quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Origem dos Ruídos e Blindagem


A blindagem é praticamente uma unanimidade nos fóruns de lutheria na internet.
Com ela, tudo ficou fácil, pois qualquer problema com ruídos no instrumento é prontamente solucionado com um bom revestimento de material condutivo na cavidade de parte elétrica.
E a explicação é muito simples (e bonita de se ler): a blindagem gera uma gaiola de Faraday no instrumento, evitando interferências externas e, por consequência, qualquer tipo de ruído.blog_IMG_1525
Achei estranha e fascinante a facilidade com que a blindagem resolve todos esses problemas, mas algumas perguntas não saíam da minha cabeça:
1- Qual a origem dos ruídos do instrumento?
2- Por que o instrumento sofre interferências de ruídos externos?
3- Como a blindagem funciona?
4- O que é e como funciona uma gaiola de Faraday?
Essas perguntas me levaram a uma outra, que julguei mais importante: O que é e como funciona um captador?
Mas, diante de tantas perguntas, uma coisa é certa: a blindagem apresenta resultados positivos, porém apenas sob certas condições. O problema é que, quem decide fazer uma blindagem no instrumento, normalmente atira no que vê e acerta o que não vê.
Vamos começar a entender o problema, dando respostas às perguntas acima:
1- Qual a origem dos ruídos do instrumento?
Normalmente, ruído no instrumento tem 4 causas principais: baixa qualidade do captador, problemas no aterramento do circuito elétrico do instrumento, problemas no aterramento do circuito elétrico do equipamento utilizado e problemas no aterramento do circuito elétrico do próprio imóvel.
Existe uma quinta causa, que é o caso dos single coils. Muitos fazem blindagem certos de que o ruído dos single será eliminado. Isso jamais acontecerá.
hum gerado por esses captadores é proveniente da própria concepção: bobinas simples geram ruídos. Com ou sem blindagem. A única maneira encontrada para eliminar o ruído do single coil foi eliminar o próprio captador. Em 1956, Seth Lover descobriu que uma segunda bobina cancelava o ruído de um captador de bobina simples. Foi assim que surgiu o humbucker. Acreditar que uma simples blindagem elimina ruídos de single coil significa cuspir em todo o trabalho pesquisado e desenvolvido por Seth Lover.
SethLover
2- Por que o instrumento sofre interferências de ruídos externos?
Os ruídos externos (quem nunca ouviu falar de amplificadores que transmitem jogos de futebol?) acontecem da mesma maneira para qualquer equipamento exposto a uma grande interferência. Por exemplo: ligue uma televisão e um liquidificador ao mesmo tempo.
Se houver chuviscos na televisão, é muito provável que qualquer outro equipamento de áudio ou imagem também tenha sido afetado. Nesse caso, também é muito provável que o problema esteja no circuito elétrico do imóvel, como fios de baixa qualidade ou aterramento ineficiente. Em outras palavras, na grande maioria das vezes, problemas com ruídos significam problemas com aterramento. E não vai adiantar blindar a televisão.
3- Como a blindagem funciona?
A versão popular é que a blindagem gera uma gaiola de Faraday no instrumento. Essa gaiola funciona como um isolante de interferências externas, impedindo que qualquer ruído entre no circuito da guitarra. Mas na verdade, a blindagem funciona como um mega aterramento no instrumento, pois a camada de material condutivo que reveste a cavidade da parte elétrica e dos captadores propicia um escoamento gigante dos negativos dos captadores para o negativo do jack e para o terra da ponte.
A fórmula mágica é a seguinte: quanto mais os negativos dos captadores conseguirem “sair” da guitarra (através do negativo do jack e do terra da ponte), melhor. A única coisa que a blindagem faz é facilitar esse tráfego de negativos pelo instrumento.
4- O que é e como funciona uma gaiola de Faraday?
blog_GAIOLA
Um site muito bom para entender a Gaiola de Faraday: http://www.futureng.pt/gaiola-de-faraday
“Gaiola de Faraday é a designação pela qual se tornou conhecida uma experiência efectuada por Michael Faraday, em 1836, para demonstrar que uma superfície condutora electrificada possui um campo eléctrico nulo no seu interior. Isso acontece porque as cargas se distribuem de forma homogénea na parte mais externa da superfície condutora, deixando de haver manifestação de fenómenos eléctricos no seu interior.”
“A gaiola de Faraday é um invólucro metálico que impede a entrada ou a saída de um campo eletromagnético.”
Assista ao vídeo, no link abaixo, e preste bastante atenção na demonstração de um experimento sobre a gaiola de Faraday:
Dois pontos importantes devem ser observados:
1- Para que a gaiola surta efeito, é imprescindível que o objeto emissor ou receptor de ondas eletromagnéticas esteja realmente localizado no interior da gaiola. Apenas dessa maneira, ele estará isolado do meio externo.
No caso da guitarra, o objeto emissor de ondas eletromagnéticas é o captador e ele não está dentro da gaiola de Faraday, já que a blindagem fica abaixo do captador.
blog_Blindagem
2- Se a gaiola de Faraday funcionasse, seria neutralizada imediatamente com o contado das mãos nas cordas ou na ponte do instrumento. Todo o isolamento gerado pela gaiola de Faraday seria rompido e o nosso próprio corpo seria o novo condutor de todo tipo de interferências para os componententes elétricos da guitarra.
Se repararnos no vídeo apresentado, veremos que o celular fica completamente incomunicável apenas enquanto o professor não encosta nele. A partir do momento em que o professor toca no aparelho, ele passa a funcionar normalmente, ou seja, passa a receber os sinais eletromagnéticos, mesmo estando dentro da gaiola. Isso acontece porque, ao ser tocado com as mãos do professor, o próprio se torna uma antena para o celular, recebendo as ondas eletromagnéticas e repassando para o aparelho. No caso do instrumento, ao encostar nas cordas, o músico anularia a função da gaiola de Faraday, pois ele seria a antena que receberia as ondas eletromagnéticas e as enviaria fisicamente (através do contato com as partes metálicas, dos fios e das soldas) para o interior do instrumento.
Mais um ponto importante: a gaiola de Faraday só funciona com emissores ou receptores de ondas eletromagnéticas. Os potenciômetros não são nem uma coisa, nem outra. A blindagem na cavidade da parte elétrica não vai “limpar” o sinal para que ele seja passado adiante. A blindagem não limpa sinais. Ela anula sinais.
Mas, se não existe gaiola de Faraday no instrumeto, por que a blindagem funciona?
Para responder essa pergunta, precisamos entender o que é e como funciona um captador.
O captador é, antes de qualquer coisa, um dispositivo gerador de eletricidade com corrente alternada.
De uma maneira superficial, é formado por uma bobina e imãs que podem estar na parte interna ou logo abaixo da bobina.
É gerador de corrente alternada porque os pulsos elétricos, gerados na mesma velocidade de vibração da corda, ora caminham para uma direção (uma das 2 pontas do fio da bobina), ora caminham para a direção oposta (a outra ponta do fio).
O fio que é designado positivo é conectado ao terminal positivo do jack e o fio negativo é conectado ao terminal negativo do jack.
Porém, o amplificador não faz um aterramento pleno do negativo do captador, sendo necessária a adição de um fio que leva esse negativo para a ponte do instrumento. Quando encostamos nas cordas, todos os ruídos cessam. Isso acontece porque nós somos o verdadeiro terra do instrumento. Ao encostar nas cordas, todo excesso de negativos existente no circuito elétrico saltam para as nossas mãos.
Quando são usados fios de baixa qualidade, os negativos não são completamente transportados para o aterramento da ponte e sobram no circuito elétrico, gerando os indesejáveis ruídos.
A blindagem funciona como uma espécie de piscinão, impedindo que haja acúmulo de negativos no circuito do instrumento.
Quando nos preocupamos em planejar a parte elétrica e utilizar fios de alta condutividade e estanho de alta qualidade, os negativos dos captadores são transportados corretamente para a ponte e para o jack do instrumento, transformando qualquer blindagem em redundância.
blog_Aterramento
A blindagem acontece por que, ao invés de ser refeita toda a parte elétrica com componentes adequados, o indivíduo reveste todas as cavidades do instrumento com material condutivo, imaginando estar criando a gaiola de Faraday, quando, na verdade, está intensificando o sistema de aterramento do instrumento, só que da maneira errada.
Para terminar este texto, deixo uma última pergunta, para reflexão:
Por que uma guitarra custa alguns milhares de reais, utiliza acessórios caríssimos e tecnologias que nem imaginamos, mas não possui uma simples blindagem?
blog_IMG_0615Gibsob Les Paul Standard
blog_Image2Gibson Les Paul Studio
blog_thunderbirdGibson Thunderbird Nikki Sixx
fender-300x225Fender reedição 56

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Vai comprar uma Fender ? saiba qual realmente vale a pena



Segue uma  revisão aqui alguns fatos sobre a qualidade das guitarras Fender que, como sabemos, sempre flutuou ao longo dos anos a partir de 1968-70. É de consenso geral que a qualidade caiu muito entre 1972 e 1984, mas há vários períodos pós 1984 que não são muito dignos.
Seguem as dicas de guitarras que "parecem mas não são":


1 - FENDER MADE IN JAPAN:
O primeiro mito que tem que cair é o de que as Fender Made In Japan (MIJ) são excelentes. Até 1984, no máximo 85, tudo bem. Daí em diante, apenas as séries especiais (que não vinham para o Brasil) são boas. Mais de 90% das Fender MIJ e CIJ (Crafted In Japan) têm corpo de basswood e captadores bem genéricos. Novamente, pra evitar outra leva de perguntas, não dá pra saber se o corpo é basswood ou alder exceto retirando a tinta. Mas pela lógica e fatos, aposte no basswood.

Em tempo: "Made In Japan": totalmente feita no Japão. "Crafted In Japan": feita em outro local (China, Coreia, etc.) e finalizada no Japão.



2 - FENDER USA 1983:
Estão entre as piores americanas de todos os tempos, principalmente as stratos com o tremolo freeflyte:
 Stratocaster Fender de 1983






3 - FENDER USA (modelo standard, entre 1993-1998 aproximadamente):
Cavidade dos captadores do tipo piscinão (universal), captadores ruins. Fraca seleção de madeiras.

Corpo de uma stratocaster Fender de 1997




4 - FENDER SOUTHERN CROSS:
Entre 1993 e 1995, a Giannini fabricou, sob licença da própria Fender, cerca de 5.000 guitarras e baixos aqui no Brasil. A série recebeu o nome de "Southern Cross". Corpo de cedro, braço de marfim e hardware americano. O próprio Carlos Assale admite que as Southern Cross eram inferiores às americanas. Não dá pra ter um som clássico de strato ou tele com corpo de cedro e ponto final.
Stratocaster Fender Southern Cross




5 - FENDER "AMERICAN TRADITIONAL" (1999-2001):
Essa série, produzida nos EUA (mas com peças mexicanas) entre 1999 e 2001 é a mais perigosa, principalmente em relação às stratos. A Fender não confirma (e nem nega), mas a maioria dos corpos era de Poplar. Captadores cerâmicos, hardware no limite da qualidade. Não era uma série de todo ruim, mas também não era boa e aqui no Brasil uma strato american traditional é facilmente confundida com uma american standard. Se for comprar, o preço deve ser pelo menos 30-50% mais barato que uma american standard de 2001 em diante. Atenção para o decalque "American Traditional" posicionado onde normalmente está o "Original Contour Body":

Stratocaster Fender American Traditional.




 6 - FENDER "CALIFORNIA":
A série "California", produzida apenas em 1997 e 1998 pode ser identificada pelo mesmo princípio da American Traditional: decalque "California Series" onde deveria estar o "Original Contour Body". O número de série obrigatoriamente contém o prefixo "AMXN" (American/Mexican/1990s) na parte posterior do headstock. Basicamente eram guitarras feitas nos EUA mas pintadas no México. O corpo tinha duas ou três peças de alder e o resto era quase no padrão de uma American Standard (criado em 1986, a Fender não utilizou - geralmente - o termo "American Standard" entre 2001 e 2007, apenas o "American"). Boas guitarras. A série California é a única desse post cuja má reputação é desmerecida e nem deveria estar na lista :)





7 - FENDER STANDARD MIM:
Toda a série "standard" feita no México é inferior. Madeiras, hardware, tudo de qualidade inferior quando comparada a qualquer série americana. Algumas séries mexicanas são muito boas, como as "Classic", Tele Baja, etc. Idem para as séries "Modern Player" feitas no oriente, geralmente Coréia.
Evitem perguntas sobre as MIM ou Squier, por favor. Somente a série standard é inferior (não necessariamente ruim, ok?)


PS: Obviamente refiro-me de forma genérica aos modelos citados. Há MIM standards muito boas e conheço gente que não vende sua Southern Cross por nada. Esse post é para dar uma orientação geral pra quem está querendo comprar uma Fender usada e não tem muito conhecimento técnico.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

De onde vem seu timbre ?



Bom, meus amigos... Parem e pensem! Quantas mil coisas nós guitarristas temos que pensar e abordar na hora de um show, um vídeo, um ensaio ou uma gravação? Muitas coisas! Tais como o que falar, quantos takes gravar, qual equipamento priorizar, repertório, como tocar, com quem tocar, etc... Mas, espere. Será que não estamos esquecendo de nada?

Não? Não mesmo?? Pense bem... Sim, estamos esquecendo do TIMBRE!

Comecei a escrever dessa forma para exemplificar uma realidade que vivemos! Muita gente não pensa diretamente no timbre... E, quando pensa, acaba não pensando da forma correta. É preciso saber como aproveitar melhor o seu som!

De onde vem o timbre? Das suas mãos!

Primeiro, de onde vem o timbre? Logicamente, de suas mãos! Suas características físicas vão determinar certas coisas, como leveza, sutileza e polidez do seu toque. Isso determina o quão “orgânico” e expressivo pode ser sua forma de tocar! Timbre é uma coisa extremamente importante, é sua marca registrada e isso sai de você!

Se observarmos bem, o timbre é afetado diretamente por vários micro-detalhes que estão em suas mãos:

- A forma como você abafa as cordas (tanto com a esquerda quanto com a direita);
- Como você faz seus vibratos e bends;
- Como você puxa um harmônico artificial;
- A força e o ângulo da sua palhetada;
- Onde exatamente sua palheta toca as cordas (mais perto da ponte ou próximo ao braço);
- Como você combina ligados com palhetada, e outros detalhes.

Claro que os equipamentos ajudam, mas tudo começa com o refinar de seu toque e o uso de suas técnicas.

Podemos ver esse fato através de um grande guitarrista: Sr. Satriani! Autoridade musical... referência em boa musicalidade, técnica e timbre! O Satch se consagrou usando o amplificador Peavey 5150, originalmente elaborado por Eddie Van Halen, e depois passou a usar o Peavey JSX, e, recentemente, o Marshall JTM. Ou seja ele usou vários modelos de amps durante sua carreira, porém sempre tirou um som característico, um timbre familiar conhecido por seu admiradores. Bastam duas notas para você saber quem está tocando, independentemente do equipamento!

Agora, por que bastam duas notas?? Por causa do amp dele? Por causa de suas guitarras? Meus caros... não sejamos inocentes... Quantas mil pessoas usam Peavey, Marshall e Ibanez... são marcas extremamente fortes e de amplitude mundial... Se fosse dessa forma, todos teriam esse timbre! Então... é o toque! São movimentos e técnicas que a própria experiência lhe trazem!

Me lembro da primeira vez que me toquei para essa questão de timbres. Exatamente uma década atrás, quando assisti a uma apresentação do guitarrista Heitor Mazzotti em Piracicaba, cansado de ouvir caras tocando muito igual durante anos, fui ver esse maluco fazer um show tocando temas instrumentais e composições próprias. Aquilo foi impactante, pois havia timbre... havia personalidade musical... e o amp do cara era um Mesa Boogie e a guitarra uma Ibanez! Um equipamento padrão para guitarristas de metal!

Foi um show que eu sai com a cabeça embaralhada... Sem saber ao certo se eu realmente tocava guitarra, ou dublava! Saí meio derrotado, mas pronto para tentar vencer! Eu tinha acabado de ouvir um guitarrista com um timbre e uma musicalidade muito própria! Agora, por que isso? Porque ele tem uma técnica impressionante... Não só isso, mas porque ele tem timbre, originalidade, e identidade! E esse é o segredo dos grandes guitarristas.

Equipamentos e timbre

Mas aí, qual a real função de nossos equipamentos? Por que então investimos tanto se o som realmente não está só nos equipamentos? Vejamos.

Seu equipamento é um meio para seu timbre fluir bem. Imagine um grande piloto de Fórmula 1, como Ayrton Senna, que foi um gênio, um ídolo na sua profissão. Um grande piloto possui um carro extremamente potente! Mas, se ele é bom mesmo, por que não pilota um carro comum? É simples. Será que um carro qualquer trás a estabilidade necessária em uma curva, e consegue ter o torque necessário em uma reta? Então, é isso! O carro é uma ferramenta para ele executar da melhor forma suas habilidades de guiar.

Voltando ao mundo da guitarra, nossos equipamentos são ferramentas que usamos para conduzir da melhor maneira nossa tocabilidade. O timbre vem de nós, e o equipamento é um meio de conduzir isso.

Sempre tive a oportunidade de tocar em vários amps, e digo a vocês, quando ligo minhas guitarras em um Mesa Boogie, um Marshall ou um Peavey, sinto uma diferença muito grande na sonoridade do meu timbre. Vejo que os amps caracterizam muito o timbre! Caracterizam, mas não definem! Com a guitarra é a mesma coisa. Mas, quando plugamos guitarras diferentes no mesmo amp, percebemos que a diferença entre elas é mais sutil.

Timbre e pedais de efeito

Sobre pedais... Ouço muitos enganos sobre isso. Pedais não timbram! Eles apenas cumprem uma função e, por isso, são chamados de pedais de efeito. Eles agregam pouquíssimo no seu timbre. Às vezes, o pessoal se engana nesse ponto, achando que um pedal ou pedaleira vai lhe trazer o timbre desejado... Não, ele agrega um determinado efeito, apenas isso! Tudo continua soando através do seu amplificador e guitarra, somados a sua maneira de tocar!

Uma dica de timbre em gravações

Já que o timbre não está nos pedais, seja o mais simples possível numa gravação. Uma boa guitarra, um bom amplificador e um bom cabo, assim você garante mais sinal no seu som. Efeitos podem ser adicionados através de plug-in's depois na hora da edição.

As dúvidas mais frequentes

Agora, vou aproveitar certas dúvidas clássicas que sempre surgem para continuar a escrever esse artigo. É legal fazer dessa forma para nos concentrar nas principais dúvidas do pessoal!

É possível extrair um bom timbre de equipamentos mais baratos?

Não vou dizer que é algo impossível, mas um equipamento de baixa qualidade compromete seu timbre. A construção e componentes de determinado equipamento podem te prejudicar na qualidade do som que acaba interferindo na maneira que seu timbre é trabalhado!

Quero comprar certo equipamento (guitarra, amplificador ou pedal), pesquisei e assisti a muito reviews. Estou seguro do produto que vou comprar?

Muita atenção nesse ponto! Lembre-se que o review que você está assistindo trás um determinado músico extraindo as sonoridades de um equipamento de acordo com suas próprias características musicais! Pode ser que, ao adquirir o equipamento, você sinta certas diferenças nos timbres.

Guitarrista bom tira som de “qualquer” coisa?

A princípio, sim! Mas, com certeza, um cara que toca bem terá escolhas mais seletas e pensará mais na qualidade daquilo que sai de seus falantes.

Timbre é algo que trás muitas dúvidas e velhos mitos que hoje em dia já não fazem mais sentido. Muitas coisas mudaram, novas coisas foram agregadas, mas ainda temos um fator determinante no timbre: o próprio guitarrista. É dessa forma que muitos guitarristas se tornaram ícones, por trazer uma forma totalmente particular na hora de tocar.

Nunca vi ninguém ser reconhecido por conseguir timbrar igual o Steve Vai! Mas sempre vi caras serem enaltecidos por possuir uma musicalidade própria e é disso que temos que correr atrás! Esse é o tal segredo!

Lembre-se: tudo parte da gente, equipamentos e afins são artefatos que com o tempo vamos descobrindo para melhorar a condição de nossos timbres.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

NUT - tipo de materiais



Hoje em dia, nos principais fóruns na internet, tanto nacionais como estrangeiros, existe um amplo debate de opiniões sobre vários assuntos que dizem respeito ao bom funcionamento de um instrumento musical de cordas, principalmente guitarras e baixos. Com o intuito de colaborar na formação de sua própria opinião sobre alguns deles, nesse primeiro post da série “Mitos e Verdades” vou abordar o tema “NUT” baseado em minha própria experiência lidando com essas pequenas peças na busca do meu timbre ideal. Concordando ou não com a minha opinião, leia todo o post para saber como embasei tecnicamente os meus comentários. 

O “NUT”, também chamado de “pestana”, é responsável pelo ponto de apoio das cordas que “chegam” nas tarraxas passando sobre a escala do instrumento, partindo da ponte. É uma parte do instrumento de corda, pequeno e muitas vezes desprezado componente que pode modificar consideravelmente o desempenho do instrumento. Um NUT mal instalado ou adaptado de maneira incorreta pode gerar conseqüências desastrosas tais como: desafinações constantes, quebras de cordas, instabilidade e impossibilidade de regulagem das oitavas, sem contarmos o trastejamento por irregularidades proporcionadas por alteração da altura das cordas em relação à escala.

Os NUTS mais conhecidos e encontrados no mercado são:

NUT de Osso Bovino: Também conhecido como “bone”, foi o material mais utilizado historicamente nos instrumentos de corda. É um material com dureza considerável e seu desgaste é pequeno. Normalmente prendem um pouco as cordas e geram alguns estalos ao afinar, devendo ser lubrificados constantemente para melhor funcionamento. Esta lubrificação nunca foi bem difundida e será abordada mais adiante.
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NUT de plástico: É encontrado na maioria das guitarras de custo baixo vendidas no mercado e geralmente pode ser comprado facilmente para reposição em lojas de instrumentos musicais sendo considerados como peças de reposição. Para que possam desempenhar sua função com mais eficiência, darei também algumas dicas mais a frente. Continue sua leitura.
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NUT de Grafite: Alguns fabricantes observaram que "guitar techs" de guitarristas experientes usavam pó de grafite “in natura” ou oriundo de lápis ou lapiseiras no leito das cordas nos NUTS para melhor deslizamento. Por que não fabricar um NUT todo desse material? Pronto, estava inventado um NUT onde seu material principal era o Grafite. Com o passar dos anos esta peça foi ganhando muitos seguidores. Sua característica principal é diminuir consideravelmente o atrito das vibrações das cordas nos NUTS, mantendo a afinação do instrumento por mais tempo principalmente com músicos que exageram nos “Trêmulos e Bends”.
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NUT de Latão (Liga de Cobre e Zinco): Para aqueles que gostam de acompanhar determinados Guitar Heros, vale a pena lembrar que o guitarrista Yngwie Malmsteen tem este tipo de nut instalado em muitas de suas guitarras. A questão é que apresenta pouco atrito com as cordas e uma mudança no timbre de forma “metalizada”. Vale a pena lembrar que determinadas mudanças no timbre deve ser observado com a corda solta e certamente com o “ouvido referencia”, portanto muito individual e subjetivo, sem comprovação técnica eficaz.
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NUT de Corian: É um material híbrido feito de osso, caroços e plástico, com aspecto visual de um osso branco, boa densidade e dureza. Também tem sido utilizado para saddles de violão com captadores de contato do tipo Piezo apresentando boa resposta do contato magnético segundo os fabricantes. 


















NUT de Micarta: É um material sintético do “bone”, ou seja, osso sintético com um visual “fosco e amarelado” parecido com o Marfim (presas de elefantes). É um material bem maleável ao lixamento e ótimo para fabricar saddles para captadores tipo piezos.  É muito utilizado, juntamente com o material anterior (Corian), pela empresa de violões Martin Guitars e outras conceituadas marcas de violões.
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NUT de Marfin: Fabricado a partir da presa de elefantes,  nem preciso dizer que é um material proibido mundialmente na fabricação de quaisquer itens, exceto de uso religioso na Índia e Tailândia. Portanto, é extremamente caro, e tem características técnicas semelhantes ao osso.
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NUT de Madrepérola: Material natural de extrema densidade e visual muito bonito, são provenientes das conchas e usados para confecções de NUT´s de Banjos e Bandolins. Por ai se imagina o preço (!)

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Roller NUT: merecem uma citação à parte, sendo classificados como sub categoria dos NUT´s de Latão. Foi criado para de resolver alguns problemas que existiam com os NUT´s comuns, como diminuir o atrito e manter a afinação. Um dos primeiros protótipos lançados no mercado foi através da empresa Wilkinson na década de 70 e um guitarrista muito conhecido foi um dos pioneiros a utilizar e difundir o produto: Jeff Beck
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A criação realmente resolveu o problema de muitos guitarristas que passaram a ter mais estabilidade na afinação e o uso tranquilo da alavanca sem desafinar o instrumento rapidamente. O problema é que os Roller Nuts não suportavam grandes calibres de corda e normalmente paravam no 0.010. Outro fator negativo foi que com a pressão das cordas e o tempo de uso, faziam com que o eixo das roldanas se deformasse fazendo com que elas não girassem mais tão livres quanto antes, aumentando o atrito com as cordas.

A Fender, que já estava estabelecida no mercado na área de acessórios para guitarras, lançou em 1993 o seu próprio “NUT turbinado” que recebeu o nome Fender LSR Roller Nut. Com uma construção maciça em metal, a peça internamente agrega esferas de aço que “seguram” a corda e rodam dentro do compartimento quando a guitarra é tocada ou afinada. Essa peça, além de ser menor e mais bonita, resolveu o problema de calibres maiores, suportando cordas de 0.008 a 0.056. O problema do desgaste também foi resolvido. O desgaste é praticamente zero, uma vez que as esferas duram anos em um rolamento normal de uma máquina que faz milhares de giros por minuto. Basta pensar que para elas girarem tudo isso em uma guitarra seria preciso anos tocando ininterruptamente para começar a ter problemas com desgaste.
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Agora que você já conhece ou relembrou os principais tipos de matérias primas de NUT´s mais encontrados nos instrumentos musicais até hoje, vamos aprofundar um pouco mais o nosso tema.
Minha experiência nunca me deixou preocupar apenas com o NUT em sí, pois ele é uma das partes integrantes para o bom funcionamento de um instrumento de cordas. Não adianta ter um NUT de ótima qualidade, “caro”, “lubrificado constantemente”, “timbre maravilhoso” (como dizem, totalmente ajustado ao tamanho das cordas, bem colado, etc) trabalhando em conjunto com tarraxas que não conseguem “segurar” a afinação, abaixadores de cordas (string retainer) ruins e pontes com trêmulos de baixa qualidade. Devemos considerar até mesmo a maneira como que o músico toca seu instrumento, exagerando nas “alavancadas” ou nos “bends”.

Para chegar a conclusão que realmente o NUT “desestabiliza” sua guitarra, a análise deve ser ampla, considerando o instrumento como um todo, e, em muitas vezes, a ajuda de um bom luthier ou um guitartech é fundamental para evitar gastar dinheiro desnecessariamente em peças que não irão resolver definitivamente o problema.

Atribuir ao NUT a mudança do timbre da guitarra, como tenho visto em alguns videos no YouTube, seria arriscar demais na minha opinião. Aliás, como já mencionei anteriormente, nem me preocupo muito com isso. Posso afirmar que já percebi uma mudança muito discreta, quando instalei rastilho de metal em um violão ao invés de osso ou plástico, aparentemente ocorrendo uma “metalização” do som. Assim tenho minhas dúvidas quando ouço alguém dizendo que há diferenças na troca do NUT, uma vez que para essa peça supostamente influenciar “audívelmente”, deveríamos considerar apenas as cordas soltas sendo tocadas, ou como alguns dizem traste zero, já que para os outros casos, o timbre sairá dos trastes que você tocar.

Assim, a característica mais importante a ser considerada no NUT é a sua capacidade de não “prender” a corda, comprometendo a afinação e o livre deslizamento durante as vibrações das notas. Dessa forma, o ajuste de altura é importantíssimo para uma boa regulagem das cordas e melhorar a tocabilidade. Devemos considerar o “leito das cordas”, ou seja, uma corda com calibre maior deslizando em um NUT com seu leito não adaptado para este calibre da corda proporcionará mais atrito.
Na figura abaixo está demonstrado o que chamamos de “traste zero”. Trata-se de uma das maneiras de diminuir o atrito das cordas junto ao NUT. Isto só funciona se a região (berço) do NUT onde as cordas passam estiver maior que o diâmetro das cordas.
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A outra maneira de usar o “traste zero” é transformar o nut apenas como guia das cordas em direção às tarraxas.
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Outra tentativa em diminuir o atrito ocasionado pelas cordas é o uso de pó de Grafite, que pode ser encontrado em lojas de ferragens ou passando um lápis ou lapiseira no leito das cordas no NUT. Devemos tomar cuidado para não exageramos e deixar suja a escala como na figura abaixo. Percebam que o NUT é de osso, com berços adequados ao tamanho das cordas e lubrificado com Grafite.
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Ao invés do pó de Grafite, o uso de óleos lubrificantes tanto no NUT quanto nos sadlles da ponte, estão ficando cada vez mais comuns. Muitos guitartechs estrangeiros utilizam seringas já carregadas com esses lubrificantes, como nas figuras abaixo. Note que somente uma gota é utilizada por berço, com a corda fora do NUT. 
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Mas de nada adiantará a lubrificação dos berços se não fizermos o ajuste correto considerando o diâmetro das cordas. Como vimos, esse ajuste é importantíssimo para que a corda movimente-se com menos ou nenhum atrito. Veja na figura abaixo uma das situações ideais:
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Você pode me perguntar se um leigo poderia fazer tais ajustes no NUT das suas guitarras. Eu respondo que SIM, se você conseguiu identificar que o NUT é o único responsável por alterações do seu instrumento e se sentir seguro para realizar este trabalho. Mas lembre-se que deve estar preparado para o que possa surgir como conseqüência e se ainda assim estiver inseguro, procure um luthier da sua confiança para fazer o ajuste. Ah, sente-se seguro para seguir adiante? Então fique tranqüilo e leia algumas dicas bem simples para se sair bem dessa tarefa. Vocêe vai precisar de uma pequena lima redonda, encontrada nas lojas de ferragens, para fazer esse ajuste.
O primeiro passo é adequar o diâmetro da corda ao diâmetro do respectivo leito no NUT. Se as alturas das cordas estão corretas, procure não limar em excesso, aprofundando demais o leito. Se fizer isso, essa corda poderá apresentar trastejamento. Neste ponto acredito que um musico inseguro ou inexperiente terá muita dificuldade na determinação do limite e relembro que nesse caso um luthier ou um guitartech serão necessários para o ajuste.
Para quem não pode contar com eles, minha dica é ajustar os berços com muito cuidado. Existem limas próprias (importadas) para este serviço, inclusive no diâmetro das cordas. No meu caso usarei uma lima diamantada comum apenas para a largura e não profundidade.
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Após adequarmos o tamanho do leito para a corda no NUT, passaremos para a parte da lubrificação, que qualquer um conseguirá fazer. Devemos lubrificar para diminuir o atrito, certo? As maneiras mais simples e mais acessíveis além de adaptadas que conheço são:

1. Grafite:
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2. Óleo lubrificante (extrato de limão utilizado na limpeza das escalas):
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3. Óleo de lubrificação de válvulas de instrumentos de sopro:
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Pronto, com o NUT ajustado e as cordas trabalhando livremente, você já tem base para emitir sobre própria opinião sobre qual NUT é o mais apropriado para seu estilo de tocar e para o seu instrumento musical.
Concluindo, quero dizer que para “fatos não há argumentos”. Se por acaso surgir uma oportunidade para você opinar sobre as alterações das frequências ligadas ao material que o NUT é feito, considere que deverão ser adaptados, em uma mesma guitarra, todos os tipos dessa peça e, com o som de uma corda solta, verificar se há alterações de frequências através de um analisador de espectro de áudio, sem espaço para achismos. O ouvido humano é muito complexo e algumas alterações que possam ser percebidas por uma pessoa, podem não ser para outra. E com esses conhecimentos, você se torna um consumidor mais preparado e não vai cair em qualquer “historinha”.

Como regra geral, acredito que uma guitarra, que tenha boas tarraxas, ponte, cordas e o NUT bem ajustado e lubrificado, associado a uma boa regulagem lhe trará ótimos resultados.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Como fazer a leitura de um " Captador"




Resistência, Indutância, Capacitância, Frequência de Ressonância, Fator “Q”.


Esses conceitos são difíceis de compreender plenamente, mas vou tentar simplificar (sem agredir a física... :)

Adendo: relendo todo o texto, percebi que é difícil, num primeiro momento, extrapolar as propriedades eletromagnéticas para a nossa visão leiga e "sonora" do captador. Então, mesmo correndo o risco de ser execrado por algum físico ou engenheiro eletricista, vamos nos guiar pelo seguinte:

a) Resistência e principalmente Indutância estão relacionados com a potência/volume do captador. Quanto mais elevados mais sinal é enviado para o amplificador. Não podemos esquecer que quanto maiores, geralmente teremos mais médios e menos agudos. Lembre-se: o aumento isolado da resistência (só enrolando mais fio) não vai aumentar tanto a potência e vai tirar muito agudo.
b) Capacitância: vamos relacioná-la como responsável pela diminuição/atenuação de agudos do captador
c) Frequência de Ressonância: define se o captador tem mais ou menos agudos, se é mais ou menos brilhante. Quanto maior, mas agudo é o captador.
d) Fator "Q": a combinação dos valores acima deve ter um certo equilíbrio, por exemplo, não podemos enrolar muito fio e usar um imã fraco. O som vai ficar muito ruim e/ou estranho. O fator Q é o resultado de uma fórmula que mostra se os outros valores estão equilibrados entre si.

Então, pelo descrito acima, um captador com muita resistência, baixa/média indutância, alta capacitância e pico de ressonância de 4k (use de referência um captador Fender de strato, que está por volta de pelo menos 8-9k de ressonância) será com certeza um captador mais potente, porém "abafado" e desequilibrado. O fator Q dele certamente não estaria na faixa considerada ideal.

Importante: A força magnética (tipo, forma e volume do imã) também influencia no volume e é diretamente proporcional.


Antes, é importante ressaltar que essas propriedades sempre atuam em conjunto para o timbre final. Nunca devemos usar um valor isoladamente para “ler” o captador.

Resistência (expressa em Ohms): “Oposição à passagem da corrente elétrica relacionada com o comprimento e diâmetro do fio de cobre”. Ou seja, quanto mais longo e, surpresa,mais fino, maior a resistência. A resistência e a indutância geralmente indicam (existem outros fatores) a potência (volume) do captador. Os fios de cobre usados têm o diâmetro padronizado (AWG: American Wire Gauge) de 42 ou 43 AWG, raramente outro valor. Quanto maior o AWG, mais fino, quanto mais fino, mais resistência. Então, 1.000 voltas (espiras) de fio 43AWG terá mais resistência (e mais potência) do que 1.000 de 42AWG. Mas quanto mais alta a resistência, maior a perda de agudos.

Indutância (expressa em Henries): “A capacidade de uma bobina em criar o fluxo com determinada corrente que a percorre é denominada Indutância (símbolo L) medida em "henry" cujo símbolo é H.” Essa é difícil... :) Seria mais ou menos a “força bruta” do captador. A corrente elétrica gerada e correndo pela bobina cria também um campo magnético, que se opõe ao do imã. Mas ambos não se anulam, e sim geram ainda mais força. Pense assim: a corrente elétrica da bobina , devido à presença de metal no seu centro (o metal do próprio imã e dos parafusos no caso dos humbuckers) cria um campo eletromagnético que por sua vez interage com o campo magnético do próprio imã. Isso gera força bruta... Dá pra perceber a importância do imã - não só pelo seu magnetismo, mas pelo seu tamanho e estrutura metálica também.
Captadores geralmente têm indutâncias entre 2.5 a 10 Henries. Geralmente, quanto mais voltas do fio, maior a resistência E indutância, mas essa em menor grau, pois a indutância depende também da quantidade de metal e força do imã. Ou seja, se elevarmos a resistência aumentando o número de voltas do fio, teremos que aumentar a força magnética e geralmente a quantidade de metal no seu núcleo para haver um equilíbrio.

Então, pra gente não se perder, se eu pegar um single coil típico de strato com 6 k ohms de resistência (entre 7.500 – 8.000 voltas/espiras) e 2,4 henries, deverei “ler” da seguinte forma: os 6K estão diretamente relacionados às voltas e espessura do fio e é a resistência pura. Os 2,4 henries estão relacionados às voltas e espessura do fio e TAMBÉM à força dos pinos de imãs e quantidade total de metal (ppte dos pinos). Exercitando:

1 - Se eu aumentar o número de voltas/espiras apenas, terei um pequeno acréscimo de volume/ganho (pelo aumento da resistência e pequeno da indutância) mas começo a diminuir a resposta de agudos.

2 - Se eu aumentar o número de voltas/espiras mas diminuir a força e/ou o tamanho dos imãs, vou mudar muito o som do captador mas ele terá quase a mesma potência/volume.

3 - Entretanto, se eu aumentar as espiras E a força ou o tamanho do imã, aumentarei de fato a potência (e também a sonoridade) e força do captador.

Esses exemplos são apenas pra citar as possibilidades de tunagem do timbre. Cada pequena mudança gera uma sonoridade diferente. Obviamente já deu pra compreender que não se aumenta a potência de um captador apenas enrolando mais fio – vai chegar num ponto que ele ficará extremamente agressivo nos médios, pálido de agudos e com pouca dinâmica.

Se estiveres lendo atentamente, podes pensar: e se fosse um Humbucker? Sou metaleiro e quero muita potência pra estourar o input do meu amp! Eu não poderia trocar o fio 42AWG por um 43 AWG, que é mais fino (cabem mais voltas nas bobinas) e tem mais resistência, aumentar as espiras e jogar a resistência para acima de 13K e trocar essa barra de AlNiCo fraquinha por uma barra de imã cerâmico/ferrite para aumentar também a indutância? Ele teria o dobro da potência de um PAF! Esse captador ficaria super power e o amp distorceria mais.... :)

...Pois foi exatamente essa a idéia do Larry DiMarzio quando criou em 1972 o lendário captador “Super Distortion”, que mudou pra sempre o conceito de captadores. Aqui está o monstro que matou o PAF - DiMarzio Super Distortion (DP 100). Cerca de 13k DC de resistência, fio polysol, imã cerâmico:



Capacitância (expressa em Farad ou Faradays): “Capacidade de um corpo de reter carga elétrica”. O nome já sugere tudo: metais absorvem/roubam/desviam eletricidade. E quando um sinal elétrico como o do captador, que está traduzindo um som, é desviado, as frequências mais altas/agudas vão primeiro...
O fio de cobre é um metal? Sim. Ele induz sua própria capacitância. Idem para o metal do imã. Idem para os parafusos, capinha, base plate. Até o material usado para a blindagem pode induzir capacitância e modificar os agudos e o timbre final da guitarra. Quando o Seth Lover quis usar a capa no humbucker para blindá-lo de ruídos externos, ele logo percebeu que ao colocar uma capa rica em cobre houve degradação dos agudos. Idem para as com acabamento dourado. Alumínio? Pouca capacitância mas alumínio (da época) não segurava solda... Optou finalmente por uma capa de níquel e zinco (Níckel Silver ou Prata Alemã ou a nossa “Alpaca”).

Já deves ter pensado: Por isso que quando aumentamos as espiras/resistência do fio de cobre, perdemos agudos... Sim, uma das razões é essa: mais fio, mais resistência, mas também MAIS CAPACITÂNCIA (e menos agudos)... :)


Frequência (pico) de Ressonância (expressa em Hertz): É a "impressão digital sonora" de um captador. A frequência dominante, a partir da qual ele reproduz as outras. O pico de ressonância revela mais de um captador do que sua resistência ou indutância.

Se um engenheiro elétrico analisar um captador ele dirá: “Os elementos ativos (bobina com fio de cobre + magneto(s)) formam um circuito elétrico que apresenta um indutor e um capacitor ligados em paralelo com um resistor em série... Isso é semelhante ao “tuner” dos rádios e cria uma frequência dominante que varia conforme os valores acima”.

Traduzindo, a combinação da resistência, indutância e capacitância gera uma frequência, que geralmente está entre 1 e 10 kHz. Quanto mais alta, mais agudo o captador (mas não necessariamente mais “limpo”). Singles têm pico de ressonância entre 5 e 9 kHz geralmente. Humbuckers, de 3 a 7 kHz.

Outro exercício: já sabemos que aumentando o número de espiras, aumentamos a resistência mas diminuimos os agudos. Portanto, quanto mais fio vamos colocando mais baixo (menos agudo) vai se posicionar o pico de ressonância.

Fator “Q”: Fator de qualidade/eficiência do captador. É uma medida criada pelos engenheiros e baseada numa fórmula que analisa a relação Resistência e Indutância numa frequência pré-determinada (geralmente 1 kHz). Um "Q Factor" muito alto ou baixo sugere um captador desequilibrado e provavelmente ruim, ou no mínimo, estranho. A maioria dos captadores têm “Q” entre 2 e 3,5.
Agora olhe para um humbucker e veja quantas coisas podem interferir e determinar sua sonoridade:





Por enquanto é isso... Essa é uma parte relativamente chata e teórica, mas depois que a gente absorve e começa a exercitar esses conceitos básicos, fica muito mais fácil “ler” um captador.


Volto a dizer: todas essas propriedades, atuando em conjunto, é que determinam o som final de um captador, sua personalidade. Mude o tamanho de um simples parafuso e o que acontece? De cara, diminui a quantidade de metal, alterando a capacitância e indutância. Isso sem falar no campo magnético dos imãs (próximo capítulo)... Podes ter certeza que o timbre vai mudar... Ouvidos e mente atentos! :)

PS: com essas noções, já dá pra avaliar as especificações técnicas de algumas marcas :