se sair bem numa situação dessas?

E o que isso tem a ver com solos de guitarra?

Comecei esse artigo falando do surfista porque essa é uma situação que todo mundo consegue visualizar e entender como é complexa e rápida. Nesse tipo de experiência, o cérebro também precisa agir de uma forma complexa e rápida. Ele precisa entrar em flow.

Na guitarra e violão, vivemos essa mesma situação, mas com bem menos adrenalina. Assim como o surfista, quando estamos solando, especialmente em solos rápidos, precisamos tomar 10 decisões em 1 segundo. Para começar, o mais óbvio é que o tempo todo estamos fazendo dois movimentos completamente diferentes com cada mão, e eles precisam estar profundamente sincronizados. Precisamos abafar as cordas que não estão sendo tocadas para que elas não gerem ruídos indesejados. Precisamos palhetar cada nota com a força certa, umas mais fortes, outras mais fracas, para gerar aquela sensação de um som natural, que flui como em uma conversa. Agora, os dedos da mão esquerda, que pressionam cada nota no braço da guitarra. Você sabe que, se botamos pouca pressão nos dedos, as notas não soam bem, e se apertamos muito, o movimento fica travado. Mas, finalmente chegamos a melodia. Afinal, música é algo sublime, difícil de explicar. Ela deve produzir efeitos em nosso ser, alterar a forma como nos sentimos. E como fazer isso acontecer enquanto estamos tocando? Numa situação de improviso, onde você está criando um solo ao mesmo tempo em que a música está rolando, a melodia deve ser criada instantaneamente, e ela tem que fazer sentido. Quem escuta não pode nem desconfiar que você está criando algo na hora. Não pode ter erro, nem técnico, nem melódico. Um detalhezinho estraga tudo. Ou... transforma tudo... para algo totalmente inesperado.

Um improviso precisa ter esse elemento de surpresa
Um improviso precisa ter esse elemento de surpresa para a própria pessoa que está tocando, pois é essa capacidade de se deixar surpreender com suas próprias notas que permite você entrar num estado onde as coisas vão acontecendo através de você, como se você virasse um condutor por onde a música flui. O resultado é maravilhoso - um solo que estará gravado para sempre e que você e outras pessoas poderão escutar e sentir prazer.

Tudo que narrei é algo que conseguimos fazer graças a um mecanismo de nossa mente, que nos coloca num estado de alta performance, onde nos sentimos incrivelmente bem no que estamos fazendo. Às vezes, essa sensação dura pouquíssimos segundos e, quando passamos por algo assim, passamos a vida inteira tentando gerar essa sensação novamente. E será que conseguimos?

Esse é o estado de FLOW

Não é uma coisa simples que ocorre. Na verdade, quando entramos em flow, inúmeras mudanças químicas ocorrem dentro de nós. Hormônios e neurotransmissores são produzidos em nosso corpo e nos fazem sentir algo extasiante, como se fosse um chamado para fazer algo maior. Certas áreas do cérebro são inibidas para que as coisas fluam. Em situações onde um décimo de segundo faz diferença, não dá tempo de ficar parando pra pensar "será que estou fazendo a coisa certa?". É necessário entrar num estado de alta confiança, onde você faz as coisas com tanta naturalidade, que é como se elas estivessem em piloto automático. Você não está pensando em cada movimento, você está apenas fazendo. Múltiplos estímulos fluem através de você e, em tempo real, você consegue tocar um solo que nunca existiu.

Agora, o FEELING

E isso nos leva a uma palavra que já conhecemos, o FEELING, que na minha definição é tocar as notas certas, na hora certa, da forma certa. É claro que não existe certo e errado, mas aqui quero dizer que feeling é quando você é capaz de tocar de uma forma que, para quem escuta, soa inexplicavelmente bem. 

FLOW e FEELING são diferentes

Flow é esse estado mental que descrevi acima, que ocorre em diversas atividades, seja música, surfe, vídeo-game, escrever um livro, etc. Feeling é relacionado ao flow. Apesar de não ser necessário entrar em estado de flow para tocar com feeling, quando isso ocorre, quando você junta os dois, o resultado é impressionante. É quando, por exemplo, alguém toca com grande habilidade e, ao mesmo tempo, cria um solo bonito, tão melódico que chega a fazer você sentir um arrepio.

Mas, em certas situações, para solar com feeling, é necessário estar em flow. Simplesmente, não funciona tentar seguir uma linha racional e agir de forma puramente mecânica. Dizem que para ser criativo é necessário deixar seus julgamentos de lado por um momento. Na música isso também é verdade. Imagine que experiência chata seria compor uma música tentando pensar puramente de forma racional, tentando julgar nota por nota e ver se elas estão de acordo com supostas regras que você aprendeu? Eu prefiro encarar as regras como guias, que podemos seguir ou não. E, num estado de flow, essa necessidade intensa que temos de aprovação é temporariamente desligada. Teoricamente, fica mais fácil ser criativo. E fica mais fácil se permitir sentir coisas, entender isso e transmitir para o instrumento.

Como solar com FLOW?

Em situações complexas, precisamos pensar em blocos. Durante um solo, não pensamos em cada pequeno detalhe dos bends e vibratos, apesar de cada um deles ter sua individualidade. Nós simplesmente fazemos do jeito que sentimos que será melhor. Precisamos saber como sentimos cada nuance de um bend ou vibrato e que efeitos eles geram. Para isso, precisamos ter em nossa memória sensorial um arsenal de experiências, isto é, tocar e tocar e observar cada detalhe.

Outro exemplo sobre pensar em blocos são as escalas. Cada escala é um bloco com notas prontas para gerar certa sonoridade. Quando você escolhe usar a escala pentatônica, por exemplo, você sabe como ela vai soar. 

E continuamos indo mais além com os blocos. Para cada escala, temos desenhos diferentes (ou 'shapes'). Então, num solo de rock, por exemplo, primeiro escolhemos certa escala pentatônica, e depois escolhemos determinado desenho dessa escala para uma parte do solo.

Devemos parar por aí?

Ou podemos continuar criando e usando outros blocos? Podemos sim, claro!

Os licks prontos são outro exemplo de blocos, mais avançados, pois já contêm notas que criam frases inteiras e com algum sentido musical. Pode parecer que licks desincentivam a criatividade, mas é justamente o contrário. Um lick que você conhece é como uma palavra nova em seu vocabulário que permite você se expressar melhor. Você, como guitarrista ou violonista que quer melhorar seus improvisos, precisa melhorar seu repertório de ideias e vocabulário de frases. São elas que serão acessadas e modificadas quando você entrar em estado de flow. Afinal, milagres não acontecem. Você colhe o que planta.

Você fica restrito às suas limitações físicas

Outro ponto é que, mesmo em estado de flow, você fica restrito às suas limitações físicas. Se você nunca treinou certa técnica, ou nunca tocou em determinado tempo, mesmo que no estado de flow as coisas fiquem "mais fáceis", você não vai magicamente aprender algo que nunca praticou. É aí que entra o treino do dia-a-dia, para melhorar sua técnica e expandir seus horizontes musicais.

Mas, e como entrar em flow?

Flow não ocorre simplesmente apertando um botão ou girando uma chave. Flow é uma consequência de uma cadeia de acontecimentos. Existem duas vertentes. Uma é quando você se vê numa situação onde você entrou em flow sem esforço, como se algo tivesse acontecido, e você simplesmente flui naquilo que está fazendo. Outra é quando você cria uma cadeia de eventos que vai culminar em um estado de flow planejado. Por exemplo, você pode treinar seus solos todo dia para que no dia da gravação da sua banda você entre nesse estado e consiga tocar de forma perfeita. A repetição e a experiência sensorial vão criar reações instintivas em você e parecerá que seus dedos estão sendo magneticamente atraídos para tocar da melhor forma, como um rio seguindo seu fluxo normal.

Você já escutou o solo de Sweet Child O' Mine do Guns N' Roses? Algumas pessoas acham que ele foi escrito nota por nota. Eu não sei, mas prefiro acreditar que o Slash tocou esse solo de forma natural e que as ideias foram fluindo uma após a outra.


terça-feira, 22 de março de 2016

Ouvindo e entendendo a música.



Ouvimos música em três planos: a) plano sensível; b) plano expressivo; c) plano puramente musical. Mesmo que a gente não saiba disso. Nem de tudo sabemos mesmo. Somos seres finitos. Mas, vamos lá, dentro desses humanos limites. a) Plano Sensível: Devemos nos entregar inteiramente ao prazer de ouvir o som. Nada mais. Sem intelectualismos. Sem sacadas geniais. Sem críticas. Ouvir sem pensar. Tomar um banho de som, por assim dizer. Escolha um CD que nunca ouviu – exemplo MISHIMA, do Philip Glass - Ligue seu aparelho e deite-se no tapete da sala e feche os olhos.
A percepção do som alterando seu estado mental. E, deixe rolar. Uma nota percutida ao piano, quem sabe, no silêncio da sala já altera a atmosfera da sala e, quem sabe? Altera o seu estado mental. Buscar estados alterados de consciência com o uso e abuso da música ou do som. Um acorde ao violão e o mundo já mudou. Parafraseando algumas religiões: “O elemento sonoro tem poder”. É necessário dizer que o elemento sonoro varia de compositor para compositor. Basta ver (ouvir) a diferença entre Ravel e Beethoven. Varia com o estilo.
Notando estas diferenças você será um ouvinte consciente. b) Plano Expressivo: Stravinsky dizia que sua música era um “objeto”, uma “coisa”, dotada de vida própria e sem significado a não ser o musical. Diferente do que dissemos no capítulo 1, ela nem precisa contar história alguma. No entanto a música traz em si a expressão e, uma vez construída por seres humanos, - até prova em contrário, - expressão de algo. Diferente para cada pessoa que ouve. Ou que produz a música. Depende do conteúdo cultural e educacional e existencial de cada ouvinte ou cada compositor. A música tem um significado? – SIM.
É possível precisar qual significado é esse? - NÃO. Mas, as pessoas sempre acham que tudo deve ter um significado bem concreto, bem palpável. Portanto tire da cabeça de relacionar a música com alguma coisa material ou específica. Não será esse o caminho. Há mais mistérios entre o céu e a terra... e o resto você sabe, caro Horácio. Mas, em linha geral, a música que, sempre que ouvida, dizer a mesma coisa, será mais pobre do que aquela em que, a cada audição, ouvirmos uma novidade que estava escondida ou não foi percebida imediatamente. A música que em todos os aparelhos de som não muda em nada e paupérrima em relação àquela música que em aparelho de diferentes ressalta alguma coisa nova ou críptica.
A primeira é a música industrial, comercial e descartável. A segunda, essa última, provavelmente, durará mais tempo no ouvido coletivo da humanidade. Essa última se tornará um clássico de repertório. O autor dessa música será consagrado. Tente explicar as variações para cravo de Bach. Excetuando os adjetivos simplificados de “temas alegres ou tristes”, tente uma explicação dos temas do Cravo Bem Temperado. Você verá, também, que duas pessoas diferentes terão sugestões diferentes para a mesma música. c) Plano Puramente Musical: O plano das notas e sua manipulação. Tocar nessas notas algo que possa determinar para o ouvinte o Timbre, a Altura, a Harmonia, o Colorido Tonal, o Ritmo, a Melodia, a procura da época em que a peça foi feita, seu contexto histórico. Falaremos disso em textos que virão. Paciência! Esse assunto é amplo e fala do âmago da música.
Devemos lembrar que essa divisão em partes é apenas para estudo. Não se ouve nada separadamente. É um complexo sonoro tendo tudo ao mesmo tempo em ação. De certa maneira o ouvinte ideal está dentro e fora da música ao mesmo tempo. Uma atitude subjetiva-objetiva está implícita na criação e na apreciação da música. Experimente - já hoje, pois não há tempo a perder, – ouvir Mozart e Duke Ellington, na ordem que bem entender. São dois mestres de dois estilos diferentes. Vejamos: A Lacrymosa do Réquiem e Caravan. Agora você é alguém, consciente, que está ouvindo alguma coisa. E sabe do que se trata. Ficou ciente, também que deverá se munir de material sonoro. Veja menos novela, fique menos no facebook e no whatsapp e ouça mais música.
O tempo de duração é o mesmo. A qualidade das obras nem se compara. Treine a audição. Pode começar com obras solo, – só piano, só violão – buscar duetos ( dois instrumentos, instrumento e voz, etc..), para daí seguir a complicações mais evidentes.

terça-feira, 15 de março de 2016

Lição - Guthrie Govan | Larry Carlton style



Guthrie Govan é um dos guitarristas mais versáteis da atualidade. Sua vasta gama de influências e técnica impecável lhe permitiu desenvolver o que parece ser uma capacidade ilimitada de se adaptar a qualquer estilo de música, durante todo o tempo em que mantém sua sonoridade própria e distinta de fusion. Abaixo uma super video- lesson com tab e BT em um improviso muito "cool" pra você praticar e depois aplicar ao seu vocabulário. 

Trecho da entrevista a Guthie Govan
Você costuma estudar várias horas a fio?
GG: Não faça isso! Tudo termina em pobreza e lágrimas [risos]. Em uma nota séria, a música é para ser divertida, e isso é importante. Sentado em uma sala com um metrônomo, punindo-se, tocando arpejos, o que não vai fazer você amar o instrumento, ou a si mesmo. Para alguns que é bom, se a música que você ouve em sua cabeça requer que você tenha muita técnica, você tem que trabalhar em grande técnica. Mas tente se divertir. Lembre-se que grande técnica é muitas vezes sobre a tentativa de fazer algo para se sentir melhor. Se você tocar algo lentamente muitas vezes, e fingir que é fácil, você vai chegar ao ponto onde você pode tocá-lo sem esforço por horas a fio sem cansar-se. E então um dia, se você precisa fazê-lo um pouco mais rápido, se você achar que pode. Se algo parece fácil e soa bem, isso significa que você está fazendo certo.



E X E R C Ì C I O

                                               Áudio            Backing track        







T R A C K S   D E M O

T R A C K   S L O W

sábado, 12 de março de 2016

Centros Tonais - Parte I



O estudo do Centro Tonal é de grande valor para todos aqueles que querem e precisam desenvolver-se musicalmente. Sabemos que a música é dividida em harmonia, melodia e ritmo. Nesse artigo trataremos do aspecto harmônico. Embora alguns possam dizer que podemos ter música apenas com melodia e ritmo, eu discordo, pois mesmo que ninguém esteja executando a harmonia em algum instrumento, a melodia por si só carrega em sua sucessão de notas a harmonia intrínseca à ela. Concluímos então que os acordes (harmonia) são formados a partir de um motivo melódico.
Partindo deste princípio, e entendendo que as melodias são formadas com base em uma determinada escala, chegamos à conclusão lógica de que a harmonia correspondente a uma melodia só pode ter sua origem na mesma escala que serviu de matéria-prima para a melodia. Assim determinamos a tonalidade.
Num contexto radical de tonalidade, todos os elementos da progressão são subordinados a determinado centro tonal e se movem através de realizações cadenciais. Portanto, a tonalidade é um relacionamento entre a escala e os acordes. Normalmente três acordes são necessários para produzir uma sensação de tonalidade.
Um som musical é constituído de outros sons ou frequências, os harmônico superiores. O que chamamos de série harmônica. Esses harmônicos combinados entre si, formam um acorde. Se tocarmos um som fundamental  teremos a seguinte série harmônica:
dó – dó – sol – dó – mi – sol – sib – dó – ré – mi – -fá# – sol – lá
 é logicamente o som principal por ser a raiz da série.
Depois do , a nota que mais se repete é o sol, além de ser a primeira nota diferente a surgir depois da raiz (terceiro harmônico).
Se pegarmos este sol e tornarmos ele o som fundamental obteremos os seguintes harmônicos:
sol – sol – ré – sol – si – ré etc.
A nota sol obtivemos a partir da raiz . Logo temos os harmônicos superiores de um harmônico superior (sol em relação a ).
Partindo-se desta circunstância de que um som fundamental sol depende de um um som situado a uma quinta baixo dele (), concluímos, por sua vez, que o som dó também depende de uma quinta abaixo dele, ou seja, um .
Assim temos um grupo de três grupos tonais tendo o som  como centro e raiz e as notas  e sol orbitando ao seu redor como num centro gravitacional.
Sol  <  Dó  >  Fá
Assim, sol depende de  na mesma direção que  sofre influência de . Esses três sons estão numa relação estreita. São sons muito próximos, e essa proximidade garante ao som fundamental (central) estabilidade por meio do equilíbrio das forças atuando em direções opostas.
Ao sobrepormos e somarmos os harmônicos superiores dos três sons obteremos o seguinte resultado:
FÁ :  fá dó fá lá
DÓ:      dó sol dó mi
SOL:         sol ré sol si
Eliminando-se as repetições e colocando as notas notas em ordem sucessiva chegaremos à nossa escala diatônica Maior.
dó ré mi fá sol lá si
Arnold Schoenberg argumenta que “se a escala é a imitação do som horizontalmente, em sucessão, os acordes são a imitação vertical, simultânea. A escala é análise do som, assim como o acorde é a síntese”. Isso nos faz voltar no que escrevi mais acima, sobre a relação entre melodia e harmonia. As duas se entrelaçam de modo pungente não por motivos puramente teóricos, mas por força da própria origem do som.
Concluímos então, que o centro tonal encerra-se nesses três acordes oriundos da série harmônica, bem como a escala resultante. Os três acordes (G – C – F) selam, por assim dizer, a tonalidade, sendo suficientes para toda a compreensão tonal através da tensão e relaxamento dos acordes entorno do acorde principal.
A escala porém constitui-se de sete notas. A partir de cada grau dessa escala podemos formar agrupamentos (acordes) no mesmo padrão que originaram os três acordes que geram a força tonal. Portanto construindo as tríades sobre cada grau da escala teremos a seguinte sequência harmônica:

xxx
        C                 Dm              Em              Fm              G                Am              Bm(b5)
campo harmonico
Esses acordes formados a partir dos graus secundários da escala servem de decoração para os três pilares fundamentais da tonalidade. Logo, esses acordes, que podemos chama-los de secundários, terão de certa maneira, alguma relação funcional com três pilares harmônicos. Esse grupo de sete acordes é comumente chamado de campo harmônico.
Podemos, portanto, com estes sete acordes analisar, entender e executar grande parte das peças musicais de nosso tempo. Se entendermos as relações destes acordes com som principal, a melodia e a harmonia das peças musicais serão, para nós, muito mais do que agrupamentos de notas e acordes que em nossa mente não fazem sentido lógico, mesmo que nosso senso estético consiga de alguma maneira compreender.
Para que possamos fazer um uso prático deste pensamento teórico no nosso cotidiano, cabe a nós, músicos, empregar esforços para que nosso senso estético se una aos conceitos teóricos possibilitando um alargamento das fronteiras do nosso aprendizado, resultando em melhor execução musical, que por sua vez, resulta fluidez artística tão necessária para a cultura atual.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Regras para quem vive ou quer viver de Música


A tal “Vida de Músico”, pra grande maioria de nós, não é fácil. A batalha é dura em nome de um ideal que ultrapassa o interesse financeiro (pelo menos no meu caso e de muitos músicos que conheço). Um ideal que seguimos com uma fé quase inabalada, com garra e vontade de vencer. E querem saber? Nós fazemos, SIM, a diferença nesse mundo. Nossa profissão é linda, iluminada, sagrada. Nós tornamos esse mundo melhor, mais feliz e habitável. Porém, há uma grande diferença entre músico AMADOR e músico PROFISSIONAL. Se você pretende se profissionalizar e viver exclusivamente da música, eis algumas regras (de bom senso, inclusive):

– Nunca se submeta a qualquer coisa pra divulgar sua arte: antes que ser valorizado por outros, você é quem deve valorizar seu trabalho e se valorizar como pessoa e artista. Não toque de graça pra donos espertalhões de bares ou casas noturnas que pedem show “na faixa” pra você mostrar seu trabalho e quem sabe ser contratado por um cachê X depois. Você pode não ser chamado de novo, pois sempre aparecem outros pra tocar de graça. E se rolar, você não será realmente valorizado ou respeitado, visto que já “mostrou os fundilhos”.
– Se você é músico, aja como tal: estude, pratique bastante: seja instrumento(s) ou voz. Pra subir num palco, se vista de forma adequada. Não vá tocar com a mesma roupa que você usa pra comprar pão na padaria de manhã.
– Seja pontual: isso fará com que seu contratante veja que você leva seu trabalho (e o estabelecimento dele) a sério.
– Faça manutenção constante em seus equipamentos e instrumentos. Tenha sempre encordoamentos reservas, fusíveis extras pra seus amplificadores, cabos funcionando… Antes de sair de casa, faça um check-up e verifique se não está faltando nada, pois a falta de um pequeno item pode prejudicar irremediavelmente sua apresentação.
– Não abuse da camaradagem de seu contratante (sim, existem os legais) e consuma somente o que for oferecido. Durante ou antes do show, álcool com moderação: o palco é nosso ganha pão e por mais que a arte nos proporcione um trabalho menos burocrático, não deixa de ser trabalho. Tenha postura, permaneça sóbrio. Músico não tem que ser bebum e isso é ridículo.
– Por último, um conselho de quem vive exclusivamente da música há mais de 20 anos: tenha dignidade – com seus colegas de profissão, consigo mesmo e com sua arte. Não se sujeite a qualquer coisa pra fazer sucesso. Seja honesto. Cante e toque o que sair de seu coração e não o que for mais fácil para alcançar o sucesso rápido e possivelmente descartável. No futuro, mesmo que não alcance a grande mídia ou ganhe rios de dinheiro, você se sentirá orgulhoso de seu legado. Ninguém dirá que você foi uma farsa. Pode acreditar – falo por experiência própria.

E que Deus nos abençoe, pois a música é algo divino.